16/9/19
 
 
Tsipras. O antigo Che Guevara de Atenas procura gravata

Tsipras. O antigo Che Guevara de Atenas procura gravata

Nuno Ramos de Almeida 01/01/2016 17:40

A chegada do Syriza ao poder, no berço da democracia, significa o começo de uma modificação radical das escolhas políticas na União Europeia ou é apenas a reconstituição do espaço da social-democracia depois  do falhanço dos partidos da Terceira Via? 

Num dos livros do famoso escritor uruguaio falecido em 2015, Eduardo Galeano, relatava-se uma inscrição num dos muros da América Latina: “Se as eleições funcionassem, estariam proibidas”.

A política recente grega e a trajectória de Alexis Tsipras parece confirmar este pessimismo sobre a democracia nos nossos dias. O Syriza (acrónimo grego de Coligação de Extrema-Esquerda), liderado por Tsipras, teve uma ascensão meteórica: nas legislativas de 2009, conseguiu 4,6% dos votos; em Maio de 2012, obteve o segundo lugar com 16,8% dos sufrágios; um mês depois, quando as eleições foram repetidas, devido a não ter sido possível formar governo, o Syriza registou 26,89% ,a poucos pontos do primeiro partido, a Nova Democracia; finalmente em Janeiro de 2015, conquistou o primeiro lugar com 36,34% dos boletins de voto, e forma governo em coligação com os nacionalistas de direita. A intenção era formar um governo anti-austeritário que negociasse com os credores gregos, reunidos na troika, uma reestruturação da dívida e uma política de pagamento faseada, indexada ao crescimento grego.

O falhanço das negociações com os parceiros europeus - para quem o reconhecimento do falhanço da política de austeridade na Grécia, punha em causa não só as reformas económicas de caracter neoliberal, como a manutenção no poder dos governos portugueses e espanhol - levaram a um impasse. O governo grego, liderado por Tsipras, recusou as medidas de agravamento do plano europeu de austeridade e convocou um referendo. Apesar de ter contra si todos os restantes estados da União Europeia, 61,5 % dos votantes gregos recusaram, em Julho de 2015, as imposições dos credores.

Este resultado punha directamente em causa o poder do eixo Berlim-Bruxelas: Angela Merkel e o seu ministro das Finanças, Schäuble, não poderiam permitir o mau exemplo dado por um país que pretendia discutir democraticamente as políticas a que era sujeito – Já anteriormente o primeiro-ministro Papandréu tinha sido forçado a demitir-se por essa veleidade.

Desde o início que a questão não estava na viabilidade dos gregos, portugueses, e outros, pagarem o que devem. Toda a gente sabe que isso é impossível, a questão é política: é obrigatório obedecer aos centros de comando europeus e fazer uma política, ideológica, centrada nas destruição do Estado Social, na privatização das empresas públicas e da redução abrupta do poder de compra dos assalariados (a chamada desvalorização interna). Uma orientação desenhada para manter o predomínio do capital financeiro especulativo nas economias e a manutenção da inimputabilidade dos seus accionistas: os dividendos são privados e os prejuízos são dos contribuintes. Depois do referendo o governo grego deixou cair o ministro das Finanças Varoufakis e foi directamente chantageado pelos seus parceiros: ou aceitava condições ainda mais gravosas de austeridade, do que aquelas que os eleitores gregos referendavam, ou eram expulsos do euro. Uma saída improvisada da moeda única teria consequências imediatas destrutivas sobre a fraca economia grega, acresce que as sondagens demonstravam que a esmagadora maioria dos gregos eram contra as políticas de austeridade impostas pela troika, mas receavam uma saída do euro. Apesar de vitorioso no referendo, o governo de Tsipras não parecia ter plano B. Varoufakis e a ala esquerda do executivo defenderam que não era possível recuar.

O ministro das Finanças do Syriza tinha qualificado as imposições dos credores como uma espécie de Tratado de Versalhes, profundamente injusto e que levaria o mundo a uma nova guerra. Um dos apoiantes internacionais de Tsipras, o filósofo Slavoj Zizek, defendia que este recuo era necessário, era uma espécie de acordo Brest-Litovsky [ tratado em que os bolcheviques cederam parte do território da Ucrânia em troco da paz] para respirar: o Syriza não estava preparado para recorrer a um plano B e afrontar a União Europeia, precisava de tempo para conseguir uma outra correlação de forças no velho continente. “A 25 de janeiro o povo deu-nos um mandato para as negociações difíceis.

Depois de 12 de Julho, não tínhamos o direito de continuar com esse mandato. Por isso peço um novo mandato para continuar” disse o primeiro ministro demissionário na entrevista à estação televisiva Alpha depois do falhanço das negociações. “Ainda não tive oportunidade para governar, tanto eu como o meu governo fomos absorvidos pelas negociações e a asfixia económica” dos últimos sete meses, acrescentou o líder do Syriza. “Ao fim das 17 horas da cimeira, podia ter seguido o meu coração e vir-me embora como um herói por alguns momentos. Mas no dia seguinte enfrentaria o colapso do sistema bancário e, quem sabe, uma guerra civil no país”, concluiu o primeiro-ministro demissionário. 

Apesar da saída de muitos deputados do seu partido, entre os quais a presidente do parlamento e de Varoufakis, nas eleições de Setembro de 2015, o Syriza volta a ganhar com 35, 5% dos votantes. O homem que aderiu à juventude comunista aos 16 anos e que deu ao seu segundo filho o nome de “Ernesto”, em homenagem a Che Guevara, volta a chefiar o governo; um executivo agora apostado em dizer “sim” aos credores, enquanto espera o momento para lhes dizer que “não”. O plano é o contrário que o levou, pela primeira vez ao poder: aceita cortes nas reformas, privatizações selvagens das empresas públicas gregas, e objectivos macroeconómicos impossíveis de cumprir: um saldo primário orçamental de 0,5% do PIB em 2016, 1,75% em 2017, e 3,5% a partir de 2018. 

Enquanto ganha tempo, Tsipras vai tentando constituir uma frente anti-austeridade a nível Europeu: saúda a indigitação para primeiro-ministro do líder do PS português, António Costa; faz o mesmo ao seu amigo Pablo Iglesias, depois das eleições espanholas: “Um governo de maioria progressista pode agora ter condições para se formar. O nosso esforço justificou-se. A Europa está a mudar!”, escreveu Tsipras no Twitter a 21 de Dezembro de 2015.  

No fundo, a política do Syriza, e de outros novos partidos na Europa, é uma forma de reconstituição de um campo social-democrata de novo tipo, depois da falência dos antigos partidos como o PASOK.  Do seu início, Tsipras mantém a recusa de usar fato e gravata, já declarou que só colocará uma quando o seu país tiver livre dos credores, nessa altura a sua transformação será total. 

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×