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José Mourinho. Uma escola de treinador

José Mourinho. Uma escola de treinador

Rui Miguel Tovar 16/12/2015 17:13

Derrotado pela 11.ª vez em 25 jogos esta época, o treinador do Chelsea volta a fazer uso da dialéctica. O i vai então à procura dos Mourinhos antes de tempo.

No tempo da outra senhora é daquelas expressões que nos remete inevitavelmente para os nossos pais e avós. Quer dizer que vem aí mais uma história, em jeito de lição de vida. E sai sempre qualquer coisa do género “quando eu era novo, nada disto era assim” ou “naquele tempo, as coisas eram diferentes, percebes?”. E acaba sempre da mesma maneira: “mas isso é no tempo da outra senhora”. Como quem diz: “Isso era no tempo em que os animais falavam”, uma figura de estilo a querer indiciar que há muito, muito tempo (normalmente, 30/20 anos) tudo é diferente. E é mesmo. Veja-se o caso do futebol, com o amor à camisola. No tempo da outra senhora, um jogador que é de um clube, nunca mais sai daí, salvo raras excepções. É dali e pronto. Não anda aí a saltar de um clube para o outro. Sinais dos tempos.

No tempo em que os animais falavam, as figuras do jogo chamam-se futebolistas. Qualquer ficha de jogo do passado, não refere o treinador, só o onze titular. Qualquer crónica do passado, passa ao lado de nuances tácticas, só descreve a força do vento e as fintas mais aplaudidas pelos adeptos armados com guarda-chuva no peão. O treinador é, então, uma figura decorativa. Tudo isso muda.

À custa de uns quantos irreverentes, pouquíssimos, que têm o dom de chamar a atenção da comunicação social.  Um deles é Mourinho. Em Portugal, quem são os Mourinhos antes de tempo?

Joaquim Meirim Muito mais folclórico que Bela Guttmann, nunca consegue impor-se no futebol com títulos. Só através das frases: “Eu, aos jogadores, não peço nada: dou-lhes tudo”, “ser treinador é viver o padre, o psicólogo, o pedagogo, o político, o preparador físico, o táctico”, “o que eu terei de incomum é não pactuar com tradicionalismos”, “sou só, única e exclusivamente, um humilde, simples e modesto treinador.”

E de alguns métodos: um trabalho exaustivo na RTP Memória mostra-o a incentivar os jogadores a derrubar árvores com a força dos braços “como se fossem o vosso adversário” no parque de Monsanto ou a meter o plantel a correr atrás de galinhas “para desatar os nós dos rins”. Só mais uma, esta evidenciada num trabalho do jornal “A Bola” em 1960, quando Meirim começou a treinar o Belenenses e leu um comunicado à imprensa: “Está também assente que não será concedida a qualquer jogador autorização para contrair casamento no período decorrido entre 27 de Julho e 30 de Maio salvo em caso de força maior que espero não venha a registar-se...”

A explicação, com um sorriso malandro nos lábios: “Nesse período crucial para a realização dos nossos objectivos, os jogadores precisarão de toda a tranquilidade de espírito pelo que terei pura e simplesmente que afastar todo e qualquer foco de perturbação.”

Manuel de oliveira Reforma-se em 1991 e ainda é o segundo treinador com mais jogos de 1.ª divisão (617), só atrás de Fernando Vaz (626).
Fala-se dele como um inovador. Que o 4-4-2 exibido pelo Brasil no Mundial do México em 1970 já é praticado pela CUF, cinco anos antes, permitindo-lhe ganhar ao Benfica de Eusébio por 2-0, um dos resultados mais marcantes de uma época inesquecível em que a equipa do Barreiro acaba o campeonato em terceiro lugar, a dois pontos do FC Porto e a oito do Benfica.

Na Taça das Cidades com Feira da temporada seguinte, a CUF assusta o Milan, obrigando-o a jogo de desempate (2-0, 0-2 e 0-1) na segunda eliminatória. Com o 4-4-2, a CUF granjeia fama nacional e até internacional, destacando-se a tal vitória sobre o Benfica, em que Eusébio foi alvo de marcação individual, algo inédito no tempo daqueles senhores. Agora modernizado por pressing, a táctica de Manuel de Oliveira consistia em pressionar o Benfica à saída do seu meio-campo, o que levou o técnico encarnado, o romeno Elek Schwartz (que ganharia esse campeonato nacional, mas perderia a final da Taça dos Campeões em Milão, para o Inter), a comentar que a CUF “utilizara uma táctica de basquetebol”.

