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A poesia em 2015.Ler menos, ler melhor

A poesia em 2015.Ler menos, ler melhor

20/12/2015 19:16

Numa altura em que proliferam poetas, livros de poesia e editoras, será importante estranhar a abundância e ponderar o silêncio particular da razão de ser desta arte.

Não será fácil nem benéfico falar de poesia por atacado. Os modos de fazer com que ela se tece partem precisamente de uma lógica oponente: a do silêncio, da atenção ao detalhe, da ponderação de um discurso que acima de tudo é sugestão e um género muito particular de intimidade.

É talvez de lamentar, para os que se importam com isso, que hoje se fale muito mais de poetas do que de poemas, e que o assunto recaia invariavelmente num bate-boca pestilento à roda de lançamentos, saraus, sessões de leitura e cursos intensivos, teimando em roubar do museu da teoria da literatura questões tão absurdas quanto ultrapassadas como a sobrevivência da poesia nos dias de hoje, “tendo em conta a conjuntura actual”, quando já foi explicado tintim por tintim que as linhas com que a poesia se cose são outras.

É curioso notar que nunca houve um momento mais propício para fazer balanços anuais de poesia, numa altura em que se lê tão pouco e, em regra geral, tão mal. Não se pasme o leitor saneado destas tricas se lhe for dado a entender que os mais assíduos frequentadores das ditas listas, com dez ou cinquenta nomes que entretanto o facebook foi dando a conhecer na sua morrinha de banalidades, são os próprios poetas. Querem ver se está lá o seu livrinho e, claro, aproveitar uma oportunidade para afinarem a sua verve e esquentarem umas larachas contra a institucionalização da poesia, preferindo continuar a bater no ceguinho e publicar os seus cadernos de versos em vez de refrearem a mão e obrigá-la a copiar os ditados dos mais antigos.

As listas, com o seu inevitável name-dropping, são apenas uma versão económica da crítica literária (regra geral em jeito de garatuja de badana) que se vai fazendo ao longo do ano.  Mesmo a crítica com alguma decência à mesa mostra dificuldades hercúleas em saltar fora dos trampolins dos filósofos e dos geradores danados da teoria, que geralmente só servem para espalhar mais a confusão e enredarem o próprio crítico numa bonita trapalhada. A criminosa cientificação da literatura que vai ganhando corpo em balofas actas e colóquios nas universidades parece ser em parte responsável pelo facto de hoje em dia ser raro o crítico que se mostre capaz de falar de um livro sem primeiro estremecer amarrado à sua máquina de citações.

A crítica, como aliás a escrita, não é mais do que traçar um risco peculiar em volta do bicho estranho que é um poema ou uma prosa. Em vez de ter isso em mente, o nosso crítico teima em arranjar famílias de escritores quando ainda não aprendeu sequer a conversar com eles em privado. Mais uma vez, é o name-dropping que interessa, e isso vai-se tornando notório não só nas páginas dos jornais mas também nas maratonas de leituras e publicações que abrilhantam o fim-de-semana do poeta entrevado. A falta de humildade com que hoje se parte para a escrita é tão-só o resultado muito natural do autor que se julga dono de um sem-número de arcas secretas de inéditos inestimáveis, quando na verdade o que se passa é que esse autoproclamado poeta tem um jeito bestial para mimar a sua biografia, achando nela a grande razão para o poema. Infelizmente, pelo andar da carruagem, mais tarde ou mais cedo seremos todos poetas.

Luxuoso quotidiano Listas e tops à parte, este ano trouxe-nos alguns óptimos livros de poesia, e “A Sombra do Mar” (Assírio & Alvim), de Armando Silva Carvalho é um excelente exemplo disso. Reconhece-se nos poemas que o compõem uma qualidade que parece estar ausente em autores mais recentes, e que se refere a uma coerência interna da obra e a um cuidadoso mapeamento do inferno particular do autor, que não receia os desastres que o voo lírico pode trazer e consegue reabilitar a invocação e o envio (exemplos disso são as referências a Cesário, Pessoa, Sophia e Herberto Helder) no plano da sua curiosíssima consciência individual.

