8/8/20
 
 

O gazeteiro em férias

Paulo Portas foi o verdadeiro inventor do SPV político: o special purpose vehicle da política, o partido político erigido em forma de chegar ao poder sem qualquer propósito salvo o de o exercer.

Mais leio e mais me espanto! Daniel Oliveira, esquerdista encartado, declara em página de jornal o seu amor a Paulo Portas; São José Almeida, jornalista e colunista do “Público”, acha-o digno de tudo e sei lá que mais; comentaristas diversos extasiam-se perante a sua abdicação e admiram a elegância senatorial do jovem que, ao fim de 16 anos, decidiu reformar-se da política ativa. Enfim…

Interrogava-me eu de que serve ser presidente do CDS. A resposta é que serve para chegar ao governo. Ah, ok! E de que serve chegar ao governo? Serve para exercer o poder, seus tolos! Boa! E isso serve para...? Pois, é um fim em si mesmo, é para isso que servem os partidos.

Veja-se, por exemplo, Paulo Portas: genial, cheio de chiste, sempre com um sound bite ao virar da esquina, um aristocrata da política, ora está, ora não fica, vai lidando a coisa e enviando cadáveres para a grande fossa comum dos politicamente ultrapassados, inventa novas gerações (eles que esperem pela malta mesmo nova e vão descobrir que, afinal, são velhos), mas fez o quê que lhe garanta ao menos um nome de rua? Pois que eu me lembre, nada!

Paulo Portas foi o verdadeiro inventor do SPV político – o special purpose vehicle da política –, o partido político erigido em forma de chegar ao poder sem qualquer propósito salvo o de o exercer. É aqui que me lembro daquela velha frase “ser eleito para governar e governar para ganhar eleições”.

Mas já chega de falar nele: é apenas um exemplo do que prevalece hoje na política em Portugal. A verdade é que os partidos deixaram de ter conteúdo ideológico, com exceção de um que tem um conteúdo sinistro, o PCP.

Ao não representarem nada salvo um belo conjunto de clientelas politicas a satisfazer e que, repletas, se dão por satisfeitas, os partidos da República estão por tudo, seja o Tratado Orçamental, seja depois do referendo inglês (que vem aí…) pelo seu contrário, ou pelo contrário do oposto do seu contrário, tanto faz como fez, desde que possam exercer o poder.

Não sei se já repararam (esta é irónica, claro), mas os “nossos” partidos, uma vez no poder, fazem exatamente o oposto do que diziam na oposição, descobrem de supetão uma gravidez de Estado, um sentido do “bem público” (por oposição ao meu bem e ao seu, já agora) que nos confunde e deixa absortos. Então mas que diabo, votei eu nestes liberais que me aumentam os impostos e engordam o Estado?! Então votei eu nestes socialistas que gastam o seu tempo a fazer negócios com as grandes empresas?

Há muito que deixou de haver opções claras em matéria de política, escolhas a fazer; os governos são uma amálgama mal fundida de ideias banais e trivialidades. O importante parece que é decidido em “Bruxelas”, seja lá onde isso for. Já quase não me lembro de ver umas eleições serem ganhas ou perdidas por quem defenda opções claras para Portugal. Acho que as últimas foram em 1985, quando Cavaco proclamava que tinha uma visão para o país, e tinha. Foi há 30 anos.

Os meus votos para 2016 são que o PS e os seus aliados governem como prometeram – e paguem ou colham o preço disso – e que o PSD e o CDS reinventem uma política de centro-direita focada nos direitos das pessoas face ao Estado, na defesa da iniciativa privada face ao que é público, na responsabilidade individual, no mérito e no prémio da excelência, no realismo em matéria social e na refundição do Estado corporativo em que vivemos, a começar pela reforma do sistema político amadurado em que estamos. É pedir muito?

Quanto aos gazeteiros que vão de férias quando não há poder a exercer, recordo-me de Manuel Monteiro, de quem fui amigo e com quem ajudei a refazer o CDS: só faz falta quem está. Eles que vão de férias e não chateiem…

Subscritor do manifesto Por uma Democracia de Qualidade

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