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Garrett. A pastelaria das gulodices reais

Garrett. A pastelaria das gulodices reais

Miguel Silva Joana Marques Alves 26/03/2016 21:21

Situa-se em frente à praia, mas o seu momento alto surge no inverno. As filas para o bolo-rei já fazem parte do ritual. E se os doces têm um toque aristocrático, a clientela não fica atrás

Cascais e Estoril vivem das suas praias, da sua arquitetura de autor, de quem aqui habita 365 dias por ano e dos turistas que passeiam à beira-mar. É neste ambiente de veraneio que se encontra a Garrett, umas das pastelarias mais reconhecidas do país – não só pelos seus produtos, mas também por aqueles que a frequentam.
De portas abertas ao público desde 1934, a Garrett ganha pela sua localização: no centro do Estoril, perto da praia do Tamariz, num ponto onde grande parte das famílias da aristocracia e da alta burguesia portuguesa passam com frequência, quer por terem escolhido aquele local para residir, quer por ser ali que têm a sede dos seus negócios.

A terra dos exilados Para além de ser um local de excelência para muitos portugueses, o Estoril sempre foi o sítio escolhido por famílias reais e figuras de Estado durante os tempos de exílio. O rei Carol da Roménia, a grã-duquesa Carlota do Luxemburgo e a czarina Joana da Bulgária foram algumas das personalidades que passaram por esta freguesia do concelho de Cascais. 

Mas a família real espanhola terá sido a que mais marcou a vida desta Riviera portuguesa criada pelo empresário Fausto de Figueiredo. Com a queda de Afonso xiii (bisavô de Filipe vi) após a implantação da Segunda República Espanhola, os condes de Barcelona escolhem o Estoril como local de residência. Os filhos continuam a estudar em diferentes colégios em Espanha, mas começam a passar férias no Estoril – será, aliás, neste local que o príncipe Afonso irá morrer, na sequência de uma brincadeira com uma arma de fogo com o seu irmão mais velho, o futuro rei Juan Carlos. Segundo antigos clientes da Garrett, a família real espanhola costumava frequentar esta pastelaria da Avenida de Nice, que se localizava a uma curta distância da casa dos reis, a Villa Giralda. “A irmã de Juan Carlos, a infanta Margarida, continua a vir cá com frequência”, contam ao i a D. Isabel e o sr. Domingos, dois dos funcionários mais antigos da pastelaria.

O sr. Domingos trabalha nesta pastelaria desde 1976 e a D. Isabel entrou em 1980. O primeiro diz-nos que a Garrett não registou uma perda significativa de clientes no pós-25 de Abril. “Algumas pessoas saíram do Estoril mas, das informações que me foram transmitidas, não notámos aqui uma grande diferença”, diz o funcionário.

São tantas as personalidades que por ali passaram que é difícil recordar o nome de todas elas. No entanto, antigos clientes da Garrett lembram-se de ver o subsecretário de Estado da Cultura do governo de Cavaco Silva, António Sousa Lara, com frequência naquele espaço. Também o escritor Vasco Graça Moura era cliente assíduo. Já o atual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, tinha o hábito de ir à Garrett aos fins de semana para comprar pratas, umas bolachas douradas que fazem as delícias dos habitantes de Cascais e do Estoril.

Muitas figuras do mundo dos media e do espetáculo se sentaram na Garrett a sentir o cheiro a mar misturado com o aroma vindo das montras daquela pastelaria. Os jornalistas José Alberto Carvalho e Judite Sousa, a apresentadora Bárbara Guimarães, as atrizes Marina Mota e Margarida Marinho e a socialite Lili Caneças são algumas dessas personalidades. A D. Isabel recorda em particular a presença do militar e político Galvão de Melo, “um senhor que vinha aqui muitas vezes”.

A tradicional fila do Bolo-Rei Quem vive no Estoril e em Cascais já ouviu falar com certeza no cómico episódio com o motorista do presidente da Impresa, Francisco Pinto Balsemão. De acordo com as histórias que se contam, Balsemão pedia ao seu motorista para se colocar bem cedo na fila para o bolo-rei da Garrett. As encomendas eram tantas que o senhor saía com dezenas de bolos debaixo do braço. Perguntámos a antigos clientes e a funcionários do espaço se este mito urbano era verdadeiro, mas ninguém nos soube responder. “Que o sr. Balsemão já cá esteve, é verdade. Mas não conseguimos confirmar essa história em particular”, dizem ao i o Sr. Domingos e a D. Isabel.

E a mítica fila do bolo-rei já é tão ou mais conhecida que a Garrett. Na época natalícia, centenas (se não milhares) de pessoas ficam à espera que as portas do estabelecimento se abram para poderem comprar aquele que muitos consideram o melhor bolo-rei do país. “No ano passado, a fila ia até ao cimo da rua, eram 07h30 e já havia fila”, recorda o sr. Domingos. “Mesmo para os clientes, se não houver fila, todo o ritual perde a piada. Já faz parte da tradição de Natal”, acrescenta com um sorriso.

Com o passar dos anos, a Garrett sofreu algumas transformações. A mais drástica aconteceu no início do século xxi, quando a gerência decidiu comprar a casa do lado e ampliar o espaço. “Com um estabelecimento maior, conseguimos receber mais pessoas e, consequentemente, notar melhorias”, dizem ao i os funcionários da pastelaria.

Se por acaso estiver no Estoril, a ver o mar na praia do Tamariz, aqui fica um conselho: vire as costas ao mar, atravesse a Avenida Marginal e olhe para o seu lado direito. Siga o cheiro das bolas--de-berlim, dos pastéis de nata, das bicas e dos galões. Se nem as maiores casas reais da Europa resistiram, como pode alguém ignorar a Garrett?

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