O tom aparentemente prosaico de alguns versos serve como uma espécie de tacteamento dos arredores íntimos do poeta, que deles parte para construir a sua grande espiral enredadora, inspirada, transfiguradora desse começo de real. Se em grande parte da poesia de um Herberto Helder a intuição poética na escolha dos vocábulos deixa o leitor entontecido de beleza, não raras vezes perguntando a si mesmo o que pôs a dormir o seu entendimento, Armando Silva Carvalho traz à superfície esse deslumbramento perante o mundo refeito na cintilação do poema sem no entanto se permitir à defraudação do concreto que insuflou vida no poema em primeiro lugar.

Este é um livro exímio na forma como estranha o comum degenerado, em que o peso da idade é propulsor do gesto criativo, conferindo-lhe uma segurança própria para rasgar caminho, entre a sensatez na urdidura do poema e a fulgurância do seu despiste verbal. Percebe-se que Armando Silva Carvalho não joga nos campeonatos do verso estridente, garrido para olhos menos treinados.

É a sua versão particular de silêncios e a lapidação imposta à sua crónica sentimental que nos torna cientes de um poeta maior, comprometido unicamente com o murmúrio do seu combate interior e apostado a escavar nele até desmontar qualquer intrujice teórica ou excesso biográfico. De forma concisa e eficaz, Armando Silva Carvalho dá-nos a perceber que não há poema sem as franjas da biografia e que esta, longe de ser uma história à espera de ser contada, vai sendo fundada na inclinação deliberada dos versos. Um certo negrume que podia sufocar esta poesia é entrecortado pela inesperada cintilação de uma estrela no meio do lixo: “Mas ninguém me impede de podar ainda o meu poema, / enxertá-lo de venenos subtis, colhidos numa infância pardacenta. / Braços ao alto, ó luz tão veneranda, que inocentemente definhas. / Eu posso torcer ainda os meus lençóis puídos / de flanela e urina, / retocar a estrela, sempre em segunda mão e tida por viúva.” (p. 30) O leitor vai-se dando conta de que a idade é avançada e a dignidade no mundo está pela hora da morte; o poeta junta muito bem todos os seus trapinhos descorados e com eles engendra as suas vestes de príncipe, no meio de um cenário que tanto tem de feira cabisbaixa como de curiosidade acriançada. Armando Silva Carvalho pertence a uma geração bem contrária à nossa, por vezes tão parca de sobriedade, julgando que dispersão e tricô linguístico lhe é suficiente para engordar semana a semana as suas obras incompletas. “A Sombra do Mar” evidencia o rigor possível na aflição de saber que se deita tudo a perder mal se tenta a mão no verso, e nesse aspecto o poeta faz flutuar um pouco o véu pessoano, ainda que dele aproveite apenas uma ténue sombra, até porque as suas por vezes bizarras e ainda assim apetecíveis intromissões vocabulares o tornam num poeta instaurador de um espaço único na poesia portuguesa, em que a domesticidade própria do sentir se ergue num enredamento frásico luxuoso. Armando Silva Carvalho é um catalogador exemplar daquilo a que Proust e outros tantos chamaram as pequenas mortes numa vida.

A pergunta seminal “Mirleos”, de João Miguel Fernandes Jorge, é outro dos livros do ano, fabuloso conjunto de poemas que tem como génese algumas obras de arte (pinturas, esculturas, calcários, etc.) do Museu Nacional de Machado de Castro (Coimbra). O título é explicitado pelo autor numa nota de introdução ao volume: “admiráveis ruínas será um dos seus sentidos”. Fernandes Jorge, como qualquer grande poeta, crítico ou leitor, tem a rara capacidade de ver o que não está presente (ou o que não é imediatamente discernível) no objecto da percepção (neste caso, uma obra de arte) e trabalhar a partir de uma convicção fundada a partir da descrição da marca que esse mesmo objecto deixou na sua impressão inicial. Um poeta que se proponha a criar cenas de algum fôlego imaginativo poderá correr o risco de ser colocado de parte pelo leitor preguiçoso ou eternamente amarrado às vísceras do real. Mas que real? Como não poderá ser automaticamente evidente que qualquer esforço de imaginação parte do que já foi fundado há muito numa individualidade, e que por sua vez reporta naturalmente à realidade circunstante desse mesmo indivíduo?

