22/11/19
 
 

Presidente para todas as audiências

A maioria dos jornalistas e comentadores estão neste momento em estado de “orgasmo marceliano” perante o começo do novo Presidente da República. Não está em causa a inegável inteligência e simpatia do eleito, nem o facto de que, depois de Cavaco Silva, até um calhau poder fazer boa figura. 

Mas uma espécie de suspensão de toda a crítica e uma quantidade de baba industrial que parece percorrer os lábios entreabertos da esmagadora maioria dos “fazedores de opinião”. Um antigo diretor da TSF confessa não ter conseguido fazer reportagem, de tal forma estava embevecido com um contacto do novo Presidente com a população a caminho da sua tomada de posse. Em vez do seu trabalho, preferiu não incomodar sua excelência. E ficou contente com a sua decisão. Saboreou o momento. A maioria dos comentários dos leitores sobre este pedaço de prosa compartilharam os belos sentimentos do jornalista.

Não é de admirar, portanto, que o facto de as bancadas do PCP e do Bloco de Esquerda não terem aplaudido a alocução de Marcelo Rebelo de Sousa tenha levantado a indignação generalizada dos ditos cujos cérebros com lugar cativo nas rádios, televisões e jornais. Lamento não conseguir perceber esta feliz unanimidade.

As misses universo são eleitas a desejar a paz no mundo e outros bonitos sentimentos que percorrem a população do planeta Terra. Mas a verdade é que são eleitas pelo aspeto e simpatia, e não por causa das suas posições políticas. Os Presidentes da República, para além de, regra geral, ficarem pior em fato de banho, são escolhidos, depois de uma campanha eleitoral, pelas suas posições políticas. E estas, ao serem escolhas, não são comuns a todo o eleitorado. A presença de Marcelo Rebelo de Sousa durante tantos anos nos ecrãs pode ter obnubilado que ele é um político, mas o próprio não merece que o esqueçam. O papel de um comentador, para uma estação de televisão, é conseguir a maior audiência possível, seja ela composta por astronautas, mulheres--a-dias ou ciclistas. O papel de um político é cumprir um programa de ação que é necessariamente parcial, porque resulta de uma escolha entre várias propostas diferentes. Quase metade do eleitorado não votou em Marcelo Rebelo de Sousa, sendo pois natural que os partidos que representam esses eleitores, por muito que respeitem o cargo e até o possam achar um homem encantador e inteligente que comenta livros como ninguém, não tenham de aplaudir o seu discurso e concordar com as suas posições.

Este “respeitinho é muito bonito”, esta ideia de que a política não é feita de confrontos e diferenças de opinião é que está a dar cabo de Portugal. Comemos durante décadas uma ementa única que nos levou ao empobrecimento da grande maioria da população, ao enriquecimento de muito poucos, disfarçado de consenso económico. Ora, isto não existe. A política é o ato de escolher entre cenários que se opõem, é o ato de definir um campo de amigos e inimigos. O papel da política é esse conflito, não são os aplausos de opereta. Os aplausos enlatados estão bem para os programas da manhã com figurantes pagos. E o papel do Presidente não é fazer do simpático Goucha, mas cumprir e fazer cumprir a Constituição e executar uma escolha dos eleitores.

É esta nossa queda para o aplauso fácil e a de alguns jornalistas para abanarem a cabeça que nos levaram ao buraco a que chegámos.

Vejamos um outro episódio para ilustrar o problema dos consensos e da ideia de um caminho único. Recentemente, o governador do Banco Central Europeu anunciou um plano para fazer sair a economia europeia do marasmo: dar literalmente dinheiro aos bancos. Vão usar mais de 240 mil milhões de euros para apoiar os bancos privados, para estes pensarem em investir na economia real. Parece uma medida inteligente, ditada por motivos estritamente económicos. Quando, no fundo, é uma escolha política que beneficia os do costume e prejudica os europeus. Se a ideia é apoiar a economia e os Estados, se calhar, em vez de enterrar mais umas centenas de milhares de milhões de euros em bancos privados, era necessário dar dinheiro diretamente a quem trabalha e às empresas. Dessa forma se poderia garantir que esse capital chegaria a quem deve. Provavelmente, se a banca estivesse toda nacionalizada, não teríamos tido esta crise financeira nascida de um capitalismo especulativo. É este consenso do aplauso fácil sempre aos mesmos que nos leva a comer soluções que apenas enriquecem os banqueiros e prolongam a crise.

Jornalista 

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