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Um homem normal que passou 43 anos na solitária por circunstâncias extraordinárias

Um homem normal que passou 43 anos na solitária por circunstâncias extraordinárias

Maria Teresa Oliveira 28/02/2016 19:38

Albert Woodfox e outros dois ativistas dos Black Panthers foram condenados e absolvidos e de novo condenados ao longo de décadas. Sempre pelo mesmo crime. Woodfox esteve 43 anos na solitária.

“Um homem normal apanhado por circunstâncias extraordinárias”. É assim que Albert Woodfox se define.

Mas nem todos os homens normais conseguiriam manter a sanidade mental que demonstrou ao passar pelas suas circunstâncias extraordinárias, que duraram mais de 40 anos.

Woodfox esteve 43 anos na solitária, preso com o mínimo contacto possível com outras pessoas. A sua história – e a de Robert King e Herman Wallace – é conhecida internacionalmente, mas recordemo-la brevemente. Em 1971 os três homens estavam presos na penitenciária estadual do Louisiana no sul dos EUA, mais conhecida como Angola, o nome da plantação de escravos sobre a qual foi construída, e que tinha esse nome porque a maioria dos que lá eram forçados a trabalhar era angolana. Além da alcunha, era ainda famosa por ser a “prisão mais sangrenta da América”.

Os homens vinham condenados por assalto à mão armada, mas estavam sob o particular escrutínio das autoridades porque pertenciam aos Black Panthers, um movimento que nos anos 60 e 70 lutavam, recorrendo às armas se fosse preciso, pelos direitos dos negros. E assim o fizeram na prisão, promovendo o fim da discriminação racial ou o fim da exploração sexual dos presos mais vulneráveis.

Em 1972 é morto um dos guardas prisionais, Brent Miller, e os homens são imediatamente levados para a solitária. Acusados e depois condenados, entram numa montanha russa judicial com absolvições por falta de provas, erros da acusação e discriminação racial, seguidas de recursos que os mantêm na prisão. Até a mulher de Miller veio em sua defesa em 1998: “Se eles não o fizeram – e eu acredito que não – há 26 anos que vivem um pesadelo”.

King conseguiu sair em 2001, depois de quase 32 anos na solitária. Wallace saiu em 2013, por razões humanitárias porque estava a morrer com um cancro no fígado e partiu três dias depois, sem saber que já tinha sido decidido que mais uma vez iria voltar a ser julgado pelo homicídio de Miller; esteve na solitária 41 anos. Woodfox só saiu na sexta-feira, no dia em que fez 69 anos, com o recorde do norte-americano que mais tempo passou em isolamento prisional: 43 anos.

Depois de um juiz distrital ter proibido que o seu processo voltasse à estaca zero, um tribunal de recurso revogou novamente a decisão. Queria ter ido defender-se e tentar uma vez mais provar a sua inocência, mas aceitou fazer um acordo para sair. “Embora estivesse ansioso para provar a minha inocência em novo julgamento, preocupações com a minha saúde e com minha idade levaram-me a decidir resolver este caso e obter a minha libertação”. O acordo levou à sua condenação aos 43 anos de prisão que já tinha cumprido. O julgamento aconteceu de manhã e foi libertado à tarde. “Sou inocente. O facto de ter sido condenado teve mais a ver com o racismo no sistema judicial americano do que com inocência ou culpa”, afirma já fora da prisão.

Inconstitucional e desumano Foi no sábado que falou com vários órgãos de comunicação social. Contou que a primeira sensação de liberdade foi ir sentado à frente no carro do irmão que o levou do tribunal. “Foi estranho ir sentado à frente em vez de ir nas traseiras de uma carrinha”, comentou, citado pelo “The Advocate”, de Bateau Rouge, na Louisiana.

Encerrado numa pequena cela, de 2 por 3 metros, onde uma das paredes era de barras de ferro e apenas com uma saída por dia, jurou que “ira sempre tentar preocupar-se com o que estava a acontecer na sociedade – dessa forma sabia que nunca iríamos desistir. Prometi a mim mesmo que não os deixaria quebrar-me, não os deixaria enlouquecer-me”, conta o “Guardian”.

