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Passos. Um “primeiro-ministro no exílio” ou estrategicamente isolado?

Passos. Um “primeiro-ministro no exílio” ou estrategicamente isolado?

João Girão Ricardo Rego 25/02/2016 16:39

Líder do PSD aposta  na demarcação do governo e até do CDS, à medida que no partido cresce a convicção de que o país pode ir a eleições no curto prazo. Apelos de Marcelo Rebelo de Sousa para o entendimento são “naturais”. Ângelo Correia admite que o CDS esteja a lançar pontes para o PS

A discussão na generalidade do Orçamento do Estado não correu de feição ao PSD. “Estávamos a liderar o debate do Orçamento até segunda-feira, mas perdemos a liderança depois do debate”, reconhece um destacado dirigente do partido ao i.

É certo que os sociais-democratas chegaram ao fim de dois dias de debate sem se comprometerem com uma única medida que traduza o tal “gradualismo” que defendem para a reposição de rendimentos e que poderiam ser vistas como impopulares, na medida em que a esquerda parlamentar preparava-se para aprovar a reposição “rápida” de rendimentos. Mas Passos Coelho não conseguiu evitar que lhe colassem o rótulo de “ex-primeiro-ministro no exílio” – como fez Vieira da Silva, ministro da Segurança Social que deixou a bancada do PSD à beira de um ataque de fúria – ou de líder de um partido que “só está disponível para aprovar Orçamentos contra a Constituição”, como acusou Joana Mortágua, do BE.

O confronto com a esquerda deixou, por isso, marcas. Mas Passos Coelho não quer alterar um milímetro que seja a estratégia que tem definida para marcar a oposição do PSD ao Orçamento preparado por António Costa e Mário Centeno e que não é mais do que “um repositório de intenções”. Além do voto contra o diploma, Passos determinou que o PSD não irá apresentar propostas de alteração a um diploma que “não tem arranjo possível”, frisou ainda, na única que vez que usou da palavra no debate, já no período de encerramento para evitar o desgaste no confronto direto com Costa, acentuado nos debates quinzenais com o primeiro-ministro.

Dramatizar e demarcar Agora que arrancou a discussão do Orçamento na especialidade, até à votação final global marcada para dia 16, o PSD vai insistir na conjugação de dois verbos:dramatizar e demarcar. Ou seja, acenar com os riscos do diploma do governo, do ponto de vista do rigor orçamental, e deixar bem claro – até para memória futura – que o que quer que venha a acontecer no futuro não será da responsabilidade do agora maior partido da oposição, que nem sequer contribuiu para o Orçamento que diz ser do PS, do BE, do PCP e do PEV. Serão estas explicações que Passos irá dar no tempo que falta da corrida para a reeleição para líder do PSD, no dia 5, e até à consagração no congresso de abril (dias 1, 2 e 3, em Espinho).

É que, por estes dias, a oposição laranja ao governo constrói-se em cima de duas premissas que ganham força entre os sociais-democratas: Costa vai ser obrigado a apresentar medidas adicionais, quando for discutido o Programa de Estabilidade, em abril, e isso só se faz com um Orçamento Retificativo, cuja aprovação dependerá, outra vez, dos partidos à esquerda do PS que deixaram bem claro no debate que não há margem para plano B. Além disso, na São Caetano à Lapa cresce a convicção de que, afinal, o país pode ir a votos mais cedo (este ano) do que o próprio PSD alguma vez pensou quando viu Costa selar um compromisso com os bloquistas e os comunistas para formar governo, admite um dirigente do PSD.

Ao i, antigos e atuais dirigentes sociais-democratas não antevêem dificuldade em o partido fazer oposição ao Orçamento sem apresentar propostas de alteração. Ângelo Correia faz o resumo:“A matriz que o PS apresenta no Orçamento não se ajustaria a qualquer melhoria eventual que o PSD apresentasse”. Pedro Santana Lopes, no seu frente a frente semanal com António Vitorino na “SICNotícias”, não deixou de notar que a estratégia de demarcação de Passos “está próxima do que era Sá Carneiro, da forma como se demarcava dos outros partidos”. Quererá Passos recuperar, além da social-democracia, o modus operandi do fundador do PSD?

CDS à solta Certo é que nem o CDS escapa à demarcação. OPSD vai abster-se nas propostas de alteração de todos os partidos, incluindo as dos centristas, até para obrigar o PS a chumbar medidas dos partidos à sua esquerda indesejadas pelo governo liderado por António Costa.

Assunção Cristas, candidata à sucessão de Paulo Portas na liderança do CDS, também no encerramento da discussão do Orçamento, na terça-feira, explicou que os centristas irão apresentar alternativas sob os desígnios da “prudência”, “moderação”, “gradualismo” e “proteção dos sacrifícios dos portugueses”. Resta saber em que setores. Agricultura e exportações estão na linha de partida. OPSD admite ficar atento a estas propostas, apurou o i, até para ver a quem se vai dirigir o ex-parceiro de coligação e tirar partido da colaboração dos centristas com o governo das esquerdas. “OCDS está a apresentar-se como um partido para um eventual diálogo futuro com o PS”, ensaia Ângelo Correia ao i.

Apelos são “naturais” O Presidente da República eleito é que parece não ter gostado muito do que viu durante os dois dias de debate, embora remeta para depois da tomada de posse, no dia 9, um comentário sobre o Orçamento. Mas Marcelo Rebelo de Sousa, à margem de um jantar de despedida na Faculdade de Direito, esta terça-feira, deixou o aviso:“É minha função, a partir do momento em que tomar posse, contribuir para que haja um período de estabilização na vida política portuguesa. O que significa sem crises, sem ambiente de campanha eleitoral sistemático (...) O país não pode viver sempre em campanha eleitoral”.

O recado estava assim dado a  Costa, mas também a  Passos, dias depois do primeiro-ministro, ao “Expresso”, ter desafiado Passos para consensos políticos, sublinhando que “o tempo dos adversários já passou”.

Mas na segunda-feira, depois de anunciar o voto contra o OE, Passos foi ao parlamento explicar aos deputados do PSD a posição do partido. Segundo apurou o i, Marco António Costa, vice-presidente do PSD, terá recordado as alegadas palavras de Costa quando foi eleito secretário-geral do PS e foi desafiado pelo PSD, então no Governo, para consensos. “Falta o PS ganhar as eleições”, terá respondido o agora primeiro-ministro, relatou um deputado ao i. Na São Caetano à Lapa ninguém esquece que “falta o PS ganhar as eleições para pedir consensos ao PSD”, lembra um vice-presidente. Até lá, Passos mantém-se estrategicamente isolado. Mesmo correndo o risco da esquerda o atirar para o exílio.

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