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‘Não é fácil contracenar com atores de quem não se gosta’’

‘Não é fácil contracenar com atores de quem não se gosta’’

João Girão Mariana Madrinha e Vítor Rainho 23/12/2015 22:15

Entrevista à atriz Maria João Bastos

Nasceu a 18 de junho de 1975 em Benavente. Quais são as imagens mais marcantes desses primeiros anos?

Nasci e cresci numa vila onde toda a gente se conhece. Tenho muito presente essa sensação de liberdade. Lembro-me de passar as tardes em casa da minha avó, que vivia mesmo ao lado, e recordo-me muito de estar na loja da minha mãe a ajudá-la com as clientes e a embrulhar os presentes. Outra coisa que adorava era quando a minha mãe ia a Lisboa escolher as coleções. Íamos à FIL ou aos hotéis onde havia o desfile de moda que apresentava a coleção. Era muito pequenina mas acompanhava-a sempre e adorava.

Era natural que viesse a seguir qualquer coisa ligada à moda.

Não, nunca pensei seguir nada ligado à moda porque desde muito cedo que dizia que queria ser atriz. Era um objetivo tão definido na minha cabeça que a moda acabou por ser um acaso.

Mas acha que é mesmo assim? Alguém diz em criança que quer ser jogador da bola ou astronauta e consegue?

Sim.

Não acha que é uma coincidência?

Não. Desde muito jovem mostras logo uma apetência que depois desenvolves ou não, é ou não incentivada pelos teus pais e pelas pessoas que estão à tua volta. Se não for alimentada poderá não ter seguimento. Os meus pais sempre me alimentaram esse desejo, pois puseram-me no teatro cedíssimo. Acabaram por alimentar o meu sonho de concretizar algo que eles sabiam que eu gostava.

Quando descobriu que havia coisas más na vida?

O que me marcou muito negativamente foi, aos 13 anos, perder a minha prima. Uns anos antes tinha assistido ao atropelamento do meu cão, que considerava parte da minha família. Durante algum tempo senti-me culpada pela morte dele. Não foi fácil digerir isso.

E do que gostou mais na infância?

De fazer teatro amador em Benavente e de andar nos escuteiros. Comecei muito pequena nos escuteiros com as minhas irmãs e tínhamos sempre acampamentos na Páscoa e no verão. Eu sou muito aventureira, já fui mais mas... (risos) Sempre tive um espírito de viajante, faz parte da minha natureza. Quando chegava o Natal fazia a mala de viagem para ir passar a quadra a casa da minha avó, apesar da casa dela ficar ao lado da nossa. E isso é uma coisa que os escuteiros têm muito. Adorava poder chegar ao verão e fazer uma mala enorme para ir para o meio do mato num acampamento.

O que fazia nos escuteiros?

No acampamento aprendes a fazer tudo, desde primeiros socorros a diversas provas que testam a tua capacidade de sobreviver e de ajudar as outras pessoas em caso de perigo. Tens de construir a tua tenda, construir os teus móveis…

Benavente é uma terra com tradição tauromáquica e ligada à vida no campo. Assistiu a matanças de porco em criança?

Assisti muito, fez parte da minha infância a matança do porco. Nunca fui muito de touradas e até gostava que não existissem, por aquilo que acontece ao animal.

É por isso que está a deixar de comer carne?

Estou a tentar, mas confesso que ainda não deixei totalmente.

Mas ainda gosta de um bife ou não?

Ainda consumo, ainda consumo... Já me vai tramar, mas ainda consumo. A verdade é que gosto de carne.

Com que idade veio para Lisboa estudar?

Com 17 anos. Queria tentar a minha carreira de atriz, vir para a universidade e seguir o meu caminho. Comecei com teatro amador em Benavente, era o membro mais jovem. O resto dos atores era tudo de 40 para cima, eu tinha 11 ou 12 anos, e essa interação com as pessoas mais velhas foi muito engraçada. Mas pronto, vim para Lisboa porque recebi um convite para entrar para a Elite, a agência de modelos.

