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Abe Vigoda. It was only business

Abe Vigoda. It was only business

Raquel Carrilho 28/01/2016 11:07

Foi com esta frase que se despediu do filme que marcou a sua carreira, “O Padrinho”. O ator norte-americano morreu ontem, em casa. Tinha 94 anos

Segundo a filha, Carol, Abe Vigoda “nunca ficou doente” na vida. E, por isso, não foi a doença que o levou. Morreu de velhice, a dormir, em sua casa em Woodland Park, Nova Jérsia. A morte ideal (se é que o conceito pode existir). Tinha 94 anos. E, desta vez, não há desmentido possível. É que, há 34 anos, em 1982, a revista “People” tinha divulgado a notícia da morte do ator, na sequência da ausência de Vigoda da festa de fim de filmagens da série que protagonizou, “Barney Miller”. Com o sentido de humor que lhe era característico, acabou, mais tarde, por fazer uma sessão fotográfica para outra publicação, a “Variety”, sentado num caixão a ler um exemplar da “People” que o deu como morto.

Filho de dois emigrantes russos, Vigoda nasceu em Brooklyn, em 1921, e foi durante a adolescência que começou a representar, à data com a American Theatre Wing. Estudou na Escola de Teatro e Artes Dramáticas do Carnegie Hall e em 1947 teve a sua estreia como profissional. Durante 30 anos fez sobretudo teatro, na Broadway, com destaque para peças como “Marat/ Sade” (1967), “The Man in the Glass Booth” (1968), “Inquest” (1970) e “Tough to Get Help” (1972). Mas a sua carreira parecia destinada a não passar do mediano. Isto até se ter cruzado com Francis Ford Coppola e ser escolhido para dar vida ao mafioso Salvatore Tessio, no filme “O Padrinho” (1972) - tendo também feito uma pequena participação em “O Padrinho II”.

Foi enquanto amigo de Don Vito Corleone, interpretado por Marlon Brando e o patriarca da família central da saga “O Padrinho”, que planeia a morte do seu filho Mike (Al Pacino) para, desta forma, tentar tomar de assalto o poder da organização criminosa. Tessio é desmascarado e, à boa maneira da máfia, acaba morto. Não sem antes se tentar retratar: “Tell Mike it was only business”, diz a Tom Hagen, uma espécie de braço direito de Corleone, a quem este atribuiu a responsabilidade de liquidar Tessio.  A propósito da morte de Vigoda, Robert Duvall, que deu vida a Tom Hagen,  disse à AP: “Foi ótimo trabalhar com o Abe e maravilhoso tê-lo entre nós. Partilhávamos grandes memórias”.

Apesar do sucesso deste filme, Vigoda continuou a pulular por projetos com pouca visibilidade, pelo menos até 1975, quando foi escolhido para interpretar o Sargento Phil Fish, na série “Barney Miller”. Foi este o papel que revelou ao mundo a sua costela cómica e, mais do que isto, lhe permitiu alguma estabilidade ou, como o próprio chegou a admitir, “comprar finalmente uma casa”.

Fish conquistou de tal forma os espetadores com esta personagem que se queixava permanentemente de sofrer de hemorroidas que, após dois anos de série, deu origem a um spinoff intitulado “Fish”, que no entanto duraria menos de um ano.

Até 2014 nunca parou de trabalhar, não voltando a interpretar mais personagens marcantes. A não ser a sua, já que recentemente era presença regular no programa “Late Night With Conan O’Brien”, onde mostrou que, além de ator, era um comediante nato.

“As minhas experiências ensinaram-me que se acreditarmos profundamente no que fazemos, o sucesso pode vir a qualquer idade”, disse, numa entrevista. No seu caso, veio tarde e sem repetição. Pelo menos não ao nível do que atingiu com “O Padrinho”, o que lhe valeu, para sempre, a alcunha de Sal Tessio.

Vigoda junta-se a um já vasto número de atores que integraram o elenco d’“O Padrinho” que já morreram, entre os quais Marlon Brando, mas também John Cazale (Fredo Corleone), Richard Castellano (Peter Clemenza), Alex Rocco (Moe Greene), Sterling Hayden (Captain McCluskey), John Marley (Jack Woltz), Richard Conte (Emilio Barzini), Al Lettieri (Virgil Sollozzo), Rudy Bond (Carmine Cuneo), Lenny Montana (Luca Brasi) e Richard Bright (Al Neri).

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