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Ribeiro de Mello. O resgate do editor que teve a coragem de ser do contra

Ribeiro de Mello. O resgate do editor que teve a coragem de ser do contra

Diogo Vaz Pinto 10/12/2015 18:04

Mais que a homenagem, é a memória que mais justiça faz pelo editor “maldito”, Ribeiro de Mello volta ao papel de protagonista num livro que, ao contar as peripécias porque passou, lança um novo olhar sobre a década final do Estado Novo e os conturbados anos que se lhe seguiram

Pedro Piedade Marques (Luanda, 1971) fez algo de muito incaracterístico na edição portuguesa: mais que arregaçar mangas, foi a própria pele o que arregaçou, e três anos depois de iniciar as escavações, apresenta-nos “Editor Contra”, uma aprofundada investigação sobre uma figura de uma figura (desta vez, sim) incontornável da cena cultural portuguesa, resgatando-a do enxovalho da memória portuguesa. É Fernando Ribeiro de Mello na pele de editor, aquele que à frente da Afrodite desafiou o Estado Novo, a censura, e que, com o virar de esquina de Abril, prosseguiu, forçado a fazer a quadratura do círculo, procurando manter-se num rumo contrário à corrente, morrendo na penúria e, pior, caindo no olvido. Também ele editor - responsável pela Livros de Areia -, Piedade Marques foi às cinzas recuperar a imagem viva e complexa de um “maldito” que nunca se recusou a lançar a primeira pedra na tentativa de estilhaçar a boa da moralzinha portuguesa.

Como ficou o cadastro do Ribeiro de Mello enquanto editor?

Das suas edições, até 1974, oito foram oficialmente proibidas. O Anti-Dühring do Engels foi o último livro dele proibido, em 1971. No ano seguinte, A Sociedade do Espectáculo do Guy Debord não foi proibido mas teve outras limitações. Não podia fazer publicidade, os livreiros não o podiam ter na montra, etc. Havia formas de a censura dizer “não o proibimos mas...”. Havia muitas formas de limitar um editor. Não é por acaso que a sessão da banheira, que se tornou lendária, lhe granjeou fama de “maluco”. Mas não é uma sessão concebida por um maluco ou por um  exibicionista… É uma sessão feita por um editor que tinha muitas limitações a promover os seus  livros. Lança no final de 1971 quatro livros excelentes: uma das melhores edições da Peregrinação, uma edição “adulta” da Alice no País das Maravilhas, a melhor edição que se fez em Portugal do Livro de S. Cipriano, com ilustrações fantásticas do Martim Avillez, e ainda O Anti-Dühring, para provocar. E o que ele vai dizer na banheira é que o editor pequeno, sujeito à censura, só tem esta forma de publicitar as edições: “vocês só sabem dos meus livros se eu fizer uma coisa destas.” E assim aparece numa banheira na primeira página do “Diário de Lisboa”, junto à caixinha do “visado pela censura”. Se fizesse divulgação pelos meios normais, não tinha nenhum jornalista a querer falar com ele, um tipo que ainda um ano antes fora a tribunal no julgamento da Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica e tinha sido condenado.

Depois deste estudo, qual é a ideia com que ficaste do meio dos pequenos editores, ditos independentes? O que achas que mudou?

