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Heiner Müller. Entre hoje e domingo vai cheirar a morte no CCB

Heiner Müller. Entre hoje e domingo vai cheirar a morte no CCB

Diogo Vaz Pinto 18/02/2016 15:02

“Quarteto”, a peça do poeta e dramaturgo alemão inspirada no romance epistolar de Choderlos de Laclos, volta a estar em cena em Lisboa, desta vez com Albano Jerónimo e Lígia Roque nos papéis de Valmont e Merteuil.

“Em palco, precisas de um inimigo”, disse certa vez o autor. Falava do seu trabalho, das suas motivações e tinha, como é usual nos espíritos beligerantes que trocam estalos com o seu tempo, um problema sério com o seu país, com a história alemã.

Heiner Müller tinha quatro anos em 1933, ano em que o seu pai, um socialista que se opunha a Hitler, foi encarcerado. Aos 16 anos terminava a guerra, a orgulhosa nação ficou de rastos e, por um momento, o adolescente teve esperança. Esperança de que o curso da história pudesse ali conhecer um desvio. Essa ingenuidade sonhadora lembra uma curta ficção ou um relato trabalhado por Tonino Guerra: “Um jovem que esteve preso na Alemanha, dois anos após o fim da guerra, regressa a Bona para se regozijar com o sofrimento dos alemães. Da janela da pensão, pela manhã, olha satisfeito o deserto de escombros em que se tornou aquela cidade. Mas ao fundo da rua, uma pequena banda aparece, tocando uma marcha militar com sons claros, nítidos, esféricos. De onde vinha e para onde se dirigia? No porte dos músicos, havia um desejo de recomeçar e já se adivinhava a eterna teimosia do povo alemão. E o jovem começou a soluçar.” (“O prisioneiro”, texto incluído no volume “Histórias para uma noite de calmaria”, edição da Assírio & Alvim, com tradução de Mário Rui Oliveira).

Este jovem e Müller confundem-se. Este que, segundo o “The Guardian” viria a impor-se como “o mais influente dramaturgo alemão depois de Bertolt Brecht”, foi um marxista que nunca abriu mão da sua independência. Escreveu cerca de 30 peças, que operam como um poderoso testemunho, numa averiguação das causas que levaram ao fracasso da utopia socialista na Alemanha de Leste e que, após a reunificação, abriu o caminho à barbárie do capitalismo. Nascido em Dresden, no que viria a ser o lado de lá do Muro depois da II Guerra, ele resumiu o estado da Alemanha de Leste como “um sonho que fez da história um pesadelo, como a Prússia de Kleist e a Inglaterra de Shakespeare”.

Considerado um “pessimista histórico”, no início da década de 1960 foi afastado da União dos Escritores, e as suas peças estiveram banidas até 1973. Só na década de 1980, e quando o prestígio internacional fez dele uma figura incontornável, as autoridades foram obrigadas a engoli-lo, virando o açúcar que faltava à relação numa tentativa de capitalizar esse prestígio. “A qualidade é a tua melhor arma”, sublinharia anos mais tarde. Em 1986, recebeu o Prémio Nacional. Mas isso nem suavizou as suas denúncias, nem apaziguou o seu espírito.

“Sinto-me culpado pela Alemanha”. Certa tarde, enquanto decorria um festival em que as duas Alemanhas o celebravam, com as principais companhias de teatro a apresentarem quase 40 produções a partir das suas peças e ainda balés, óperas, palestras e concertos inspirados no seu trabalho, Müller sentou-se numa pastelaria com um jornalista que estava ali para entrevistá-lo. “Olha-me a presunção destes alemães ocidentais”, disse, apontando para as mesas. “Um bando de ex-Nazis, mas sentem-se completamente inocentes. Não assumem qualquer responsabilidade pelo que a Alemanha fez. Acreditam que nunca fizeram mal a ninguém. Eu odeio a sua auto-complacência moral. Mas não consigo esquecer. Sinto-me culpado pela Alemanha. E o que mais me surpreende nos acontecimentos recentes não é a queda do Muro mas o ressurgimento do nacionalismo, racismo e anti-semitismo. Eu julgava que essas ervas daninhas tinham sido arrancadas, mas as raízes ficaram no solo à espera para se desenvolverem de novo. Uma Alemanha reunificada tornará a vida muito difícil para os seus vizinhos.”

