24/9/20
 
 
Ana Sá Lopes 02/02/2016
Ana Sá Lopes
Política

ana.lopes@ionline.pt

Vanessa. Um divórcio é para a vida toda

Ainda tentei desviar o assunto para as Presidenciais, com dissertações sobre Marcelo e Maria de Belém. Mas a Vanessa queria mesmo era discutir a bolsa de valores dos divórcios

Tu achas que é mais importante investir num bom casamento ou num bom divórcio?

Marcelo tinha acabado de ganhar as presidenciais e eu estava estupidamente cansada. Esta semana a Vanessa quis almoçar comigo e desafiou-me para ir a Carcavelos ver o mar. Estava um dia de sol esplêndido, o mar um bocado bruto e o meu cansaço a começar a desvanecer-se quando ela me perguntou isto.

- O quê? Investir num casamento ou num divórcio?

Ainda avancei com uma piadola sobre as taxas de juro das respetivas dívidas - as dos casamentos e as dos divórcios - mas não pegou. Eu teria que responder ao assunto.

- Não queres falar sobre Presidenciais?, ainda tentei

- Não. Foi o que tinha de ser. Gostei que Marcelo tivesse ganho. No fundo, gostámos todos.

- A Maria de Belém não gostou.

- Estás a falar de quem?

É falso que a Vanessa não saiba quem é Mariade Belém.

- Teve azar, a Belém, disse eu.

- Azar é pouco. Foi o Costa que nasceu com a sorte toda. Arrumou a oposição interna. O homem caiu no cadeirão da poção mágica quando era pequenino?

Pois, o fenómeno Costa era difícil de entender. Perde sempre as eleições que ganha. Não é normal, isto não acontece às pessoas normais.

- Isto significa que os apoiantes de Belém que não gostam do governo de esquerda não valem nada?

- Aparentemente. Mas o mundo não é a preto e branco. O que há mais são os cinzentos.

- Odeio o cinzentismo. É por isso que fiquei contente com a vitória de Marcelo. Acho que nos vamos agora divertir. Estes anos foram tão duros, sem nenhum divertimento. Estou confiante no novo ciclo.

A exaustão com Cavaco e os anos de chumbo tornavam o “novo tempo” cheio de possibilidades. E se pudéssemos rir, o que poderá acontecer com Marcelo em Belém, a vida pode ser muito melhor. O valor do divertimento é um dos mais importantes da vida - quem não percebeu isto na eleição de Marcelo não percebeu nada.

- Mas vamos lá ao casamento. Eu acho que uma pessoa deve preocupar-se em trabalhar para ter um bom casamento.

- Isso nem parece teu, Vanessa! Casaste-te três vezes! O que é que tu trabalhaste para ter bons casamentos?

- Eu sei bem o que trabalhei. E se queres que te diga nem sei bem porque me divorciei de cada um deles.

O divórcio tinha esse problema. Embora se lembre das circunstâncias que levaram a cada um dos seus três respetivos divórcios, a Vanessa raramente se lembra da razão verdadeira.

- Com o Júlio rebentou tudo quando o esquentador rebentou.

- E com o João?

- Foi quando conheci o Zé. Eu não devia ter conhecido o Zé. É muito provável que ainda estivesse casada com o João se as circunstâncias tivessem sido outras. Se o Zé vivesse nos Estados Unidos eu nunca o teria conhecido e não tinha estragado o meu segundo casamento.

- Pois, essas coisas são sempre assim. Se eu não saísse á rua não apanhava gripe, etc.

A minha ironia não serviu de nada. A Vanessa estava empenhada numa teoria.

- Eu posso não ter sido muito boa nos casamentos. Reconheço isso. Mas não me podes dizer que não fui boa nos divórcios! Eu dou-me muito bem com os meus três ex-maridos. E isso obriga a muito trabalho, investimento, inteligência emocional e muito mais coisas. Eu sinto-me uma mulher realizada porque é muito mais importante investir em bons divórcios! Ao contrário dos casamentos, os divórcios são para a vida toda. É uma relação que não acaba. Uma vez divorciado, sempre divorciado! Com o casamento não é assim! O casamento tem uma alternativa, o divórcio não! Eu sou muito feliz porque tenho três fantásticos divórcios,

- És capaz de ter razão, disse eu a olhar as ondas de Carcavelos.

- Claro que tenho razão. Há imensa gente que destrói os divórcios de uma maneira miserável. Não se falam mais, tratam-se mal, etc. Eu adoro os meus três ex-maridos. Somos imensamente felizes assim, divorciados. Em certos aspetos, somos mais felizes do que quando éramos casados. Lá está: sabíamos que o casamento não é para a vida toda, enquanto o divórcio é! Não acredito nada naquela cena da terapia para casais, mas se calhar até acredito na terapia para casais divorciados! Achas que abra um negócio desses? Uma coisa onde se ensine as pessoas a conseguirem um bom divórcio. Acreditas numa start-up deste género.

Com aquele sol intenso e o mar de Carcavelos eu estava pronta a acreditar em todas as start-ups que me apresentassem.  

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