Onde lhe fizeram esse convite?

Estava num café, vieram ter comigo e perguntaram-me se não queria trabalhar como modelo e eu disse que não. Deram-me o cartão e eu segui com a minha vida. Até que passado um bom tempo, talvez um ano depois, comecei a pensar que se calhar entrar para a Elite seria uma boa maneira de ter acesso aos castings para televisão. Fui à agência, apresentei-me, disse que aceitava o convite deles mas o meu intuito não era ser manequim, era ser atriz, e eles ajudaram-me a ter acesso aos castings. De repente, não percebi muito bem como nem porquê, estava a trabalhar como modelo de uma forma incrível. Começaram a aparecer muitos trabalhos, quando dei por mim estava a fazer anúncios de televisão. Passado pouquíssimo tempo aconteceu aquilo que eu previa: a agência mandou-me à NBP fazer um casting para uma novela. Foi aí que tudo começou.

Que idade tinha quando apareceu pela primeira vez na televisão?

Fiz uma participação nas “Cinzas” com 16 anos, ainda vivia em Benavente. O meu pai vinha comigo para eu gravar. Era preciso uma figurante e a minha irmã mais velha, que trabalhava como assistente de produção, disse: “Tenho uma irmã que quer ser atriz, e faz teatro amador”. E chamaram-me. Fiz a figuração, passou de uma figuração sem falas para uma figuração com uma fala, depois eles gostaram e às tantas já tinha uma pequena história.

Isso foi antes da agência.

Às vezes nem conto como se tivesse começado aí a minha carreira em televisão. Mas foi uma experiência muito gira para mim e para o meu pai. Como o meu pai não assistiu a nada daquilo que conquistei, pelo menos vivemos isso juntos.

Quando veio para Lisboa vivia com quem?

Com a minha irmã Inês, que também estava em Lisboa, a fazer o curso de Direito. Só que entretanto comecei a trabalhar e tornei-me totalmente independente, até porque depois o meu pai morreu e nós enfim... Cada uma começou a seguir o seu caminho.

Essa casa era um grande forrobodó, duas miúdas...

A casa era muito divertida porque não eram só duas miúdas, eram duas miúdas, as minhas melhores amigas da faculdade e as duas melhores amigas da minha irmã. A casa era enorme, tínhamos muitos quartos e portanto tínhamos sempre muitas amigas a acampar lá.

Até que se dá a morte do seu pai. Nessa altura chegou a equacionar voltar para Benavente?

Nunca. Foi o momento mais doloroso da minha vida e senti muito medo. Assustou-me essa realidade: agora tenho que tomar conta da minha mãe. E a minha mãe era novíssima, tinha 43 anos. Mas perante o medo ou uma adversidade ganho mais força para não desistir das coisas.

Tinha uma relação muito próxima com o seu pai?

Apesar de o meu pai ser uma pessoa muito discreta e introspetiva tínhamos uma relação muito próxima. Era uma pessoa que me acompanhava muito. Víamos a novela da Globo todos os dias ao meio dia. Eu vinha a correr da escola e sentava-me ao lado dele no sofá e dizia “Um dia vou estar ali a fazer novelas”. E ele dizia-me sempre: “Vais, claro que vais. Um dia vais estar ali a fazeres novelas, é só quereres”. E efetivamente acabei por ir para a Globo fazer novelas.

Entretanto começa a ganhar bastante dinheiro na moda.

Comecei a ser financeiramente independente e a ter uma vida simpática. Mas sempre trabalhei nas férias de verão.

A fazer o quê?

Sei lá, fui trabalhar para um laboratório de análises, trabalhava na loja da minha mãe, trabalhei numa farmácia, apanhei tomate com a minha irmã e a minha prima. Era dinheiro para as férias.

Quando ganhou o seu primeiro grande ordenado?

Acho que foi com um programa de televisão sobre carros, tunnings e ralis que se chamava “Desafios”. Ainda viajei um bocado com isso.