Nessa passagem para o “outro lado do espelho”, em que já não o perseguiam pelo que fazia antes, mudou bastante, em particular - e isso foi o grande problema do Ribeiro de Mello depois de 1974 - o papel do “maldito”. Maldito entre aspas porque o termo engloba uma série de definições. Objectivamente, a definição de maldito implica certas circunstâncias, que, no caso dele, se cumpriam perfeitamente: a perseguição policial, o facto de ter sido levado a tribunal, de ter continuado depois disso a publicar livros proibidos, etc. Mas terminando essa situação em que havia um constrangimento e pressão política do Estado, a definição de maldito torna-se um pouco complicada de atribuir. Um editor como o Ribeiro de Mello hoje teria de procurar motivos de provocação não meramente política, porque não há propriamente uma perseguição política. Esse foi, de resto, o problema dele. Ele tentou, depois do 25 de Abril, provocar publicando livros que eram afrontosos numa situação política que ele via aproximar-se dos princípios comunistas, quando se calhar até nem era, e publicou os livros anti-soviéticos. Publica o Mein Kampf em 1976, que, apesar de tudo, é ainda a melhor edição portuguesa desse título. Mas socialmente e politicamente, em 1976 era muito cedo ainda para esse livro e, comercialmente, a edição não teve as vendas que o Mello esperava (tendo em conta, sobretudo, os incríveis 10 mil exemplares que mandou imprimir). Depois publicou os livros anti-soviéticos, que, como o do Hitler, eram uma provocação, mas foi uma decisão astuta, uma forma de explorar a abertura na URSS depois de 1975. O Ribeiro de Mello foi realmente um grande editor também pelo momento. Não creio que haja um editor, durante o Estado Novo, que tenha seis livros consecutivamente proibidos no seu ano de arranque. É óbvio que isto ia atingir um limite, até com o risco da sua própria segurança, da sua liberdade. Ele tem um ano, o de 1967, que passa quase “escondido”. Depois vira-se para coisas comerciais: os livros infantis, aquelas antologias caras e muito bem produzidas… E quando chega o Marcelismo, em 1968, ei-lo na sua melhor fase, porque não há já aquela repressão contínua dos últimos dois anos de Salazar, nem há ainda a total liberalidade pós-1974, que o tramou. Começa toda a gente a publicar o que só ele tinha tido a coragem de publicar.

O que havia de marcadamente diferente na personalidade dele, tendo sido iniciado no meio literário em casa da Natália Correia, face aos que por lá já circulavam?

É um tipo que vem com dificuldades financeiras que derivam de um corte com a vontade paterna. Ele tinha sido voluntário na Força Aérea, era um miúdo, e devia ser levado da breca. Muito sedutor, andava sempre de olho nas miúdas que trabalhavam nas lojas lá no Porto. Filho de um homem de média, talvez alta burguesia, um advogado conhecido na praça. O Vitor Silva Tavares conta que um dia, pouco depois de o ter conhecido - na tal noite do “Teste” [leitura encenada em Lisboa em Junho de 1964, que marcou um confronto entre poetas célebres emparelhados com outros menos reconhecidos] - foi ao Porto e deu, nos Aliados, com um tipo de meia idade, muito aprumado, bem vestido, a chamar um táxi erguendo o guarda-chuva e chamando: “Rapaz!”. “Este tipo só pode ser o pai do Ribeiro de Mello”, pensou o Vitor. E de facto era. Ficaram-lhe coisas do pai, mas há também um corte. Lendo a correspondência com a Natália, e ouvindo o que me contou o João Paulo Guerra, amigo dele nessa altura, percebe-se que ele passou muito mal, passou dias sem comer, a contar os tostões… Tinha um caderninho com as tascas onde se comia mais barato. Quando vai fazer o “Teste”, ainda era o menino da Natália, que de certa forma o amadrinhou. Ela e a Ana Hatherly. Quando falei por telefone com a Ana Hatherly em 2012, dizendo-lhe que estava a tentar fazer este livro, a voz dela “iluminou-se”. “Ele era o nosso menino”, disse-me, “o meu afilhado e da Natália”. Ele era um miúdo com 22 anos, e o que há ali é um espírito em parte moldado pela Natália, mas há também uma coragem e uma vontade de provocar incríveis.

Fica claro neste teu estudo que havia um espírito de sacrifício nesta geração. O Ribeiro de Mello parece ter abdicado de todos os luxos e confortos…

No início, sim, sem dúvida. Depois, o que o perdeu foi não ter a noção de que devia ter mantido esse comedimento. Ou seja, ele habitua-se depois a uma vida muito confortável, em que começa a ter gastos incomportáveis face ao que depois vem a acontecer. Carros, boa roupa, etc. Vestia fatos de três peças, era a sua imagem de marca, todo aquele aplomb do “Dali de Lisboa”.

Como é que ganhou dinheiro dessa maneira?

Porque vendeu bastante bem. Conseguia vender os livros com uma grande margem de lucro. A “fama” do proibido era uma coisa que gerava uma enorme atracção. O Kama Sutra, por exemplo, foi posto à venda em 1965 por 200 escudos, uns 75 euros actuais. Um preço exorbitante para um livro de capa mole e sem ilustrações ou qualquer detalhe luxuoso, mas a edição vendeu que nem pãezinhos quentes. Depois de 1974, ainda teve um grande sucesso com as memórias dos 26 Anos na URSS do Chico da CUF.

