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Suinicultura. Governo cede para travar derrocada de setor que vale 600 milhões

Suinicultura. Governo cede para travar derrocada de setor que vale 600 milhões

Global Imagens Sofia Martins Santos 05/01/2016 22:54

Embargo russo, crise em Angola e grande distribuição são os principais motivos para a crise que ameaça o setor. Executivo assegura que é necessário “suavizar prejuízos”.

Um cenário de “colapso do setor da suinicultura em Portugal” foi ontem posto em cima da mesa, na reunião que os representantes de empresas de suinicultura tiveram com o ministro da Agricultura por causa da crise no setor. Um encontro que terminou com Capoulas Santos a reconhecer que os produtores nacionais estão a ser pagos a um preço inferior à média de referência. Para o responsável pela pasta da Agricultura é ainda claro que é importante arranjar soluções para “suavizar os prejuízos” deste setor, cuja produção direta vale 600 milhões por ano.

“Temos uma pressão da oferta que tem vindo a pressionar os preços em baixa o que torna a vida muito difícil para os produtores”, afirmou Capoulas Santos à saída da reunião, que envolveu produção, indústria e distribuição. Atualmente, o preço médio praticado na bolsa de Lérida é de cerca de 1,25 euros, mas em Portugal os produtores recebem apenas 1,05 euros por cada quilo de carne.

Uma das reivindicações dos produtores era exatamente que a carne começasse a ser comprada de acordo com os preços de referência.

“O que se recebe não chega para pagar a alimentação. Muito menos medicação e vacinação. Vamos deixar os porcos morrer à fome?”, queixou-se ao i, Vítor Menino, presidente da Federação Portuguesa das Associações de Suinicultores (FPAS), quando começaram a surgir as primeiras campanhas de protesto.

Uma situação que o atual ministro da Agricultura reconhece ser grave. “Os preços pagos aos produtores portugueses estão um pouco abaixo desse valor e é importante que esse nível de preços seja conseguido”, admitiu o governante. Conclusões que são do agrado do presidente da FPAS: “Ficamos na expectativa de que tudo possa melhorar”.

Mas, para Capoulas Santos, é claro que para esta crise muito tem contribuído o excesso de oferta provocado pelo embargo russo e à crise económica em países como Angola ou Venezuela.

Crise no setor repete-se Em 2003, muito se falou da “matança” de todo o setor e da consequente falência das pequenas e médias empresas ligadas à suinicultura. Já nesta altura ganhava importância o crescimento na importação de carne de porco e da apatia das entidades competentes no incentivo ao consumo dos produtos nacionais. Em 2012, novo cenário dramático. O preço da carne pouco tinha subido nos seis anos anteriores, mas os produtores garantiam que os custos tinham aumentado 6,6%. Ou seja, entre 2005 e 2011 os preços da carne de porco ao consumidor tinham aumentado 0,1% e depois de 2009 ficaram abaixo da inflação. Em 2015, o setor voltou a chamar a atenção para os problemas que surgiram depois do embargo russo. “São vidas inteiras de trabalho. Não são só os porcos que podem começar, em breve, a morrer à fome, os próprios produtores também. Aliás, já começaram a fechar fábricas de ração”, sublinhou, no final do ano, Vítor Menino. Fonte ligada ao setor garante mesmo que a morte de animais já começou a acontecer: “Se os produtores gastam mais do que recebem é normal que comece a faltar dinheiro para a medicação e para a alimentação dos animais”.

Os protestos marcaram principalmente o fim de 2015. Os suinicultores reuniram-se um pouco por todo o país com ações de protesto em grandes superfícies comerciais. Em outubro, invadiram a Bolsa do Porco e acusaram as grandes superfícies de esmagarem os preços da carne de porco, obrigando-os a vender muito abaixo do preço de produção.

Já em dezembro, bloquearam as entradas e saídas da unidade industrial de processamento deste tipo de carne para o grupo Sonae. O protesto durou cerca de três horas e foram exigidas novas políticas em relação aos preços que o grupo estava a praticar. Até porque, nesta altura, os criadores queixavam-se que a campanha “Coma o Que É Nosso” tinha levado os portugueses a comprarem mais carne nacional, mas os lucros não estavam a ir para os produtores. “As pessoas estão, de facto, mais atentas e disponíveis para ajudar, mas não está a funcionar. As grandes superfícies aumentaram os preços por quilo de carne, mas os produtores continuam a ver o mesmo valor. Eles é que aumentam a margem de lucro”, alertava nesta altura o presidente da FPAS.

A importância do setor Estão registados em Portugal cerca de quatro mil suinicultores industriais e 14 mil explorações. De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), apesar da crise que os produtores dizem sentir, não houve diminuição no número de abate de suínos para consumo. Em comparação com os dados do mesmo período do ano anterior, o número de suínos abatidos e aprovados para consumo público aumentou todos os meses, entre janeiro e agosto deste ano, sendo o nível mais alto em junho, de 13,1%.

A produção total de carne, de acordo com os dados do INE, registou em 2014 um acréscimo de 1,8% devido sobretudo ao maior volume de carne de suíno e aves de capoeira, sendo que, em média, cada português consome 108 quilos de carne, por ano. Recorde-se que nos primeiros nove meses de 2015, a União Europeia (UE) exportou 2,25 milhões de toneladas, mais 127 mil toneladas do que em 2014.

Apoios do governo e de Bruxelas Capoulas Santos comprometeu-se a reforçar medidas de fiscalização das práticas comerciais da grande distribuição, nomeadamente no cumprimento da regulamentação da rotulagem. O ministro garante que será dada mais visibilidade à identificação da origem da carne, nomeadamente, “através da aposição da bandeira nacional” nas embalagens.

Recorde-se que Bruxelas também fez saber recentemente que pretendia apoiar, já a partir de janeiro, a armazenagem privada de carne de porco e pediu um novo programa de ajuda aos setores de crise. “Haverá a abertura a uma nova armazenagem privada, isto é, os agricultores podem receber uma ajuda para ‘stockarem’ durante um determinado período a carne em excesso para que venha a ser relançada no mercado numa situação mais favorável”, explicou, em dezembro, Capoulas Santos.

sofia.santos@ionline.pt

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