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Novak Djokovic. A história do lobo do ténis que se livrou do glúten

Novak Djokovic. A história do lobo do ténis que se livrou do glúten

José Paiva Capucho 02/02/2016 22:56

Uma dieta livre de glúten (e com muita força de vontade) que começou em 2010 foi a chave para o sucesso do número um do ténis mundial.

A história de Pedro e o Lobo tem uma lição valiosa: não se deve enganar as pessoas. Novak Djokovic provavelmente ouviu esta história aos sete anos, quando anunciou numa televisão sérvia que o seu objetivo era ser o melhor no ténis. Na altura provavelmente ninguém acreditou no miúdo franzino e de boné com a pala para trás, mas eis que na entrada para 2016 não restam duvidas - o sérvio é o número 1 do ranking ATP, conquistou o seu sexto Open da Austrália derrotando pela 22.ª vez o britânico Andy Murray (número 2) e igualou a marca de Bjorn_Borg e_Rod_Laver, com 11 títulos de Grand Slam. Afinal, Novak não estava a querer enganar ninguém, mas para chegar ao nível que apresenta hoje teve de alterar radicalmente a sua alimentação. Foi há seis anos. E foi muito simples._Porquê? Livrou-se do glúten.

“Ouvi uma metáfora que dizia ser mais fácil para o lobo que está a subir a montanha do que para o outro que já lá está. Acredito que os tipos que lutam cada semana para ser número 1 estão famintos de lá chegar”, disse após a final em Melbourne. Djokovic também está faminto por mais conquistas, mas só se serve de repastos sem a tal proteína (presente por exemplo no trigo ou no centeio), uma das mais consumidas do mundo.

O teste do pão No verão de 2010 o sérvio estava a disputar a Davis Cup na Croácia. Numa das pausas visitou o medico Igor Cetojevic, um nutricionista e compatriota que lhe fez um simples pedido: esticar o braço direito e colocar a mão esquerda no estômago. Depois, Cetojevic fez pressão no braço que estava no ar. Repetiu o exercício mas colocou uma fatia de pão ao lado do estômago. Para surpresa do tenista, o seu braço estava muito mais fraco. Djokovic era intolerante ao glúten, ou por outras palavras, sofria de doença celíaca. Em minutos estava descoberta a solução para todas as quebras que Novak tinha durante os seus jogos, que o obrigavam a fazer pausas, em que muitas delas acabavam em idas à casa de banho forçadas. O que aconteceu doze meses depois? A liderança do circuito da ATP,  dez títulos, três Grand Slams e 43 jogos seguidos sem perder.

Nesse ano durante a competição que o tenista acabou de vencer no fim de semana passado, Igor estava na sua casa no_Chipre quando se deparou com um jogo dos quartos de final que colocou frente a frente Tsonga (9.º) e Djokovic. O sérvio perdeu, e teve mesmo uma crise a meio da partida que o levou até à casa de banho mais próxima para vomitar. O médico achou que o podia ajudar, mas o teste e os conselhos não chegaram. Só que os testes sanguíneos deram a garantia: Novak tinha uma forte intolerância ao glúten. Parou de comer pão, queijo ou tomate, e após duas semanas estava com mais energia e a sentir-se muito mais leve.

A sensação das “pernas a transformarem-se em pedra” - como conta o “The Independent” - durante uma partida em 2005, estava agora resolvida. Para o menu deste campeão constam vegetais, feijões, carne branca, peixe, fruta, nozes (pode anotar leitor, mas olhe que para ser o melhor do mundo é preciso um pouco mais do que isto). Um menu que não entrou com certeza na pizaria dos pais.

É preciso “fazer” a sua dieta E para além de hábitos alimentares saudáveis, não basta seguir os dos outros. “Maior parte dos programas de dieta assume que o plano resulta para toda a gente, e que se devem comer ‘certos’ alimentos. ‘Certos’ não é uma bola palavra, eu não quero que tenha a melhor dieta para o ‘meu’ corpo. Eu vou ajudá-lo a encontrar a melhor dieta para o seu organismo”, lê-se na entrada do seu livro.

E claro que umas boas horas de sono e umas sessões de yoga matinal para treinar o “pensamento positivo” aliadas a um treino rigoroso, são o toque final. Sim, isto são algumas das medidas seguidas pelo atual rei da modalidade que começa por se levantar às 7 da manhã, fazer vinte minutos de yoga ou tai chi, tomar o pequeno almoço e treinar durante uma hora e meia e uma massagem. Segue-se um almoço sem açúcar, proteína ou hidratos de carbono e mais uma hora de exercício com pesos. Uma bebida de proteínas, mais uma sessão de noventa minutos de ginásio (e se quiser, pode repetir a dose das massagens). Parece difícil? É, mas a cabeça também tem de ter juízo._Se não quem paga é o_- já sabemos quem leva a fatura.

Basta ir a qualquer supermercado para ver que a dieta livre de glúten está na moda. Apesar de muitas dúvidas tanto na comunidade científica como na sociedade, outros tenistas já disseram “não obrigado” ao método aplicado por Novak._Por exemplo, Roger Federer (3.º) - derrotado nas “meias” do_Open da Austrália pelo sérvio - recusa aplicar a dieta. “Oh não, eu tenho extra glúten”, disse em 2013 quando questionado se já tinha tentado o programa._Apesar de brincar, o suíço garante que sempre esteve muito atento ao que come. E tal como ele, o espanhol Rafael Nadal (5.º) revelou estar “feliz com uma dieta normal”, afirmou.

Podem ser contra, mas quem está à frente é o tal lobo livre de glúten, de barriga quase cheia de títulos, com toda uma alcateia de tenistas famintos atrás dele.

jose.capucho@ionline.pt

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