Mas estamos a falar de vendas de tiragens de quantos milhares?

Para te dar um exemplo, o Livro de S. Cipriano teve umas quatro edições, de cerca de dois mil exemplares ou mais, cada uma. Para uma pequena editora, é algo de monta. Ele era um editor sem sede, que trabalhava em casa, muitas vezes trabalhava nas casas dos outros, dos tradutores, ilustradores. Fazia quatro, cinco livros por ano. E com uma tal expectativa de venda que, na melhor fase, entre 1969 e 1974, em que os livros dele vendiam muito, o distribuidor, a Quadrante, pagava-lhe toda a edição à cabeça. E o preço de venda era alto. O ferrete do “proibido” atraía muitas vendas, sobretudo em livros que se sabia irem ser retirados das livrarias em breve, por causa a parte sexual e de alguma provocação ao sistema. É claro que teve ajudas da família também. Acredito que, com a normalização da vida dele, com o nascimento da filha em 1965, reaproximou-se do pai. Quando teve um acidente de viação muito grave, em Março de 1970, é o pai que o leva para o Hospital da Cruz Vermelha. Ficou em coma, e é um acidente que terá sido determinante na saúde dele daí em diante. É, pois, por intermédio do pai que ele vai para o melhor hospital do país, onde Salazar tinha estado em 1968. Há aquele episódio quase cómico, bem à Ribeiro de Mello: ele está ainda em coma, e uma enfermeira, que tinha entrado no quarto dele, deixou cair qualquer coisa, e quando se baixa sente, de repente, levantar-se-lhe a saia. Era o dedo mindinho erecto do Mello.

A escolha do Ribeiro de Mello não é só um interesse pelo personagem. Reconheces que é uma figura ausente, alguém deslocado da órbita…

Das referências actuais, sim. E, para já, porque estava completamente esquecido.

Porque é que achas que houve esse esquecimento? Achas que é simplesmente negligência ou achas que os editores que lhe sucederam quiseram esconder a sua influência?

Penso que foi algo inevitável, algo que decorre do cavalgar da novidade, do tempo. Ele também não foi muito amigo dele próprio. Passou por uma fase em que a sua imagem foi muito afectada pelas escolhas editoriais que fez, um período em que não esteve bem. No final da vida, tentou voltar àquela imagem do passado, das boas antologias, mas já era tarde. É óbvio que também houve coisas que, objectivamente, acabaram com a imagem dele. A imagem do editor de livros prestigiantes, alguns luxuosos, é destruída com aquela questão da distribuidora, a Expresso (que pertencia à seguradora Império, nacionalizada em Março de 1975), dada a desintervenção do Estado em 1979, por ordem do governo de Mota Pinto. Os trabalhadores da Expresso, com salários em atraso durante anos, apossam-se dos livros que estavam armazenados e vão vendê-los ao desbarato. Os livreiros, que sabiam que podiam contar com os livros dele, vêem na rua os livros da Afrodite vendidos por tuta e meia. Isso foi um grande golpe na imagem dele. É, ainda assim, um esquecimento que não deixa de ser algo estranho, considerando a figura e o que fez até 1974. Morreu há 23 anos e continua sem haver o menor interesse em dar a conhecer o seu trabalho. Acho que ele representou um pouco da realidade e da ilusão do trabalho de editor. A ilusão de que se pode chegar aos píncaros e manter-se lá.

Porque é achas que isso faz parte da dinâmica editorial?

Porque é uma actividade bastante desgastante, sobretudo para os editores que tiveram atritos muito dramáticos com a censura e os tribunais Há um desgaste. Interessa-me esse tipo de editores que acabaram esquecidos. Interessou-me tentar montar o “puzzle Afrodite”, com o pouco que havia, que fui encontrando. Por sorte, uma pessoa que muito sabia dele estava ainda viva, o Vitor Silva Tavares.

Actualmente, que papel poderia ter um editor como ele?