Lembra-se da primeira grande compra que fez com o primeiro ordenado?

Lembro-me de ter comprado o meu carro. Andei a juntar dinheiro e lá fui eu com as minhas melhores amigas, a Ana e a Mónica. Acordámos cedíssimo e fomos as três no meu carrinho em segunda mão. Cheguei lá e disse ao senhor: “Quero aquele carro em preto, três portas”. E ele: “Preto três portas não temos, só temos cinzento”. “Então pode ser, cinzento três portas”. “Só temos cinzento cinco portas”. “Então pode ser”. Era um Saxo. Fomos passear por Lisboa e dormir a Benavente, a casa da minha mãe, para mostrar o carro.

Os colegas reconheciam-na?

Conheciam da moda porque trabalhei muito durante a faculdade, e ganhei um prémio do Elite Model Look internacional, se não me engano em 1998. Cheguei a ter cinco anúncios ao mesmo tempo na televisão e três deles eram de produtos concorrentes. Até brincávamos com isso.

Quando entra para as novelas?

O primeiro casting que fiz foi para uma novela que se chamava “Os Lobos”. Fiz o casting com o Virgílio Castelo, fiquei logo com o papel e ele entretanto diz-me: “Olha, queria-te avisar que este papel tem umas cenas de nus”. Acabei por recusar e naquele momento pensei que podia estar a fazer o maior disparate da minha vida. Fui a chorar para casa, porque não sabia se ele tinha pensado que me estava a dar uma oportunidade e eu estava recusar. Fiquei sem saber até ao dia em que o meu telefone tocou e ele me diz: “É a Maria João Bastos? Daqui fala o Virgílio Castelo, queria-te convidar para fazeres o “Todo o Tempo do Mundo”, com a personagem tal. Não tens cenas de nus”.

A propósito da nudez, não seria capaz...

Seria e já fiz. Hoje em dia não existe, mas na altura existia muito preconceito de “só está aqui porque tem uma carinha bonita e vai mostrar o corpo”. Não queria que fosse a primeira imagem que as pessoas tinham de mim na televisão.

Depois usou o corpo em muitas cenas ousadas.

Não usei assim tanto, usei no “Equador”.

Mas foi muito escaldante.

Até nem fiz cenas assim cenas tão ousadas. Mas não tenho problemas em fazer se assim se justificar para a cena, porque também há cenas gratuitas e essas eu já recusei várias vezes.

Em relação à sua entrada no mundo da televisão, quais foram as suas primeiras grandes angústias?

A minha primeira grande angústia foi ter recusado aquela personagem e ter pensado que aquilo me poderia cortar as pernas. Depois disso é a angústia normal de quem começa uma carreira, pores-te à prova, se vais conseguir chegar ao que as pessoas esperam de ti, ao que esperas de ti próprio.

Sentiu preconceito em relação aos atores que vinham da moda?

Sim. Mas em relação a mim nunca senti. Ou então não queria sentir esse preconceito, estava tão segura daquilo que queria e daquilo que estava a fazer e trabalhei tanto para fazer aquela primeira personagem...

Trabalhou como?

Empenhava-me, estudava. Trabalhei muito para provar que merecia estar a fazer aquela novela.

Nessa altura ainda não tinha feito nenhum curso?

Nada. A experiência que tinha era do teatro, e era tudo muito intuitivo.

Quando começa a ter algum sucesso sente a necessidade de investir em formação?

É isso mesmo. Eu fiz o “Todo o Tempo do Mundo”, o “Querido Professor” e o “Alta Fidelidade”, e quando terminei este último projeto decidi que precisava de ter formação e ferramentas para evoluir na minha carreira. Na altura até me disseram que se calhar não era o melhor momento porque estava a começar a ficar conhecida, a criar o meu caminho e de repente ia desaparecer, mas achei que tinha mesmo que fazer e ainda bem que fiz. Foi quando fui para Nova Iorque.

Esteve lá quanto tempo?

