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CCB. João Soares demitiu Lamas à noitinha e nomeou logo Summavielle
Ministro da Cultura tornou público que se o gestor do CCB não se demitisse ontem ele próprio o faria.

CCB. João Soares demitiu Lamas à noitinha e nomeou logo Summavielle

Ministro da Cultura tornou público que se o gestor do CCB não se demitisse ontem ele próprio o faria. José Sérgio Manuel Agostinho Magalhães 01/03/2016 08:08

Ministro da Cultura esperou o dia todo pela carta de demissão do gestor do CCB. Mas foi ele próprio a demitir António Lamas. O PSD fala em ‘perseguição’

O ministro da Cultura consumou ontem à noite a demissão do presidente do Centro Cultural de Belém, indicando de imediato como sucessor Elísio Summavielle, atualmente adjunto do ministro e ex-secretário de Estado da Cultura, no governo de José Sócrates. A demissão já estava anunciada, mas o suspense prolongou-se até ao fim.

João Soares, que na sexta-feira tinha prometido demitir António Lamas na segunda, caso este não apresentasse a demissão, esperou o dia todo pela carta do gestor cultural e acabaria por chamá-lo à noite ao Palácio da Ajuda. O  ministro da Cultura “recebeu esta segunda feira, 29 de fevereiro, à noite, no seu gabinete, o Professor António Lamas, a quem entregou cópia do despacho da sua exoneração do cargo de presidente do Centro Cultural de Belém”, divulgou o gabinete de João Soares.

A vontade de João Soares demitir António Lamas tinha ficado clara numa entrevista ao “Expresso”, há dez dias. Em causa estava o seu envolvimento no projeto de gestão integrada do chamado “eixo Belém-Ajuda”, da autoria do anterior governo, e cuja estrutura de missão foi extinta por este Governo.

João Soares sempre criticou publicamente esse projeto de gestão, que unificava numa única estrutura alguns dos monumentos mais visitados de Lisboa, incluindo a Torre de Belém e os Jerónimos, e que foi desenvolvido à margem da Câmara de Lisboa, suscitando as críticas do presidente Fernando Medina. Na audição na comissão parlamentar de cultura, Soares anunciara que o caso não passaria desta segunda-feira. “Terá de haver uma mudança, o CCB tem de funcionar como a referência cultural que não foi nos últimos quatro anos”, disse o ministro da Cultura.

E João Soares não se inibiu de logo traçar o perfil do sucessor de Lamas. “Alguém com experiência, bastante mais jovem, com provas dadas, nomeadamente ao nível de responsabilidades públicas num ministério”. O perfil aderia como uma luva a Elísio Summavielle. E o jornal “Sol” noticiou este sábado que seria o ex-secretário de Estado o novo gestor do CCB.

‘Prepotência’, diz PSD A demissão anunciada de António Lamas (que foi uma escolha de Passos Coelho), e a sua substituição por um ex-governante do PS, desencadearam as críticas do PSD. Sérgio Pimpão, coordenador do PSD na comissão de cultura, acusou João Soares de “arrogância e prepotência”.

Sérgio Azevedo, responsável na direção do grupo parlamentar pela área da cultura, optou pelo registo irónico no Facebook. “Amigos para siempre”, escreveu em comentário à notícia sobre a proximidade de Summavielle com o ministro.

Outro deputado social-democrata, Carlos Abreu Amorim, detalhou as alusões a um favorecimento político (e a cumplicidades maçónicas). “O PS está a encharcar o Estado com os seus apaniguados e “Irmãos”, pacata e alegremente, sem qualquer pudor ou receio de condenação pública. No fundo, pensam, o Estado são “eles” e só foi feito para “eles” dele usufruírem como lhes apetecer”, escreveu no Facebook.

Duarte Marques, ao i, ataca sobretudo a forma como o nome de António Lamas foi posto em causa. “É normal mudar pessoas a este nível, devido à alteração de estratégias políticas. Mas é lamentável e indecoroso  fazer isto através dos jornais. Estão em causa pessoas que passam concursos, que têm um extenso currículo como gestores. É inadmissível que sejam alvo deste tipo de perseguição”, diz o deputado do PSD.

O facto de João Soares ter ameaçado publicamente o gestor com a demissão, sem a concretizar logo, é, para Duarte Marques “uma pressão inaceitável”. Esta “estratégia de medo e de pressão não faz sentido e é uma prepotência própria de outros regimes, não de um regime democrático”, conclui.

As críticas à forma como o gestor do CCB foi atacado pelo ministro da tutela deu também origem a um artigo de opinião indignado da historiadora de arte Raquel Henriques da Silva. “Decidi tomar posição para exprimir a minha profunda indignação pelo modo como António Lamas tem sido enxovalhado”, escreveu ontem no “Público” a professora da Universidade de Lisboa, Prémio Femina, em 2012, pelo estudo e divulgação cultura portuguesa no estrangeiro.

“A minha indignação assenta na inaceitável atitude de um recém-chegado ministro que ainda não provou nada, para com um homem que, há mais de trinta anos, vem servindo com raro brilhantismo e respeito pela coisa pública, o património português”, argumenta. Raquel Henriques da Silva critica os ataques públicos de João Soares a Lamas: “É com desgosto que refiro este linguajar trauliteiro, infeliz num ministro da nação e, mais, naturalmente, no ministro da Cultura”.

BE e PCP em silêncio Com a questão do CCB transformada desde a sexta-feira passada em arma de arremesso político contra a ‘geringonça’, os parceiros mais à esquerda do governo mantêm o silêncio. PCP e BE optaram ontem por não comentar a pressão de João Soares sobre António Lamas.

O social-democrata Duarte Marques não perdeu oportunidade de atacar os parceiros de António Costa. “O BE e o PCP devem ter comprado uma mordaça pois, tal como Zé Sá Fernandes [ex-vereador do BE], fazem falta mas é calados. Talvez tudo isto seja apenas poeira para esconder o corte que fizeram no OE da Cultura”, escreveu no Facebook.

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