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Pap’Açorda. Um até já com sabor a até sempre

Pap’Açorda. Um até já com sabor a até sempre

Raquel Carrilho 12/03/2016 18:19

Juntamente com o Frágil, o Pap’Açorda foi um símbolo de uma Lisboa pujante e de um Bairro Alto em ebulição. 

No fim de semana em que comemorou 35 anos fechou portas tal como o conhecemos, para reabrir, nas próximas semanas, com um novo espaço, no Mercado da Ribeira. Não é um fim absoluto, mas é o fim de uma época

Isto do jornalismo é coisa do hoje e do amanhã, muito mais do que do ontem. Mas há passados que não se devem apagar. E, sim, é verdade que podíamos estar aqui já a falar do novo Pap’Açorda, que abrirá ainda neste mês de Março, no Mercado da Ribeira, em Lisboa, mas se há casos em que não se pode falar do futuro sem falar do passado, é o Pap’Açorda.

Este fim-de-semana encerrou portas tal como o conhecíamos até hoje, naquele número 57, da rua da Atalaia, no coração de um Bairro Alto que já foi do Frágil e do Pap’Açorda e que agora parece não ser de ninguém.

Com este encerramento, simbolicamente no mesmo fim de semana em que o espaço assinalava os seus 35 anos, chega ao fim uma época. Uma época de celebração da liberdade e da descoberta. Os loucos anos 80, os do Frágil, dos Três Pastorinhos e do Rock Rendez-vous, os do Bota Alta e do Pap’Açorda. Hoje o Bairro Alto é um bairro que perdeu o seu perfil catalisador, que deixou de estar na vanguarda dos movimentos artísticos. Ainda que continue a ser uma referência na vida da cidade de Lisboa, perdeu muitas das características que o tornaram incontornável na década de 80 e até de 90. Hoje é o bairro onde a cada esquina há quem tente vender haxixe, cocaína e heroína. E portanto torna-se fácil entender esta necessidade de mudança. Ainda assim, é uma mudança que já deixa saudades, daquelas paredes rosa, daqueles lustres hipnotizantes. De tudo. “Mas é preciso seguir em frente”, como disse um dos donos, Fernando Fernandes, ao i, optando por não se alongar mais.

Uma ideia que, de resto, já tinha sido partilhada no Facebook. “O Pap’Açorda despede-se de uma época. Sem tristezas, mas com muita alegria e confiança nesta nova etapa”, escreveu Fernando Fernandes com o seu sócio, Zé Miranda, na página de Facebook do restaurante. Um comentário que valeu centenas de reações, algumas verdadeiros desabafos, como é o caso de um cliente, Luís Dinis, que em algumas linhas explicou como um restaurante pode marcar uma vida: “Sem o saberem, são uma parte importante da minha vida. Uma vida em que, ainda puto e no tempo de pagar em escudos, baldava-me às aulas e ia com a minha namorada Susana almoçar um Ragú de Vitela que existia na vossa carta, mas sempre a pensar na mousse de chocolate. Sei perfeitamente que a vossa arte não se resume a uma mousse. Vai mais além. Mas essa mousse de chocolate é uma mousse musculada, vigorosa e honesta, feita para ser comida com respeito e carinho. Uma mousse que não envergonha ninguém, antes pelo contrário, honra e dignifica quem a faz. E comove quem a come. Uma mousse tão boa, tão boa, que, permitam-me a ousadia, deviam mudar o vosso nome para Papa Mousse. A Susana entretanto foi a minha mulher, foi a mãe dos meus filhos, e já morreu. Foi no vosso restaurante que, quando nos juntámos, fizémos o jantar de família, a pensar na mousse de chocolate. E todos os anos continuo sempre a ir aí, sempre a pensar. Na Susana, e na vossa mousse de chocolate. Ao novo espaço irei, certamente. E já com a mousse de chocolate no meu pensamento. Continuaçao de muitas e boas mousses.”

A mousse de chocolate, servida na mesa, retirada diretamente de um recipiente de inox, foi sempre uma imagem de marca do Pap’Açorda. Mas a cozinha coordenada por Manuela Brandão foi sempre mais do que a cozinha só da mousse. Foi sempre uma ode à cozinha portuguesa, com as suas açordas, os seus pastéis de massa tenra, o cabrito, o peixe frito com um polme irrepreensível.