A primeira vez estive cerca de seis meses e a segunda três. E depois, ao longo da minha carreira, tenho feito formação frequentemente, em vários sítios. Fiz workshops em Nova Iorque, na Bélgica, em Paris, no Brasil. Quando termino um projeto faço sempre questão de apostar em formação. Para já porque não gosto de ficar presa às mesmas técnicas - estudei um método em Nova Iorque mas há muitas outras técnicas e abordagens diferentes e acho que é interessante para um ator conhecer um bocadinho de todos esses métodos até para depois criar o seu próprio método.

Quando começa a ter algum protagonismo torna-se numa mulher muito desejada. Como distinguia quem se aproximava de si por ser conhecida?

Desde cedo tive consciência e fiquei muito atenta, o que me deve ter safado de alguns dissabores. Mas só a experiência é que ajuda.

Há alguma coisa na sua vida no campeonato sentimental que a tenha surpreendido totalmente?

Nessa altura? Não. Até porque, se não me engano, tinha namorado. Eu namoro muitos anos, portanto ficas mais defendido. Tinha uma relação perfeitamente estável.

Mas era muito abordada?

Sim, mas esse confronto não tem só propriamente a ver com a parte amorosa da vida. Essa realidade de seres uma pessoa conhecida e de repente terem um interesse por ti que não tinham antes é uma mudança grande na vida. Mas não foi como se eu tivesse feito um projeto e rebentado, como muitas vezes acontece e acho que é pior. Eu fui subindo degrau a degrau, as coisas foram acontecendo de forma tão gradual que acho que me fui habituando a reconhecer estas situações e a defender-me delas. Nomeadamente da imprensa, que foi a pior realidade que tive de enfrentar.

Como assim?

Há um certo tipo de imprensa com o qual tem de se aprender a viver quando te tornas uma pessoa conhecida, e essa foi talvez a situação mais conflituosa com que tive de lidar.

Porquê?

Porque a certa altura comecei a gerar um certo interesse na imprensa e há má imprensa que faz notícias falsas - hoje em dia giro isso de uma maneira completamente diferente, mas na altura, sem nenhuma experiência, ficava triste.

Com que tipo de notícias ficava triste?

As notícias em que via exposta a minha vida pessoal e a da família. Quando eu tinha namorado, por exemplo, inventavam outras histórias.

Como é que o seu namorado reagia?

Eu tinha uma relação muito estável nessa altura e com uma pessoa que respeitava e entendia perfeitamente. E sinceramente foi ele que me ajudou a criar os meus mecanismos de defesa através da segurança que me dava ao acreditar em mim, começou a mostrar-me que aquilo valia o que valia. Mas no início até se criar margem de manobra para gerir essas situações emocionais, como acordar de manhã e ver uma capa de revista com uma mentira sobre nós, não é fácil. Hoje não me afeta nem um terço do que me afetava.

Diz-se muito que no mundo da televisão e no teatro os atores para progredirem na carreira têm de ir para a cama com produtores, realizadores ou encenadores.

Em relação a Portugal? Não sinto nada disso. Tenho 20 e tal anos de carreira e nunca fui abordada nesse sentido por ninguém com quem trabalhasse nem ninguém que me colocasse nesse tipo de posição.

Acha que em Portugal as novelas tiveram a evolução que teve enquanto atriz?

Ultimamente sim, há uma maior preocupação com o trabalho que é preciso fazer antes de começar uma novela.

Dê-me exemplos concretos.

No “Equador” começámos a preparação três meses antes, tivemos aulas de valsa e de equitação. Aprendi a montar à amazona e todos os atores tiveram aulas de etiqueta e comportamento, ou seja, na prática foi-nos dada a oportunidade de entrar no universo que iríamos representar. Antes do “Equador” não me lembro de ter passado por isso, e é um trabalho importantíssimo, mas muitas vezes não se faz ou porque não há tempo ou porque não há dinheiro.

Acha que esse trabalho deve partir apenas da produção ou a postura do ator relativamente à preparação de um papel também conta?

