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Jorge Luis Borges. O encantador guia que nos fez subir ao Inferno

Jorge Luis Borges. O encantador guia que nos fez subir ao Inferno

Diogo Vaz Pinto 24/03/2016 14:40

"A Memória de Shakespeare e Nove Ensaios Dantescos" é o décimo volume que a Quetzal publica no âmbito das obras de Jorge Luis Borges, autor argentino que, através da sua prodigiosa erudição e pelo prazer que tirava da criação de quadros narrativos tão complexos quanto lúdicos, se notabilizou por ter feito da literatura um jogo em que fantasia e realidade se misturam e iluminam

Um clássico bem antes de o ser, Borges foi-o furiosamente, pelo prestígio que sempre associou à tradição, sendo ele um dos fundadores de uma nova tradição literária que emergiu do pós-colonialismo sem a ingenuidade de renegar fosse o que fosse, antes vendendo memórias ao futuro, ligando o tempo num entrançado que se confundiria com o seu próprio trajecto e afirmação, alimentando-se do seu reflexo, da majestade da sua influência, quando passou de uma descoberta para uma familiar assombração, um culto no eixo da nova ficção moderna do mundo. Cultivou uma presença oracular e ao mesmo tempo próprio de um grande mediador, colocando o anseio intelectual ao nível de uma insaciável curiosidade, uma espécie de ganância da sabedoria, e os seus contos além da glória labiríntica – com o seu perfume cavernoso, uma humidade cheia de ecos, tão característica das monumentais bibliotecas –, definem uma certa elegância do pensamento. Evoluindo entre graciosas conjecturas, procuram deslindar o mundo, carregando-o de mistérios, problematizando-o de forma lúdica, para conceber dentro de si uma racionalidade que preferia alcançar o génio por artifícios, vias eventualmente fúteis, a sujeitar-se à sisudez típica dos pensadores. A sua era uma metafísica aventurosa. E reconhecia-se no “perverso hábito de falsificar e magnificar”.

“A Memória de Shakespeare e Nove Ensaios Dantescos” é o décimo volume da belíssima colecção que a Quetzal tem dedicado a Borges. Divertimentos, jogos de pilhagem e recriação, ensaiando para o lado da fábula. Um místico que procedia, passo a passo, com a meticulosidade de um grande espírito científico e o prazer de qualquer miúdo escaqueirando um relógio para lhe espreitar as entranhas. Falar de um livro de Borges é falar de todos, porque a sua obra, as suas narrativas cruzadas, todas se combinam, compondo uma gloriosa partitura que se impõem à própria biografia. Ele aborda os textos, o conhecimento com uma elegância e tenacidade empenhada em mapear o pensamento, impor-lhe táctica e estratégia, subindo na hierarquia militar até se generalizar nas concepções radiantes do mundo. Sem buscar um envolvimento comprometido com as tragédias do seu tempo, levantar um dedo acusador, a sua obra espelha os seus conflitos, como se a origem do mal se confundisse com a do bem, a vítima servisse o reflexo do seu carrasco, este acatando ordens num momento e noutro formulando-as, tentanto em vão dominar algo que o ultrapassa. O destino de todos os homens dependente de um gesto trivial, não fossem as suas infinitas consequências. Borges não perdoa nem condena, ele é tardio o suficiente para que faça ainda sentido pensar nesses termos. Nada há nada a perdoar. A sua obra toma esplendor e terror como duas faces de uma mesma moeda. E se esta não cobre o valor de uma vida, uma vida que não veja nela valor passa ao lado das riquezas que mais sagram a humanidade.

 

Sinopse

"Há devotos de Goethe, das Eddas e do tardio cantar dos nibelungos; Shakespeare foi o meu destino". A ideia para este conto terá surgido a Borges durante um sonho. Tudo o resto ter-se-á desvanecido, exceto a frase: «Eu vendo-lhe a memória de Shakespeare.» A partir daí, Borges construiu esta extraordinária história em que Hermann Soergel, um estudioso de Shakespeare, encontra um homem, Daniel Thorpe, que afirma ter a memória de Shakespeare e o dom de poder passá-la a quem a quiser receber. E Soergel desejou-o, não sabendo, porém, que chamava a si uma maldição. É este conto homónimo que dá título ao primeiro conjunto de ficções deste volume.

No segundo conjunto de textos – Nove Ensaios Dantescos – Borges escreve sobre alguns dos episódios mais célebres e enigmáticos da Divina Comédia, do poeta florentino Dante Alighieri. Recorrendo à sua inesgotável erudição, Borges expõe perante o leitor o falso problema de Ugolino de Pisa e classifica Dante como um verdugo piedoso, o juiz definitivo de todos os habitantes do inferno.

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