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85 anos de “Avante!”. “Alguma vez viu um partido festejar como nós?”
A sede da comissão concelhia de Almada serve de ponto de encontro e de sede de reuniões. Marcada com antecedência, serve também de restaurante para os militantes e visitantes

85 anos de “Avante!”. “Alguma vez viu um partido festejar como nós?”

Marta Cerqueira 23/02/2016 12:21

Só o facto de ser o jornal comunista, no mundo, que mais tempo sobreviveu em clandestinidade já dava direito a festa. Junte-lhe uma data redonda e está dado o mote para a reunião à volta de um cozido à portuguesa

Assim, logo à partida, podemos responder à pergunta do título com um redondo não. Numa quarta-feira ao almoço, são mais de 50 as pessoas que se reúnem na sede da concelhia de Almada do PCP para festejar os 85 anos do jornal “Avante!”. Tendo em conta a faixa etária, é certo que são poucos os que têm de cumprir uma hora de almoço apertada, mas mesmo esses arranjam forma de dar a volta ao tempo. “Serve-me já o meu prato que tenho de ir embora. Sem enchidos, se faz favor”, ouve-se do lado de fora do balcão. Da cozinha improvisada e gerida por voluntárias do partido vão saindo doses individuais de cozido à portuguesa. Enquanto uns levam a comida para a mesa, outros enchem os cestos de pão fresco e há quem esteja encarregado de ir acrescentando mesas e cadeiras para quem chega de última hora.

Luísa Ramos não precisa de se preocupar, o seu lugar está mais que marcado. Natural de Almada, não fosse o tratamento habitual ser feito por “camarada”, estava habilitada a tratar todos pelo nome. “Sou uma mulher de afetos, dificilmente estaria noutro lado”, diz ao i. Com 68 anos de idade e 42 de militância, tem como ritual quase intocável começar a quinta-feira com uma ida ao quiosque. “Mesmo quando trabalhava como hospedeira da TAP, não havia nada que me desse mais gozo que chegar à tabacaria do aeroporto e pedir um ‘Avante!’”, conta, entre risos. “Ficava tudo a olhar para mim.” O cabelo curto, os seus mais de 1,75 metros e a roupa de cor garrida não passam despercebidos, numa irreverência que se faz adivinhar também na atitude. “Na fase de seleção da TAP, dizer que já tinha lido ‘As Vinhas da Ira’ foi quase motivo para não passar”, refere, lembrando os tempos em que as sessões de leitura nas coletividades do partido substituíam a escola que faltava a muitos.

Ainda da mesma lista de memórias, Luísa saca da mais inevitável, o 25 de Abril de 74 que, além da revolução, ficou para si marcado também pelo adiar da lua-de-mel. “Esperei que o meu marido voltasse da guerra colonial para seguirmos viagem no 25 de manhã”, conta. Depois de ouvir o primeiro comunicado do Movimento das Forças Armadas, Luísa trocou o avião pelo barco que atravessa o Tejo, Roma por Lisboa e a mala de roupa por uma cesta de café e omeletes que preparou para os soldados. “Acabámos por ir gozar a nossa lua-de-mel na mesma, mas só depois do 1.o de Maio.”

“Avante!” clandestino Para ganhar espaço na sala, num dos cantos foi arrumada provisoriamente a banca que serve de feira do livro e do disco. Tina Turner divide espaço com uma VHS do “ET”, fotos de edições antigas da Festa do Avante! e romances policias de Agatha Christie. Se sobrarem uns trocos das compras, há sempre hipótese de os enfiar no pote de barro quase camuflado no meio de uma mesa cheia, mas cuja mensagem escrita à mão - “fundos para o PCP” - não deixa espaço para dúvidas.

Nas paredes não faltam as cores garridas dos cartazes da Festa do Avante!, que contrastam com o preto e branco das edições ainda clandestinas do jornal do PCP. Encostado a uma das estantes está Alfredo, boina preta, gestos largos e uns quase 60 anos de militância que lhe dão o direito de falar na primeira pessoa sobre o tempo em que o jornal era composto apenas por duas folhas impressas clandestinamente. “Havia um camarada responsável pela zona de Torres Novas e que vinha de bicicleta fazer a distribuição, sempre ao mesmo dia e à mesma hora.” Também de bicicleta, Alfredo saía de casa, em Porto de Mós, e só voltava com o “Avante!” na mão. “Às vezes, as coisas não corriam bem e tínhamos de arranjar maneira de avisar o camarada para não vir”, lembra. “O controlo da PIDE era constante.”

Com 78 anos, ainda é mão-de-obra na montagem da festa e é com orgulho que vê as duas filhas a votar PCP. “Pelo menos sei que tive influência nisso, tal como o meu pai teve em mim”, admite. De jornal debaixo do braço, não se inibe de falar do “Avante!” como “o mais sério e honesto”. De dedo esticado para a televisão, avisa: “Aquela ali, então, é uma caixa de mentiras.”

O “avante!” de hoje O cozido ainda vai a meio, mas Manuel Rodrigues, diretor do “Avante!” há dois anos, tem de sair direto para o jornal - afinal, estamos em dia de fecho. “Peço desculpa, mas tenho de falar já.” O prato de comida é trocado por um microfone, mas são poucos os que desviam o olhar dos enchidos para o focar no discurso. As frases-slogan saem em catadupa: “É o jornal onde se lê o que não se lê nos outros”, “é o jornal que dá a voz ao povo”, “nunca ninguém conseguiu calar o ‘Avante!’.” Num tom mais descontraído, à margem de discursos oficiais, Manuel conta ao i que a tiragem do “Avante!” continua a ser de milhares, com jornais distribuídos por mais de mil postos de venda. “Só nos primeiros anos de vida [na clandestinidade e durante a ditadura] é que a saída era irregular, ora semanal, ora mensal”, lembra. “Desde 1974 que não falhámos uma quinta-feira.”

Manuel garante que a redação do “Avante!”, que funciona num dos pisos da sede nacional do PCP, em Lisboa, é bastante semelhante a qualquer outra. “Não pensem que trabalhamos às escuras enfiados numa sala”, brinca. “Temos computadores, fotógrafos, telefones e uma equipa de 13 trabalhadores”, refere. O jornal, que não tem publicidade, possui uma equipa de sete redatores, dois gráficos, dois fotojornalistas, um chefe de redação e um adjunto, além de colaboradores regulares em várias áreas. Longe vão os tempos de clandestinidade e da venda de mão em mão. “Nem a destruição das tipografias, a tortura e a morte dos responsáveis pela impressão puseram fim a este aparelho do partido”, lembra Manuel, voltando ao tom de discurso que, pelos acenos de cabeça em redor, parece agradar a quem ouve.

Manuel acaba de falar a tempo da última garfada. Há palmas, ovações e “PCP” repetido de punho erguido. Está dado o mote para a continuação da festa, o que não quer dizer que esta se faça sem trabalho. Palmira já está a tirar cafés e Maria do Céu assume a faca que talha o bolo de aniversário em pequenos quadrados que vão sendo distribuídos pelos camaradas em fila. Voltamos a encontrar Alfredo, ainda de boina, ainda com os gestos largos que o caracterizam, mas desta vez sem jornal na mão, ocupada pelo prato de plástico prestes a encher-se de massa folhada e creme. “Alguma vez viu um partido festejar como nós?” Maria do Céu troca-lhe imediatamente o prato vazio por um mais composto e, com a mesma rapidez, Alfredo nem dá tempo para pensar numa resposta. “Claro que não, menina, não encontra disto em mais lado nenhum.”

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