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Majestic. A elegância da Belle Époque no século XXI

Majestic. A elegância da Belle Époque no século XXI

Diana Tinoco Joana Marques Alves 12/03/2016 11:52

Mudou de nome para não ficar associado aos movimentos monárquicos e sofreu com a censura do Estado Novo, mas nunca perdeu o charme dos loucos anos 20

Antigamente, o ato de ir tomar um café era algo preparado com grande pompa e circunstância. “A entrada de uma elegante pode passar despercebida a todas as senhoras presentes – o que não passa é a sua toilette. A porta de uma casa de chá é como um ecrã em branco onde se espera que apareça dum momento para o outro o princípio da fita (…) E as próprias elegantes, ao entrar, conservam a ilusão, porque parecem romper esse pano diáfano, esse pano de luz que está nas portas”, descreve o livro “O Grafismo e Ilustração dos Anos 20”, feito com base na investigação de Margarida Acciaiuoli e editado em 1986 pelo Centro de Arte Moderna. Hoje em dia, as elegantes já não usam saias até às canelas nem grandes fios de pérolas, optando por um par de calças de ganga e echarpes volumosas, mas o espírito que se vive no Majestic é o mesmo de há 95 anos.

Situado no centro do Porto, na Rua de Santa Catarina, nasceu em 1921 com o nome Elite, fazendo jus ao esplendor da Belle Époque: os bancos aveludados, as madeiras envernizadas e os grandes espelhos atraíram a alta sociedade do Porto. No dia da inauguração estiveram presentes vários nomes de relevo, como Gago Coutinho. Uma das mulheres que o acompanharam à abertura do espaço (e que, posteriormente, várias vezes ali marcou presença) foi a atriz Beatriz Costa.

O café começou por ser associado aos movimentos monárquicos, principalmente devido à denominação atribuída ao estabelecimento. A gerência quis então terminar com esta ideia e decidiu mudar o nome do espaço para Majestic, inspirado na cultura e vivência parisiense. Foi nessa altura que o local passou a ser não só o café escolhido pelos intelectuais e boémios, como também pelas senhoras das classes mais altas, que ali gostavam de tomar o seu chá ou o seu sorvete e discutir os assuntos do dia.

O escritor José Régio, o poeta Teixeira de Pascoaes e o filósofo Leonardo Coimbra eram algumas das figuras da elite literária que frequentavam o Majestic. Os alunos da Escola de Belas-Artes do Porto também costumavam passar pelo Majestic – um dos artistas mais emblemáticos que ali tomaram o seu café e participaram em várias tertúlias foi o pintor Júlio Resende.

O apagão dos anos 60 Com o Estado Novo surgiu também a repressão e a censura – a Constituição de 1933 especificava que esta servia para “impedir a perversão da opinião pública na sua função de força social e deverá ser exercida por forma a defendê-la de todos os fatores que a desorientem contra a verdade, a justiça, a moral, a boa administração e o bem comum, e a evitar que sejam atacados os princípios fundamentais da organização da sociedade”, cabendo ao governo decidir o que era a verdade, a justiça e os restantes parâmetros. Todas as restrições impostas fizeram com que houvesse um adormecimento das manifestações culturais – as tertúlias continuaram a existir durante o Estado Novo, mas era cada vez mais difícil discutir livremente qualquer obra que fugisse aos parâmetros impostos na altura.

Este problema afetou o Majestic, que foi ficando cada vez mais vazio, perdendo os clientes que ali gostavam de discutir temas ligados à cultura, política e sociedade. A partir daí, o café entrou em declínio, chegando a um estado de degradação tal que a própria cidade do Porto se viu obrigada a intervir: em 1983 é decretado Imóvel de Interesse Público e, poucos anos depois, a gerência decide restaurar o espaço, devolvendo-lhe a vivacidade que lhe tinha sido roubada.

Desde essa altura, foram muitas as personalidades que por ali passaram. “Nunca venho ao Porto sem dar ao menos um salto a este belo café Majestic, que não hesito em considerar como um dos que em toda a Europa melhor conservam a atmosfera dos começos do século e que, por isso mesmo, bem importa conservar, preservar, respeitar”, escreveu David Mourão-Ferreira no livro de honra do café. Jaime Gama considera-o o “mais bonito café de Portugal” e o músico Júlio Pereira resume aquilo que muitos sentem numa simples frase: “Gosto de aqui estar e voltarei sempre.”

António Guterres, Agustina Bessa Luís, os Presidentes da República Mário Soares, Jorge Sampaio e Cavaco Silva, o realizador Manoel de Oliveira, os atores Eunice Muñoz, Ana Bola e Herman José foram outras das figuras que por ali passaram. O Majestic também recebeu várias pessoas ligadas ao desporto, como o presidente do FC Porto, Pinto da Costa, e o selecionador nacional, Fernando Santos. “Este café representa a cultura desta cidade”, escreveu o treinador no livro de honra. Por ali também passaram algumas figuras internacionais, como o ex-presidente francês Jacques Chirac e o antigo chefe de Estado do Brasil Juscelino Kubitschek de Oliveira.

Com o passar dos anos, o Majestic voltou a ser um espaço de referência, com centenas de pessoas a entrarem e saírem todos os dias. Arrecadou vários prémios internacionais e tornou-se um dos cafés mais falados do país. “O café Majestic é um lugar maravilhoso, onde musas, pensadores e artistas se podem reunir para viverem os melhores momentos que a vida nos dá, de uma convivência simples na comunicação da palavra e dos gestos, dos olhares, dos sorrisos e, às vezes, das lágrimas”, descreve Gloria Montenegro, fundadora da Caféothèque, uma academia francesa dedicada à comercialização e ao estudo do café.

As elegantes continuam a passar por lá e a sentir que a sua entrada representa “o princípio da fita”, desta vez rodada em pleno século xxi, depois de milhares terem atravessado aquelas portas com o mesmo espírito. Muitos cafés poderão suscitar esta vontade de representar o papel de uma diva dos anos 20, mas poucos têm o charme do Majestic.

E este será sempre uma referência no roteiro dos cafés históricos portugueses e um símbolo da Invicta. O escritor Francisco José Viegas deixou uma mensagem no livro de honra que condensa em poucas palavras os elogios que tantos portuenses (e não só) fazem há quase 100 anos: “A sua história (e a das vozes que já aqui se ouviram...) é também a da cidade – por isso é que há lugares como este, que se podem amar, respeitar, recordar para sempre.”

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