Em 1969-70, Manuel de Oliveira brilharia outra vez no Barreiro, agora pelo Barreirense, com o 3-5-2. É obra. Por isso é que Jorge Jesus, hoje detentor do título de bicampeão, diz de sua justiça. “Manuel Oliveira foi o primeiro treinador do mundo a implementar o 3-4-3, com três centrais. Tinha eu 19 anos. Lembro-me que esse sistema foi usado num jogo na Luz onde empatámos 2-2”, numa alusão ao empate do Olhanense em Lisboa, para a 3.ª jornada do campeonato.

Quinito Nascido em Setúbal, como Mourinho. Apaixonado pelo futebol, dá nas vistas nos anos 80 e 90. Ora como estratega implacável, como fica bem à vista naquela vitória do Vitória na Luz por 3-1 em Março de 1995, ora como orador.

É ele o homem de algumas frases mais cómicas do nosso contentamento: “Lixa é um menino de rua” (V. Guimarães), “vamos colocar a carne toda no assador” (Sp. Braga), “é Gomes e mais dez” (FC Porto), “o Pedro [Barbosa] tem de comer menos croissants para correr mais” (V. Guimarães) é só uma parte do the best of. É ele quem lançou Vítor Baía no FC Porto e Fernando Meira no Vitória. E é ele que se veste de gala para a final da Taça de Portugal-82, entre Sporting e Sp. Braga. “Para um jogo de gala, nada melhor que me apresentar vestido à altura da ocasião”, justificou Quinito, que entrou no Jamor de smoking branco e papilon preto. O Braga é goleado pelo Sporting de Malcolm Allison, é Quinito quem dá nas vistas.

Mário Wilson Para o fim, deixámos de propósito dois homens contemporâneos que travam batalhas linguísticas impróprias para menores de 18 anos.
Adversários como jogadores (Wilson com Sporting e Académica, Pedroto no Belenenses e Porto), transferem uma guerra de palavras para os bancos, numa altura em que o Norte e o Sul dividem-se mais que nunca, futebolisticamente falando. Wilson sempre é um homem simpático, bem-disposto, dono de frases históricas como “quem treina o Benfica, arrisca-se a ser campeão” ou “se não confiasse no Benfica, ia vender preservativos para o Rossio”.Entre um título de campeão em 1976 e uma Taça 20 anos depois, treina a selecção portuguesa e é aí que estala o verniz com Pedroto.

Em Setembro de 1979, Wilson chama nove jogadores do Porto para o particular com a Espanha, em Vigo, a oito dias da visita ao Milan, para a Taça dos Campeões. Ganha dois inimigos de peso (Pedroto e Pinto da Costa), que o anunciam como inimigo público número um na Assembleia Geral do FCP e proibem-noiinclusive de entrar nas Antas. 

José Maria Pedroto O portista é então multado pela federação portuguesa em 500 escudos por injuriar Wilson aquando desta convocatória. O pior vem depois, com o treinador do FC Porto a defender-se das acusações. “Parece-me que os dirigentes da FPF foram demasiado benevolentes e que os 30 dias de suspensão são castigo ínfimo para falta tão grave. De facto, quando afirmei que o Wilson, como treinador, era um palhaço, ao aceitar um jogo Internacional entre uma eliminatória europeia, não tive intenção de ofender os próprios palhaços. Toda a gente sabe que, normalmente, são brancos e não negros e se porventura, mais morenos, até se pintam de branco.”

Destas, não há muitas. Pedroto preferia criticar os árbitros, como naquela vez em que o FC Porto ganha 1-0 no Restelo. Golo de Sousa. Nem aqui o Zé do Boné descansa. “Fomos mais uma vez prejudicados por um árbitro, um homem do apito provinciano, que veio prestar vassalagem à capital”, a respeito de Vitorino Gonçalves, de Aveiro. Este não demorou a responder: “Provinciano? Pois sou, e com muita honra. Mas o sr. Pedroto que não se esqueça que nasceu numa aldeia perto de Lamego.”

Nas horas vagas, Pedroto também exultava a sua equipa. Como Mourinho. Era assim: “As gentes do Porto são ordeiras; se não fossem, há muitos anos teriam recorrido à violência perante os enganos dos árbitros que têm decidido da perda de muitos campeonatos e Taças de Portugal a favor de Lisboa”, “no FCP, os problemas não se levantam porque nunca chegam a existir”, “o FCP cada vez mais aparece como potência do nosso futebol, capaz de conseguir a hegemonia e é claro que isto preocupa o Benfica e o Sporting” e “não vai ser preciso nenhum milagre para que o FCP alcance finalmente o título que ambiciona há anos, porque o Norte está mais forte que nunca.” O melhor, para o fim.

“Têm de acabar com os roubos de igreja na Luz, que isto do Sul estar sempre a ser beneficiado em relação ao Norte tem o que se lhe diga.” 

O que tem que se lhe diga é isto: no tempo da outra senhora, também há Mourinhos.

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