A despersonalização do poema a que Fernandes Jorge se propõe nunca nos deixa perder de vista a mão do autor, os seus tiques e nervuras, a rede de intuições que a faz mover-se, e é no diálogo rumorejante com pinturas ou esculturas, calcários ou faianças que se intuem as raízes do gesto poético propriamente dito. Esta é, em grande medida e felizmente, uma poesia não citável, no sentido em que não recapitula o que na gíria futebolística se chama jogar bonito:  não serve para o brilharete do leitor que tem especial prazer em partilhar com amigos o verso redondo, inchado de beleza e de verdade comezinha. Estamos no mais elevado e comovente domínio da especulação, da pergunta seminal a que o autor nos habituou desde a sua fulgurante estreia em 1971 com “Sob sobre Voz”.

Em “Mirleos” contam-se pequenas histórias muitas vezes truncadas, cujos passos se desdobram a partir do eco lírico e da sugestão de contornos fabulosos (no sentido mais fundo da palavra), capazes de nos mostrar um pouco daquela rarefacção celestial que afina a voz de Fernandes Jorge. Dificilmente a palavra elegância vestiu melhor um poeta vivo português. É a sua atenção microscópica que nos conduz às saliências mais esquecidas da História, na forma de objectos que, ainda que de facto existam, vêem a sua razão de ser reinventada na fulguração discreta, um pouco magoada e absolutamente sensorial desta poesia.

A imagem irrequieta Miguel-Manso publicou este ano “Persianas”, um livro de um fôlego e de uma inspiração impressionantes, não só pela sua disponibilidade temática como também pela ginástica intuitiva que mostra no burilar do seu verso. Se os assuntos que servem o propósito do poema denunciam com frequência uma ludicidade essencialmente doméstica, o tratamento que Manso lhes dá faz da sua arte a rotina aperfeiçoada de um prestidigitador.

O seu olhar sobre a coisificação do quotidiano faz-nos estar em casa na estranheza do comum, isto é, atribui ao leitor, e sem este se dar conta de imediato, uma posição de absoluta passividade enquanto vai pressentindo o obscurecimento do seu juízo e o baralhamento dos seus passos habituados em arredores que lhe eram antes familiares, disponibilizando-o desta forma para as possibilidades de uma realidade em constante transfiguração. Por vezes, essa realidade é de travo oriental, outras vem imbuída na mais irrequieta rusticidade, outras ainda mostra a absorção apaziguada de um homem habituado a saudar os despojos da existência com uma vénia. É subterrânea e ao mesmo tempo inaugural a forma como o universo e a semente do verso comunicam: “cruzar o adro do dia trazendo / na mão // o rochedo das rosas / frente ao extenuado entusiasmo / do mundo // a outra mão esquecida – chape chape – entre a água / e as ervas do poema // e pelo dia depressa caminhar e lento / quanto pudesse” (p. 88) Do princípio ao fim de “Persianas”, é Manso que parte o baralho e dá as cartas: a sua voz joga, não no espaço das razões mas da maior liberdade, ainda que antes de tocar a sua flauta caseira o poeta conheça de cor a amplitude do sopro. Alguns destes poemas são pequenas engenhocas que explodem nas mãos do leitor, não raras vezes no derradeiro verso, libertando um fiozinho de cor, uma nuvem perfumada, um perfume santificado. Os dotes manifestados na fertilidade da poesia de Manso fazem-nos perder a vontade de perguntar ao mágico como fez o seu truque. Algo se passou connosco, mas, como dizia Hemingway, “You’ll lose it, if you talk about it.”

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