Sim, isso também deveria partir um bocadinho dos atores. Quando recebi a proposta para fazer a Liliane Marise disse que aceitava se me dessem as condições para a fazer, como aulas de voz e de dança e um coreógrafo. Comecei a trabalhar a Liliane Marise três meses antes de a fazer. Tive tempo que às vezes não existe, mas tem que existir porque é fundamental.

Fundamental em que sentido?

Imagina que numa novela estás a representar uma família coesa que, como todas as famílias, tem um passado. É normal a primeira vez em que vês a família ser só no primeiro dia em que vais gravar. A situação ideal era essa família ter ensaios conjuntos durante muito tempo para criar intimidade, as pessoas tinham que se tocar, de se conhecer. Fizemos este trabalho agora para esta novela [”Coração d’Ouro”] e acho que funcionou muito bem. Fizemos o ideal? Fizemos o possível.

Acha que cada vez se caminha mais nesse sentido, cada vez as produtoras têm mais essa perceção?

Pelo menos caminhamos para uma consciência de uma coisa que é fundamental num trabalho e que até agora era uma lacuna que existia, que é a preparação dos atores antes do início da novela. No fundo é um dos aspetos mais importantes, porque são os atores que contam a história. Esse trabalho acontece no cinema, por exemplo, o João Canijo, um realizador de cinema que adoro e com quem nunca tive oportunidade de trabalhar, faz sempre isso. No filme que ele fez com a Anabela Teixeira, ela esteve no norte a viver durante meses, na aldeia que seria a da personagem. Nota-se a diferença, e na minha perspetiva esse trabalho tem que existir em todas as áreas. No teatro existe com o tempo de ensaios, na televisão ainda é uma parte que gostava que fosse mais trabalhada. Mas estamos a evoluir.

Já não há nenhuma diferença entre a preparação no Brasil e Portugal?

Ainda há diferença.

Sente que quando chega cá é um mundo diferente?

Sinto que temos bons atores e bons técnicos e pessoas com vontade de fazer muito, mas ainda existe naturalmente uma incapacidade financeira de proporcionar aquilo que é necessário. A Globo tem essa capacidade, exporta os produtos para o mundo inteiro, gera dinheiro que é reinvestido em novos produtos. Os atores fazem o trabalho de laboratório das personagens, existe de facto dinheiro para criar uma estrutura, não só antes como durante o processo de toda a novela.

Prepara-se sempre muito para as suas personagens. Na Ann de “Equador” chegou a fazer uma árvore genealógica da sua família, marca consultas para psicólogos ou outros médicos quando a personagem assim o exige. No caso deste “Coração d’Ouro”, em que interpreta a editora de política Beatriz Castro d’Aguiar, com quem é que falou para se preparar?

Fomos à revista “Visão”, falámos na altura com o Pedro Camacho, visitámos a redação, tivemos oportunidade de fazer as perguntas que quisemos, e depois tenho um contacto direto com pessoas ligadas ao jornalismo que fazem parte da minha vida. Tenho a minha irmã que é editora de política, ou seja, faz o mesmo que a minha personagem. E tenho um amigo jornalista sempre disponível para me ajudar e acabo por ouvir muitas histórias e por estar sempre dentro do meio. Depois também estive com a Felícia Cabrita porque a minha personagem, a certa altura, vai envolver-se numa questão complicada, pública, nacional e que põe cabeças a prémio. É um caso muito polémico, em que ela corre um grande risco de vida porque vai denunciar pessoas com cargos muito importantes a nível nacional. Nesse sentido, e por todo o percurso da Felícia, quis falar um pouco com ela. Acabámos por estar num encontro que durou horas.

Já lhe aconteceu discordar totalmente de um guião, por exemplo com o fim da sua personagem, ou da história que escolheram para a sua personagem?

O trabalho mais difícil para mim, nesse sentido, foi o início do “Coração d’Ouro” porque não entendia muito bem a minha personagem. Sabia o caminho que ela ia percorrer, sabia no que ela se ia tornar e apesar de ter plena consciência de que as pessoas mudam a personalidade, não entendi muito bem o comportamento e as fragilidades no início da história. Mas tentei encontrar a contradição que era exigida à personagem e acabei por conseguir.