Foi em Março de 1981 que o Pap’Açorda abriu portas, no espaço que outrora pertencia à Adega do Baptista. Foi uma festa de arromba, como Lisboa nunca tinha visto. Um dos sócios, Fernando Fernandes, tinha vindo de Montalegre para Lisboa, para estudar Economia, e acabou por abrir um restaurante com o irmão, o Pátio Alentejano, na Costa da Caparica. Quando conheceu o açoreano José Miranda, decidiram montar um novo restaurante, mas em Lisboa, para estarem mais próximos dos amigos. Escolheram o Bairro Alto, ainda longe de imaginarem o que viria a ser este bairro - o Frágil abre portas um ano depois, em 1982, pelas mãos de Manuel Reis, atualmente proprietário do Frágil e que assinou a decoração do Pap’Açorda.

Nestes 35 anos, pelas mesas do Pap’Açorda passaram milhares e milhares de clientes, oriundos de todo o mundo, que o Pap’Açorda contou sempre nos melhores guias. Alguns, verdadeiramente surpreendentes, como Catherine Deneuve, John Malkovich, Pina Bausch, Sean Connery ou Robert De Niro - que numa das suas visitas terá levado com uma taça de champanhe, atirada por outro cliente, tendo na sequência desta situação, optado por passar o resto da noite a conversar com esse mesmo cliente.

Mas nem esta lista de clientes de luxo retirou ao Pap’Açorda um carácter familiar, que fez sempre com que quem ali fosse se sentisse tratado como se estivesse em casa. Mesmo que na mesa do lado estivesse uma destas figuras ou, por exemplo, Mário Soares, que durante anos e anos tinha neste espaço uma espécie de cantina.

Esta noção do Pap’Açorda como cantina é, de resto, transversal a muitos dos seus clientes, que durante estes 35 anos ali foram regularmente. Como é o caso do jornalista Pedro Rolo Duarte, que fez questão de publicar, esta semana, uma homenagem ao restaurante no seu blogue: “A minha namorada da época tinha um amigo, actor, mais velho, frequentador das noites, que sabia onde se devia ir, onde se comia bem, onde estava o começo do que viria a ser o esplendor dos anos 80 no Bairro Alto. Nós tínhamos menos de 20 anos. Uma noite ele levou-nos àquele que, dizia, era o melhor restaurante de Lisboa. Tinha aberto há pouco tempo. Chamava-se “Pap’Açorda”. Lembro-me de ficar maravilhado com a excelência do serviço, a qualidade dos pratos, e um ambiente que, ao longo da noite, foi evoluindo quase para uma pequena festa de amigos. Adorei. Já começava a trabalhar mas não ganhava o suficiente para ir jantar ao “Pap’Açorda” - pelo que passaram alguns anos até lá voltar, com excepção de uma vez, numa ceia organizada de propósito para receber a cantora brasileira Simone. Felizmente chegou a viragem da década de 80 para a de 90 e tudo mudou. Daí para a frente, ao longo dos anos 90, o dinheiro deixou de ser problema, o trabalho abundava (e dava trabalho recusá-lo…), e a vida parecia ser a coisa mais fácil do mundo. Nesse tempo, o “Pap’Açorda” acolhia-me pelo menos uma vez por semana, ao almoço ou ao jantar, em reuniões de trabalho ou jantares de amigos, com a minha mãe na véspera de casar, com o meu filho miúdo a fazer o teste aos melhores croquetes de Lisboa, casado de fresco, com a equipa da “K” a pensar a revista, eu sei lá: foi seguramente o restaurante de que junto maior número de recordações, onde vivi momentos únicos, e que mesmo nos anos em que era corriqueiro jantar lá, cada refeição tinha a sua história, a sua gargalhada, o seu momento.”

Naquelas mesas forjaram-se projetos artísticos, discutiu-se o futuro do país, nasceram amores, choraram-se desamores. O Pap’Açorda foi sempre muito mais do que apenas um restaurante, como explicou ao i a escritora Patrícia Reis, que ali jantou no dia do seu casamento. “O Pap’Açorda faz parte da minha geografia afectiva, da minha ideia de Lisboa, do início da minha vida profissional. Eram os anos 80, o Frágil era incontornável na noite do bairro alto e tudo começava melhor se o jantar fosse no Pap’Açorda. Namorei naquela primeira sala, celebrei o meu casamento, ri com filhos e amigos, senti-me sempre em casa. Durante muitos anos, sempre que entrei no restaurante do Fernando Fernandes e do Zé Miranda tinha o sorriso do Rui e depois do Jerónimo, os dois empregados mais que perfeitos. Nos últimos tempos era o Fernando. A imagem da Manuela a fumar um cigarro numa pausa rápida é um clássico na minha memória. A par da comoção de ter visto o filho do Fernando Fernandes, o Ricardo, crescer entre as paredes rosas, iluminado pelos melhores lustres. Ali tive conversas sérias, entrevistei muitas pessoas, vi o mundo mudar. Dizem que os lugares icónicos são como cicatrizes, ficam connosco.” E há cicatrizes muito boas.

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