Uma após outra, as suas peças retomavam obsessivamente os fantasmas do passado da Alemanha. São veículos para um mordaz e inquietante processo acusatório, em que a elegância do estilo, um lirismo ao mesmo tempo abrasivo e estonteante, impressiona e seduz, criando quadros de intriga densos e elípticos, que abalam os pilares do teatro convencional e forçam o público a um confronto. Como destacou o “Suddeutsche Zeitung”, “ele tornou as coisas difíceis para os seus leitores e as suas audiências não porque optou pela excentricidade para provar a todos o quão culto era, mas porque queria um parceiro participante, que sentisse e pensasse com ele – um destinatário que fosse seu cúmplice”.

No seu embate com a história, a cultura foi o fundo reflexo em que Müller não parou de molhar as suas mãos. A sua linguagem elaborando poderosas ressonâncias, como um corpo cujas vértebras saem da cultura clássica, com muitas das suas peças a reelaborarem os temas e as tensões dos clássicos gregos ou o teatro de Shakespeare.

Um diabólico jogo de xadrez Uma das suas peças mais célebres, “Quarteto” é uma sofisticada reapropriação das duas personagens do romance epistolar de Choderlos de Laclos, “As Ligações Perigosas” (1782). Logo à partida, a indicação do lugar serve o tempo da peça como um tremendo hiato entre o “salão antes da Revolução Francesa” e o “bunker depois da Terceira Guerra Mundial”. Heiner Müller não quis fixar-se na particular estirpe venenosa dos lendários Valmont e Merteuil, não se inteirou das escabrosas minudências com que estes dois artistas da miséria se entretêm a matar o tempo, tecendo a sua intriga num diabólico jogo de xadrez, medindo forças e divertindo-se com o sacríficio dos peões, arrastando-os consigo para o inferno. Müller prefere convocar as duas personagens de Laclos como meros espectros muito à vontade na sua pele. É a ténue fronteira entre a sedução e a guerra em que lhe interessa jogar a vida e a morte.

A peça que quando estreou, em 1981, foi considerada imoral e pornográfica, segundo a descrição do próprio autor é “uma reflexão sobre o problema do terrorismo, usando material que, à superfície, não tem nada a ver com ele”. Não sabemos exatamente quando terá início a III Guerra Mundial. Talvez, como defende o Papa Francisco, estejamos já perante um conflito global, algo mais difuso, “uma guerra combatida por partes, com crimes, massacres e destruições”. Este diálogo que – na tradução portuguesa, publicada na coleção dos livrinhos de teatro da parceria Artistas Unidos e Cotovia – se fica por vinte páginas, vemos dois abutres pairando em círculos sobre as fraquezas humanas. É a intimidade que é devassada e surge como palco para jogos de depravação e decadência. Toda a elevação filosófica e por mais poesia e esplendor que anime o discurso destas duas personagens elas sabem-se condenadas.

Chama-se “Quarteto” porque há um desdobramento em palco. Valmont e Merteuil não passam, afinal, de devastadores espelhos. Reflectem-se não apenas um ao outro, mas os dois atores servem friamente as suas vítimas em palco. E como se pode ser mais frio do que trocar de lugar, encarná-las, representando a dor das vítimas para o próprio deleite. Porque toda à ação nesta peça não passa de um reflexo. E uma das mais inquietantes frases ouvidas na peça parece inicialmente uma mera frase de efeito, antes que o seu eco comece a trabalhar dentro de nós: “Mandei instalar espelhos para poderdes morrer no plural.”

Duas encenações desta peça estrearam neste início de ano em Portugal. Depois de ter estado em cena no Porto, no Teatro Carlos Alberto, a peça estará entre hoje e domingo em cartaz no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém. Albano Jerónimo e Lígia Roque interpretam Valmont e Merteuil, respectivamente. A encenação é de Carlos Pimenta. Até o passado dia 13, a peça esteve em cena no Teatro da Politécnica. Jorge Silva Melo revisitou o texto, que encenou pela primeira vez em 1988, interpretando ele mesmo Valmont, com Glícinia Quartim no papel de Merteuil. Desta vez, dirigiu os actores Ivo Canelas e Crista Alfaiate.