Teria muitas dificuldades, sobretudo neste ambiente muito “politicamente correcto”, em que ninguém está publicamente contra nada nem ninguém. Era um editor que personalizava muito os livros. Não era propriamente o tipo de editor literário que, por exemplo, o Pacheco foi. O Ribeiro de Mello não descobriu nenhum talento literário. Ele é que era a verdadeira estrela dos seus livros. Quando publica a Natália, esta já era uma autora reputada, o Ary dos Santos também, o Armando Silva Carvalho também. Ele antecipa a actual obsessão com o marketing, faz coisas que mais nenhum editor se atrevia a fazer: os lançamentos da Antologia do Humor Português, em 1969, a sessão da banheira em 1971, precedida da campanha de promoção do S. Cipriano, em que anda por Lisboa a oferecer livros rodeado de “diabos”, o lançamento d’O Manual dos Inquisidores em 1972, com aquela encenação na Avenida da Liberdade, com os chicotes, os monges vestidos de preto.

Talvez pelos constrangimentos claros à liberdade, parece que naquela geração havia uma noção da importância da cultura.

Absolutamente, uma importância política. E havia também essa noção do lado do regime. Para não falar dos cruzamentos: o Goulart Nogueira era um tipo próximo do regime mas que convivia no Café Gelo. Dos dois lados havia essa noção. E é isso que permite que um tipo como o Ribeiro de Mello, que não era um tipo propriamente muito culto, mas que, rodeando-se das pessoas certas, conseguiu fazer uma carreira só como editor. Isso é que me parece que hoje seria muito difícil.

E parece-te que há sequer uma ideia do que seja a cultura?

Não sei, mas pergunto-me, por exemplo, o que é que faz a DGLB. Eu tenho-os contactado para fazer sempre a mesma pergunta: “têm algum programa de apoio à edição, para pequenos editores, na área de não-ficção”? A resposta é sempre a mesma: não há plano de apoio previsto. Mas quando há uma feira do livro na Colômbia ou no México, há dinheiro para ajudar a levar autores lá...

Que autores?

Autores - alguns publicados por grandes grupos editoriais - que, pelos vistos, precisam, indirectamente, do apoio do Estado para viajarem e representarem Portugal. Nada contra esse apoio estatal, mas que seja então mais alargado e não apenas para “autores” e para “viagens”. Um exemplo: o Estado português, na senda daquela vaga de nacionalizações, tentou criar nos anos 70 uma super-distribuidora, uma empresa pública que fornecesse um serviço mínimo de distribuição, sobretudo para auxiliar os editores que não conseguiam ser distribuídos pelas distribuidoras comerciais. Parece-me uma iniciativa cheia de mérito. Um Estado bem organizado, que se diz defensor da cultura, podia fazer uma coisa dessas. Os problemas da gestão da coisa pública em Portugal, nessa altura, deixaram o projecto pelo caminho.

Tu referes-te ao Ribeiro de Mello como um dos protagonistas de uma era mítica...

Mítica não sei, mas uma “idade de ouro” da edição, sem dúvida. Uns tipos que publicavam contando não apenas com a necessidade de vender para sobreviverem, mas com a repressão no país. Um conjunto de personagens que não se limitavam a contornar essa repressão mas que actuavam, que de certo modo eram activistas. Hoje as principais figuras da cultura parecem ser mais os autores, ficcionistas, pessoas que podem influenciar pelas ideias mas que não são propriamente muito polémicas ou interventivas. Perdeu-se essa quase lascívia de ser “contra” que estes tipos tinham, actuando através dos meios à sua disposição - os folhetos, as polémicas. Tinham uma vida, não só nos cafés, que era uma vida de confronto, a cultura era um meio de confronto. O Pacheco então é um exemplo absolutamente claro disso. Um tipo que até sacrificou um certo bem-estar que podia ter mantido como funcionário público, sacrificou-o por essa necessidade de apontar, de dizer que aquilo que está ali no passeio é uma bosta. Não há outra forma, não há eufemismo que contorne essa evidência: uma bosta é uma bosta. É importante apontá-la para que os outros não a pisem. Os actuais “agentes” da cultura do livro vivem acomodados a um sistema mercantil controlado por dois, três grupos. Um autor da Porto Editora não se mete numa polémica com outro autor da mesma casa. Nem vai dizer mal de uma chancela que seja do mesmo grupo. Corre um risco se o fizer. Como sublinha o Vitor Silva Tavares no depoimento dele, aquelas eram pessoas que tu encontravas nos cafés. Estavam ali, podias ouvi-las, participar, intervir na conversa. Havia uma boca, um golpe, um insulto entre convivas. Era muito mais orgânico e hoje não é. Hoje é tudo muito mais mediatizado. Onde vês os Valter Hugo Mães, os Pedros Mexias, que também já começa a ser…

É para citar esses nomes?

