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Um ano depois. “Maravilhamo-nos por ainda estarmos vivos”
Saída do jornal satírico na redação em Paris. O número de homenagem tem uma tiragem superior   a um milhão de exemplares

Um ano depois. “Maravilhamo-nos por ainda estarmos vivos”

Saída do jornal satírico na redação em Paris. O número de homenagem tem uma tiragem superior a um milhão de exemplares François Mori/AP Nuno Ramos de Alemida 07/01/2016 10:13

A vida continua. Toda a gente se pergunta porquê. O “Charlie Hebdo” garante que verá morrer os seus carrascos

A viúva de Said Kouachi, um dos autores do atentado, um ano depois ainda não consegue acreditar no que aconteceu. Soumya Kouachi, 30 anos, ficou só com o filho de ambos. Procura na memória e na casa uma razão para o marido ter participado num massacre. Pensa nas coisas mais loucas: será que ele era um jihadista “adormecido”, uma espécie de espião acordado para o ataque terrorista? Mas não. Não há uma justificação, um papel, uma palavra que a fizesse prever este desenlace. Segundo o diário francês “Le Figaro”, está convencida de que o marido só participou no crime para ajudar o outro membro do comando, que era irmão dele. Vive ainda na casa do casal, no quarteirão da Cruz Vermelha, com o filho de três anos. Não conseguiu mudar de residência; pediu várias vezes, mas a Segurança Social recusou. Tem uma grave doença degenerativa, foi declarada inapta para trabalhar. Pensou tirar o nome do pai do apelido da criança, mas depois desistiu. Conforme reproduziu o seu advogado ao jornal francês “Le Figaro”: “O meu marido pode ter sido um terrorista, mas não deixou de ser o pai do meu filho.” Soumya não entende porque cometeu ele “um crime tão terrível”. Foi para a Argélia nos últimos dias. Não queria estar em França durante o aniversário do crime.

Um milhão de exemplares do “Charlie Hebdo” saíram para as bancas numa edição que assinala um ano do atentado. Na capa está um deus em fúria, armado e a correr; no título, a ideia é a seguinte: “Um ano depois, o assassino continua a monte.” O editorial, assinado pelo diretor Riss, gravemente ferido durante o massacre da redação do jornal a 7 de janeiro de 2015, fala de “fanáticos embrutecidos pelo Corão” e dos “imbecis abençoados de outras religiões” que tinham desejado a morte do jornal por “ousar rir do religioso”. “As convicções dos ateus e dos laicos podem movem mais montanhas que a fé dos crentes”, acrescenta Riss, que relembra que nada fazia prever aquilo que aconteceu. “Em 2006, quando o ‘Charlie’ publicou as caricaturas de Maomé, ninguém acreditava de uma forma séria que isto acabaria em violência. (...) Víamos a França como uma ilha de laicidade, onde era possível gozar, desenhar, protestar, sem nos preocupar-mos com os dogmas dos iluminados.”Uma paz demasiado ruidosa que escondia a aproximação da morte. “Um mês antes de 7 de janeiro, eu perguntava a Charb [desenhador e diretor do “Charlie Hebdo” assassinado no ataque] se a proteção [policial] que nos faziam ainda tinha sentido. As histórias das caricaturas, tudo isso eram coisas do passado”, lembrava Riss. Rapidamente a realidade desmentiu-o, “ foi a eternidade que nos caiu em cima nessa quarta-feira 7 de janeiro. Nessa manhã, depois do barulho ensurdecedor dos 60 tiros disparados em três minutos na redação, um imenso silêncio invadiu a sala. Eu esperava ouvir gemidos e lamentos, mas não. Nem um som. Um silêncio ensurdecedor que me fez compreender que estavam mortos. E quando um bombeiro me ajudou a levantar-me, e depois de ver levarem Charb, que estava ao meu lado, eu proibi-me de olhar para a redação para não ver as mortes. Não ver a morte de ‘Charlie’. Seria  ‘Charlie’ a vê-los morrer”. Depois do massacre, como viver e como fazer humor num jornal de humor? “Como fazer o jornal depois de tudo isso? É tudo o que nós vivemos durante 23 anos que nos dá a raiva”, garante o diretor. “Não são dois pequenos imbecis encapuçados que vão foder o nosso trabalho. Não são eles que verão agonizar ‘Charlie’. São eles que nós veremos acabar”, conclui. “No fim de cada ano, nós maravilhamo-nos por ainda estarmos vivos.”

Este número especial do “Charlie Hebdo”, que assinala a data, contém um caderno com desenhos dos membros do jornal assassinados: Cabu, Wolinski, Charb, Tignous, Honoré; artigos de fora da redação, como os da ministra da Cultura francesa, Fleur Pellerin; atrizes como Isabelle Adjani, Charlotte Gainsbourg, Juliete Binoche; intelectuais como Élisabeth Badinter, Taslima Nasreen, Russel Banks; e o músico Ibrahim Maalouf.

Antes do atentado, “Charlie Hebdo” imprimia 50 mil exemplares; hoje vende 90 mil em banca e mais 180 mil exemplares para assinantes. Como diz o “Le Monde”, antigamente liam-no nos cafés para rir; hoje leem-no também nos ministérios e nas embaixadas, mesmo que não tenham nenhuma vontade de sorrir.

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