Albert Woodfox tinha acesso a revistas, jornais e livros. Lia tudo, desde a vida de ativistas como Malcom X a Nelson Mandela e “até leu o dicionário, conta, para passar o tempo e saber como melhor se exprimir” relata o site, “Nola”, de Nova Orleães, também presente na conversa com Woodfox. Via também uma televisão que havia no corredor e, apesar de não os ver, conseguia conversar com os presos que estavam nas celas ao lado.

O procurador do estado, recusa assim o termo ‘solitária’, já que além dos outros detidos, podia ainda “falar com os guardas, assistentes sociais ou capelães”, que tinha também acesso a um telefone “sem esquecer que teve pelo menos 566 visitas desde 1996.”

A resposta da sua advogada, Carine Williams, é liminar. “O estado não nega que Woodfox tem vivido numa cela fechada, sozinho, por 23 horas por dia durante mais de 40 anos”, disse ao “Nola”, “chame-se o que se quiser, é inconstitucional e desumano”.

Lá dentro, Albert Woodfox recordou o que mais o fez sofrer: não poder ir ao funeral da mãe, a cuja campa foi mal saiu. “Foi o mais perto que estive de quebrar”, recorda. Cá fora, diz que o momento mais emocionante foi abraçar a filha, com quem se tinha começado a relacionar há pouco tempo. “Foi uma coisa forte”.

Valor do ser humano Fundamental para a sua saúde mental foi ainda o sentimento em relação a Wallace e King. “Era como se tivéssemos uma espécie de conexão mágica”. Por isso outro momento muito duro foi saber da morte de Wallace.

Outra das difíceis provas que teve de superar foi a claustrofobia, sendo que um dos ataques que teve durou três anos.

“Os ataques de pânico começaram com a transpiração. Suar e não conseguir parar. Fica-se todo molhado – estás a dormir na tua sua cama e ficas encharcado. Depois chega a claustrofobia e começa a parecer-te que o ar te está a empurrar para baixo. Isso foi duro. Costumava falar comigo mesmo, para me convencer de que era forte o suficiente para sobreviver, para conseguir manter a minha sanidade até que o sentimento partisse”. Durante esses anos não conseguia dormir deitado, só sentado. Um dia, adormeceu deitado, como se o tivesse feito na véspera. Tal como veio, o sentimento desapareceu.

Viu muitos quebrarem. “Alguns dos tipos sentiram uma pressão tão grande que se deitaram no chão em posição fetal e deixaram de falar com quem quer que seja. Outro só queriam falar e fazer barulho, tipos que só queriam gritar. Sucumbir manifesta-se de formas muito diferentes conforme os indivíduos”.

O homem que falava aos jornalistas estava calmo, mas parecia sobrecarregado com tanta atenção mediática e frequentes vezes desviava o olhar enquanto falava.

Nomeadamente dos seus planos para o futuro. “Espero conseguir ser parte da minha família e continuar ativo socialmente”, explicou. Quer ser “uma voz para os que não têm voz, um escudo para os que não se conseguem proteger sozinhos”. E, acima de tudo, usar todas as suas forças para acabar com o isolamento prisional. Por causa dele, de Wallace e de King, o presidente Barack Obama já alterou a lei da solitária, proibindo-a em centros de detenção juvenis e para prisioneiros mais jovens. Agora, um congressista da Louisiana vai uma vez mais tentar acabar com ela, ou restringi-la o mais possível. “É um mal. O confinamento solitário é a experiência mais torturante a que um ser humano pode ser colocado dentro de uma prisão. É uma punição sem fim”.

Mas não sai sem fé na espécie humana. “Aprendi quão forte pode ser o espírito humano, que a mudança tem de vir de dentro”, relata o “Nola”, “aprendi que, apesar de os seres humanos fazerem coisas horríveis, às vezes, eles ainda têm valor. E que deve ser dada uma certa dignidade a cada ser humano, mesmo quando está na prisão”.

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