29/3/20
 
 
Haiti. Um país que não consegue fugir da desgraça

Haiti. Um país que não consegue fugir da desgraça

AP Maria Teresa Oliveira 26/01/2016 19:34

A mais recente crise no Haiti é política, com o processo de escolha do novo presidente mergulhado no caos e num impasse institucional. Num cenário de miséria.

Depois de dez anos de relativa estabilidade eleitoral, o Haiti voltou aos caos político. No domingo devia ter acontecido a segunda volta das eleições presidenciais. Foi adiada sine die.

Já o anterior processo eleitoral, em 2011, tinha sido complicado. Na primeira das duas voltas do escrutínio, o atual Presidente, Michel Martelly, acabou em terceiro lugar. Mas contestou a decisão, alegando irregularidades, e passou a segundo – estando assim apurado para a segunda ronda. De excluído a vencedor foi um passo, tendo sido eleito com mais de 68 por cento dos votos.

Martelly é uma estrela do Haiti: é também “Sweet Micky”, um cantor popular, desbocado e exibicionista da elite mulata, que passou a sua vida entre o país e os EUA. Apesar dos soluços, foi a primeira vez na história democrática da nação que o poder passou de mãos sem maiores sobressaltos um ano depois do enorme terramoto que destruiu o lado haitiano da Ilha de São Domingos (do outro lado da fronteira está a República Dominicana).

As ligações de Martelly aos EUA eram evidentes e sempre foi visto como um homem dos americanos (que no início do séc. XX ocuparam o país por duas décadas). Mas entre acusações de corrupção, conseguiu manter um grande apoio popular e levar o mandato até ao fim – outra proeza.

O problema começou quando escolheu Jovenel Moise como o seu sucessor, um empresário dedicado à exportação de bananas e que se descreve como o “homem das bananas”. Uma escolha que este último confirma sem embaraço. À_New Yorker, afirmando a certeza de vencer as eleições, confirmou a existência de um plano entre ele e o seu putativo antecessor para a rotação no poder. “Sim”, disse, “é um bom plano”, acrescentou. “Precisamos de estabilidade. Precisamos mesmo”.

Uma seleção Mas a oposição haitiana trocou-lhe as voltas e o país voltou a mergulhar na habitual confusão que acompanha a transmissão do poder. O “homem das bananas” venceu previsivelmente a primeira ronda, com 32,8 por cento dos votos contra os 25,2 do principal opositor – eram 54 concorrentes – Jude Célestin. Logo nesse dia, no início de novembro, um apoiante de um dos candidatos foi baleado nas ruas. E o porta-voz do segundo classificado deu nota do que se iria seguir: “Não aceitamos estes resultados e vamos contestá-los”.

Não foram os únicos. Outros membros da oposição e até observadores defenderam a existência de fraude eleitoral. E da contestação política passou-se ao protesto nas ruas. A polícia interveio e feriu dois dos candidatos.

Sem condições para realizar a segunda volta das presidenciais, marcadas para 27 de dezembro, foram adiadas para 24 de janeiro. A tensão não se apaziguou, mas cresceu – nomeadamente na semana passada, que antecederia o voto.

“Estamos a aproximar-nos de uma seleção e não de uma eleição” dizia o adversário Celéstin, renunciando a fazer campanha. Com a capital, Port-au-Prince, invadida por manifestações contra e pró Presidente e seu candidato, gás lacrimogéneo, canhões de água e tiros de caçadeira disparados pela polícia em resposta, Jude Celéstin disse que boicotaria as eleições, mesmo que o seu nome se mantivesse no boletim. E pedia o adiamento.

O Presidente recusou. “Eles querem chegar ao poder, mas não através de eleições”, contra-atacava Martelly, acusando a oposição de apostar tudo num governo de transição.

Acabou por ter de ceder. No Senado foi aprovada uma recomendação para voltar a adiar o escrutínio, que Comissão Eleitoral acatou, alegando a “demasiada violência por todo o país”. Não há data marcada para uma nova tentativa, nem qualquer pista para o que poderá acontecer quando Michel Martelly terminar o seu mandato, a 7 de fevereiro.

Crise esquecida Seis anos depois do terremoto que destruiu o país, o Haiti ainda não recuperou totalmente da tragédia de 12 de janeiro, que fez mais de 200 mil vítimas.

“O Haiti não se pode dar ao luxo de se tornar uma crise esquecida” dizia Enzo di Taranto, o responsável pelo Gabinete das Nações Unidas para os Assuntos Humanitários. “Apesar dos progressos conseguidos, ainda há cerca de de 60,000 pessoas a viver em campos de deslocados em situação de vulnerabilidade e a precisar de ajuda humanitária e de soluções permanentes”. Outra preocupação é o regresso da cólera. E, maior ainda, o facto de a vizinha República Dominicana ter decidido criar um programa de regularização para os haitianos, o que levou a uma onda de xenofobia e ao regresso de milhares de pessoas ao país em condições mais que precárias (ver texto ao lado).

“Muitos haitianos continuam a enfrentar múltiplos desafios, incluindo a deslocalização, a insegurança alimentar [nomeadamente pela seca provocada pelo El Niño] e a falta de acesso a água potável e saneamento” disse o secretário-geral da ONU quando se assinalaram os 6 anos do terramoto.

Após a desflorestação maciça – para transformar árvores em carvão para cozinhar – o país transformou-se num local árido. O terremoto e o repatriamento forçado dos “haiti-dominicanos” agravou a situação, que ficou dramática com o regresso da crise política e a grave crise institucional.

“O caminho para a recuperação e o desenvolvimento a longo prazo não é fácil” considerou Ban Ki Moon no início do mês. Agora ainda o é mais.

teresa.oliveira@ionline.pt

Ler Mais

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×