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Síria. Um pessimismo otimista quanto ao cessar-fogo

Síria. Um pessimismo otimista quanto ao cessar-fogo

Maria Teresa Oliveira 24/02/2016 13:08

Está tudo bem encaminhado para que o cessar-fogo na Síria seja cumprido. Mas o EI continuará a ser atacado e já se pensa num plano B.

O entendimento para um cessar-fogo parcial para a Síria negociado pelos Estados Unidos e pela Rússia recebeu ontem o acordo do regime de Bashar al-Assad e do Alto Comité de Negociações, que congrega os principais grupos da oposição síria.

O cessar-fogo terá efeito a partir de dia 27, à meia-noite, hora de Damasco, e parece ter melhores perspetivas de sucesso do que as anteriores e falhadas tréguas que deveriam ter começado na sexta-feira.

Será parcial porque não impedirá a continuação do ataque aos grupos extremistas do Estado Islâmico e do Jabhat al-Nusra, este último ligado à al-Qaeda. A continuação do ataque ao al-Nusra é, no entanto, complicada porque a organização tem vindo a combater ao lado dos rebeldes da oposição síria.

Também há dúvidas sobre a forma como Assad porá em prática o cessar-fogo, já que o regime de Damasco tem englobado todos os seus opositores no saco do terrorismo.

Para tentar contrariar esta enorme fragilidade, há notícias de uma reunião entre a Rússia e os Estados Unidos para desenhar um mapa onde ficará delimitada a área onde a guerra continuará depois de sábado. Deverá, basicamente, corresponder à ainda muito considerável área dominada pelo EI dentro do território da Síria (ver mapa ao lado).

Várias explicações já foram dadas para este cessar-fogo, muitas com a tónica em Moscovo. Especialistas ouvidos pelo Wall Street Journal põem a nota nos avanços conseguidos pela coligação entre Putin e Assad. Em particular perto de Alepo, o que coloca esta coligação “em condições de cortar as linhas de abastecimento dos rebeldes e bem colocada para ditar mais agressivamente os termos de quaisquer negociações após o cessar-fogo”.

A BBC também põe o ponto focal em Moscovo, apesar de numa versão mais benévola. Putin procura mostrar-se ao ocidente – que não conseguiu evoluir numa solução e se mostra sedento de uma solução de paz – “não como o problema, mas como a solução”. Uma versão corroborada por outro especialista, Bertrand Badie, professor de relações internacionais na universidade Sciences-Po em Paris, à Agence France-Presse. “Putin tinha duas opções – transformar um sucesso militar num sucesso diplomático ou oferecer a Bashar a possibilidade de novas vitórias militares. Escolheu a primeira possibilidade porque precisa de marcar pontos a nível diplomático”, considera.

Num recente artigo de opinião publicado na Newsweek, Tony Braxton, antigo embaixador britânico no Reino Unido avança com outro argumento. Escreve que é “pouco provável que Assad envie tropas para o terreno” por causa do trauma nacional com a intervenção no Afeganistão, que durou dez anos, entre 1979 e 1989. Braxton pensa que Putin tem medo que “o número de baixas comece a subir”, provocando a ira popular. “As eleições parlamentares da Rússia estão previstas para o Outono e apesar de o seu sistema eleitoral não ser completamente sério, é sério o suficiente refletir o ressentimento popular se este for suficientemente forte”. Outro argumento a favor das tréguas, portanto.

Para os americanos, que apenas estavam a conseguir ganhos no terreno através das milícias curdas – e em consequência a serem diariamente pressionado pelos turcos em sentido contrário, assustados com a progressão no terreno dos seus adversários – o cessar-fogo é um bálsamo, nem que seja para ganhar tempo. Os rebeldes da oposição síria, que também apoia, são que mais tem falhado no terreno, além de as suas fileiras albergarem extremistas islâmicos do al-Nusra.

Por outro lado, estas forças “falharam espectacularmente ao não conseguir criar uma liderança credível, mesmo após cinco anos de apoio por parte da Arábia Saudita e da Turquia”, acrescenta Abi Ali, do iHS (uma empresa especializada em informação económica), à AFP.

Turquia que, apesar de não diretamente envolvida no conflito, é outro ator a ter em conta neste cenário. “Aplaudo o cessar-fogo, mas não estou muito otimista sobre o seu cumprimento pelas várias partes” foi o comentário do ministro do Negócios Estrangeiros e vice-presidente turco. Numan Kurtulmuş espera uma transição política sem Assad nos próximos seis meses, com um governo de unidade nacional. Mas Assad, entretanto e em mais uma areia na engrenagem, marcou legislativas para abril.

Quanto à continuação dos ataques de Ancara a alvos curdos em território sírio, Kurtulmuş afirma que “quando se dispara contra a Turquia, nos ripostamos”. De qualquer forma, e apesar de um pessimismo otimista, o mapa de conflitos sírio esteve hoje bem mais tranquilo. E há ainda o plano B que John Kerry deixou escapar ao final da tarde no Senado norte-americano: dividir o território sírio. Avançou ainda que nos próximos dias se reunirá com o homólogo russo e os outros envolvidos em Genebra para discutir os termos finais do cessar-fogo.

teresa.oliveira@ionline.pt

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