Consegue fazer plenamente um hiato entre a sua vida pessoal e profissional. Houve alguma qualidade das suas personagens que tentasse transpor para a sua vida?

Não, nunca pensei nisso nessa perspetiva.

E inconscientemente já o fez?

Boa pergunta. As minhas personagens são todas tão complexas e sofredoras e cheias de carga emocional e emotiva que já chega disso, já não quero mais disso para a minha vida (risos). Se quisesse trazer alguma coisa das personagens seria mais leveza. Adorava ter a alegria e a boa disposição constante que a Liliane Marise tinha.

Contracenar com atores de quem não se gosta é fácil?

Não, é muito difícil.

E quando acha que o trabalho deles é mau?

Fico preocupada de prejudicar o meu trabalho e tento preparar-me ainda mais para que me possa defender-me das falhas do outro ator.

É por isso que, com alguma frequência, aparece na imprensa que cria mau ambiente?

Não, isso é porque existe mau jornalismo e notícias inventadas para vender revistas. A trabalhar sou irrepreensível, não chego atrasada, falo com os meus colegas todos e dou-me bem com eles. Almoçamos juntos, divertimo-nos com todos os problemas que uma novela possa ter, que é uma coisa fundamental.

O que é representar quando se está em baixo e deprimido, porque acabou uma relação ou porque alguém da família está doente?

É um alívio. É deixares de viver a tua vida e os teus problemas para passares a viver os problemas da personagem. O trabalho ajuda e acabas por te esquecer dos problemas. Faz-me bem trabalhar quando tenho momentos mais em baixo na minha vida.

Na representação há equidade salarial entre género ou os homens ganham mais do que as mulheres?

Tenho consciência que as mulheres ganham mais do que os homens em Portugal.

Consegue dar uma imagem da diferença do que se ganha no Brasil em relação a Portugal?

Um ator no Brasil fica rico muito cedo, principalmente as mulheres. Tu ficas rica com uma novela no Brasil porque não é só a novela, é tudo o que a envolve. Se és protagonista da novela das 9 fazes tudo o que há de campanhas no Brasil, que são muito bem pagas. É outra realidade, lá existe um star system que aqui não existe.

Qual é o lado da sua profissão que mais gosta?

Quando me emociono a trabalhar, quando me esqueço que estou a representar, quando estou a dar vida àquela personagem, quando estou a olhar nos olhos do outro ator e me esqueço que sou eu. Representar é um jogo de ténis, a menos que façamos um monólogo. E os momentos que mais gosto, além de representar, é a preparação da personagem.

Por falar em personagens, não chegou a temer ficar agarrada à personagem de Liliane Marise?

Não, é engraçado porque no meu íntimo sabia que isso não podia acontecer. Já tinha mostrado muita coisa ao público que conhecia a minha versatilidade enquanto atriz. Acho que, se esta personagem tivesse sido feita no início de uma carreira, teria sido muito mais arriscado.

Tem algum hobby?

Não gosto da monotonia nem da rotina em nada da minha vida. No desporto gosto de treinar ao ar livre e tenho um personal trainer para me obrigar a treinar e para fazer coisas diferentes. Gosto de TRX e crossfit, de pilates e ioga. Adoro ler, ver séries e filmes e estar com amigos. Ah! E adoro jogar o Trivial [Pursuit]. E cantar no karaoke.

Consta que tem mau perder.

Depende das pessoas com quem jogo, quando estou a jogar com alguém competitivo também me torno competitiva...

Que série é que está a ver?

Estou completamente viciada no ”Homeland”. Chego a acordar às sete da manhã para conseguir ver meia hora antes de ir trabalhar. Mas também gosto muito de ver filmes de época e antigos.

Que géneros gosta de ler?