No dia 30 de dezembro, passaram 20 anos da morte de Heiner Müller, e no arranque de 2016 Silva Melo quis homenagear o poeta e dramaturgo, de quem foi amigo, encenando e interpretando vários dos seus textos. “Ájax, por Exemplo” foi o nome do espetáculo que esteve em cena no Teatro da Politécnica de 7 a 17 de janeiro, e no qual o encenador se sentou a uma mesa, rodeado de estantes de livros, sozinho, num ambiente que pretendia recriar o quarto do dramaturgo, e num misto de leitura e representação percorreu uma seleção de escritos de teor mais autobiográfico. Para Novembro está prevista a estreia de outra peça de Müller, “Hamletmachine” (Máquina Hamlet), um texto que deu por terminado em 1977 e que é por muitos considerado a sua grande obra-prima.

Há um decisivo contraste nas duas encenações da peça. Com toda a familiaridade com a obra do amigo, se há um maior despojamento na moldura que Silva Melo oferece ao texto, esta não chegava a suportar a dimensão de eco da peça, e o que vimos em palco eram dois atores que pareciam lutar para se manter dentro de monólogos que muitas vezes faziam deles bonecos, amarrando-os à caricatura dos personagens de Laclos, incapazes de participar do tremor de consciência das suas declarações. Ivo Canelas tinha um quê de dândi, muito contemporâneo de si próprio, onde era suposto haver maquinação, perversidade e horror, surgia-nos um engatatão desenhado à vista. Crista Alfaiate superava a puerilidade, mas a sua entrega não fazia dela mais do que um ser caprichoso com uma qualidade angelical que não podia estar mais distante da mulher que só consegue distrair-se do tempo e da doença que finalmente a farão ajoelhar-se, vingando-se.

Carlos Pimenta intuiu melhor o sentido de uma peça que balança entre a farsa e a tragédia, correndo maiores riscos. Há bolsos de treva no palco que instalam a sensação de fantasmagoria. Albano Jerónimo e Lígia Roque saem e regressam às suas silhuetas, levantando e baixando as máscaras. Trocam olhares com os seus reflexos que vão envelhecendo anos no decorrer da peça. Há assim um sentido de decrepitude que perpassa a ação, com um ecrã de cada lado do palco como ampulhetas de rosto humano por onde a vida se escoa, dando um sentido de urgência a este jogo de recriminações. Os dois corpos em palco vão morrer diante de nós. Eles que foram senhores na tarefa de matar o tempo, agora correm à sua frente como presas. Corpos que foram meras sombras do desejo e agora se sentem cheirados pela morte.

Ao descreverem ao i a sua experiência com o texto, Lígia Roque falou de uma clara consciência de que este é um texto de que “ninguém sai incólume”, e diz que muitas das suas imagens irão consigo “para a cova”. Albano falou na dificuldade que foi fazer a gestão de um texto que existe num tempo infinito, traçando para cada um que o percorra “um caminho muito doloroso”. “Este texto cheira a morte”, disse, recordando as palavras de um dos tradutores de Müller, João Barrento, que o descreveu como a “lenta caligrafia da morte”. O actor diz ainda que para lá do tom provocador, “há um decalque interior muito forte nas suas linhas”, linhas em que são o trabalho de um moroso e insistente esforço de reescrita. Lígia destaca ainda o quanto as palavras neste texto “causam sofrimento, têm o poder das armas”. Os dois atores sublinham ainda o “pacto de lealdade” que se estabeleceu entre eles e como, só assim, sentem que foi possível o absoluto compromisso que lhes pediam as palavras de Heiner Müller.

 

“Quarteto” estreia hoje no Centro Cultural de Belém, e estará em cena até ao dia 21 (domingo). Todas as sessões serão às 21.00, exceto a do dia 21, que terá início às 16.00. Os bilhetes têm o preço de 10 euros.

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