Eu estou a referi-los no sentido de dar exemplos de autores algo consensuais. Quem diz Valter Hugo Mãe diz José Luís Peixoto. O Mexia parece-me ser uma figura curiosa porque, não estando propriamente num grande grupo reúne um grande consenso, está em todo o lado, mediaticamente. Esse tipo de pessoas, onde é que tu os vês verdadeiramente? Vê-los nos ubíquos festivais literários. Agora há um festival em cada terrinha. Lá estão eles sentados. E vê-los na televisão. Está tudo muito mediatizado. É uma coisa muito menos orgânica do que o que acontecia então. E depois, claro, havia também aquele aspecto do riso, a capacidade de se rir de si e do outro, de gozar… Mas indo ao cerne da tua pergunta, acho que se criou uma cultura de respeitinho, em que o marketing serve para definir os nomes, enquadrar os autores, fazer deles “marcas”. Portanto, não se pode sujar a marca, o autor não se pode comportar assim, tem de se comportar de uma certa maneira. E parece-me que a esse tipo de autores nunca os vemos a assumirem uma atitude verdadeiramente espontânea.

Se em Espanha, a memória foi cancelada para impedir um ajuste de contas com o passado que pusesse em causa a harmonia no futuro, em Portugal, pelo contrário, sem a necessidade de um acto oficial que estabelecesse um pacto nesse sentido, parece que as próprias pessoas perceberam o perigo de avaliar as suas memórias. Parece que a um certo nível isso acabou por impedir a memória de ter o seu papel, servir até para construir uma história da nossa evolução cultural.

Sim, mesmo ao nível da edição. Dou-te um exemplo: dois dos livros mais notáveis que li na preparação disto foram um diário e umas memórias. Um foi agora reeditado - o Não Percas a Rosa, da Natália Correia. Que, apesar de ser o seu diário do PREC, só foi publicado em 1978, quando já era seguro - porque as opiniões dela são muito contrárias às forças políticas então dominantes. E o outro são as memórias do PREC do Paradela de Abreu, um tipo também completamente esquecido hoje e que foi o editor da Arcádia que publicou o Portugal e o Futuro. Livro cuja história da publicação, aliás, dava um filme impressionante. O facto da Natália ter receio de publicar antes de 1978, ou do Paradela ter publicado em 1983, dá a noção de que as pessoas queriam varrer as memórias do PREC… Houve em Portugal essa necessidade de apagar rapidamente essas memórias para ir à vidinha. Esquecermos rapidamente para fazermos a vidinha. E o apagamento de memória desde o final do PREC creio que teve alguns efeitos na própria produção cultural. Agora voltou um pouco esta tendência de regressar ao passado, esta coisa dos retornados… Durante anos ninguém falava nos retornados, como se não existissem. Eu nasci em Angola, e os meus pais foram retornados. Mas sim, muito do regresso que se faz agora ao passado está misturado já com a cultura da nostalgia, com o comércio da nostalgia - que é um grande comércio como se sabe, o do vintage, etc. É algo inevitável num país que sofre por não ter estado no centro dos grandes acontecimentos da história europeia. Um país que não sofreu uma invasão, nem sofreu directamente com uma das grandes guerras. Atravessámos o século XX como virgens incólumes… A Espanha, a França, a Itália, a Bélgica, a Holanda, a Inglaterra… Varres a Europa ocidental toda, e todos eles sofreram uma guerra civil, uma invasão, uma ocupação ou foram bombardeados. Há algo nisto que se reflecte na psique de um país que tende a viver um pouco à margem, um país em que as coisas se passam mas que prefere não falar nisso nos 10 ou 20 anos seguintes. Se calhar foi um pouco por isso também que o Ribeiro de Mello foi varrido da memória. Associaram-no demais, fixaram-no ao período marcelista, ou àquelas edições meio doidas do PREC, anti-soviéticas e anti-comunistas, e isso colou. Ninguém mais quis pegar nele.

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