Gosto de biografias e estou a ler o “BI”, da Maria Filomena Mónica que, curiosamente, descobri através de uma entrevista que deu ao i. Também estou a ler um livro sobre a maçonaria e o Opus Dei, da Catarina Guerreiro.

Associa muito as suas personagens a animais. Disse que a Gabriela era um macaco, a Ann uma gazela. E a Maria João Bastos?

Pergunta gira. Acho que era uma pantera.

Porquê?

Porque tem uma beleza singela e delicada mas tem uma personalidade forte e veloz.

E acha que é assim?

Não sei! (risos) Sei lá, estou a tentar encontrar um animal. Diria a pantera, acho que sou uma pessoa…

Enigmática? É o adjetivo que me ocorre.

Talvez, também acho que sou enigmática. Misteriosa até, para quem não me conhece. Para os meus amigos sou muito fácil porque falo sem grandes pudores do que sinto.

Qual é para si o maior prazer simples da vida?

Não é cliché, é estar em casa com os meus amigos a fazer um jantar a rir e a conversar. É onde me sinto segura, é onde me sinto bem e tranquila e onde provavelmente me sinto totalmente feliz.

Tem 40 anos. Que papel lhe falta fazer? Ou seja, pensa em ter filhos?

Lá tinha de vir a pergunta… Penso, mas não vivo isso com ansiedade. Não tenho pressão nenhuma, gosto muito de ir vivendo a vida com o que ela me dá. Se eu não estivesse feliz, se isso fosse uma coisa que comprometesse a minha felicidade… A partir do momento em que eu estou feliz aproveito aquilo que a vida me der e tudo será bem-vindo. Mas acho que podia ser giro. Já tenho padrinho, mas ainda não tenho filho.

Alguma vez se sentiu perdida na vida?

Senti-me um pouco perdida quando perdi o meu pai.

Foi a única vez?

Foi.

Nos excessos já aconteceu certamente ter algum deslize, testar os seus limites. Publicamente, quando vê uma foto sua no dia seguinte a cometer um determinado exagero, tem uma ressaca muito maior do que uma pessoa normal?

Sabes que apesar de tudo, se formos falar de excessos, não há nada de que me envergonhe. E, além disso, encaro-me como uma pessoa normal, que tem direito à vida como qualquer outro. Mas quem é que não comete exageros? Quem não se divirta, namore ou beba, que atire a primeira pedra.

Veio de um meio em que assistiu a tantas matanças de porco, um ambiente mais selvagem, se quiser. Como é que tem um cãozinho tão pequenino?

(Risos) Porque adoro a raça Chihuahua e quando decidi ter um cão achei que era a única forma viável de lhe poder dar toda a atenção que acho que um animal merece. Ou seja, o meu trabalho é sempre tão frenético que se a Amélie não tivesse aquele tamanho não poderia andar comigo de um lado para o outro. Isso pesou na escolha, além de gostar muito da raça.

Quando falou sobre a morte do seu pai, disse que desde aí se sente responsável pela sua mãe. Isso foi quando tinha 18 anos. A partir daí, quem tomou conta de si?

(silêncio seguido de risos) A minha mãe não deixou de ser minha mãe, é a pessoa com quem eu falo todos os dias, que mais amo no mundo. Dava a vida por ela como ela dava por mim. A sensação de que sou filha dela ficou intacta, a minha é que deixou de ser só de filha. Realmente passei a sentir-me responsável sobre ela e já falámos sobre isso várias vezes.

E nunca colocou então ninguém nesse papel?

Eu deixo que as pessoas que fazem parte da minha vida tomem conta de mim, quer sejam amigos quer sejam pessoas com quem tive relações. Peço ajuda e chateio-os, considero-me uma pessoa com muita sorte nos amigos que tenho porque são poucos, mas muito bons e fazem parte da minha vida como se fossem família. Sei que se tiver um problema, uma doença, não vou estar sozinha. Graças a Deus! Até vou estar muito bem acompanhada, pelo menos palhaçadas dizem muitas. Vou rir-me muito, a vida toda. De certeza.  

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