26/7/17
 
 
Raquel Carrilho 09/12/2015
Raquel Carrilho
Cultura

raquel.carrilho@newsplex.pt

Um país sem jornais não é livre

No dia 30 de Novembro foram despedidas mais de cem pessoas dos jornais i e Sol. Pessoas com quem trabalhei ao longo dos últimos nove anos, primeiro no Sol e depois no i. Entrei no Sol um mês antes de o primeiro número chegar às bancas. Lembro-me da primeira remessa de jornais ter chegado ao pé de nós, ainda morna das rotativas.

Ao longo destes anos ali conheci pessoas que se tornaram profissionais que admiro e, sobretudo, amigos que me aquecem o coração. Quando, em Junho, me mudei para o i, ainda que estivesse apenas a mudar para a sala ao lado, muitas destas pessoas choraram agarradas a mim. Eu chorei. Era, de alguma forma, o encerrar de um ciclo. Mas no i, neste ainda breve período, descobri algumas das pessoas mais trabalhadoras e talentosas que já conheci, e um novo ânimo.

No dia 30, no i e no Sol, vi irem embora amigos, profissionais que admiro. Uns não tiveram opção, outros tiveram. Em comum temos o facto de estarmos todos cansados de sermos sacos de porrada.

Acha que estou a dramatizar? No dia seguinte a estes despedimentos, com o corpo moído e o espírito arrasado, passei os olhos pelas redes sociais. Qual não foi o meu espanto quando percebi que havia pessoas a congratularem-se pelo possível encerramento de dois jornais e o despedimento de mais de uma centena de trabalhadores. Li que não se perdia nada se estes dois títulos fechassem porque não concordavam com a linha editorial ou não gostavam deste ou daquele profissional que ali trabalhava. Gostava de saber quantas destas pessoas efectivamente foram às bancas comprar estes jornais. Ou qualquer outro jornal. Se conhecem o trabalho que ali se tem desenvolvido. E depois gostava de saber se estas pessoas têm noção do que significa o encerramento de jornais para a liberdade de um país e do seu povo. Se as pessoas comprassem e lessem jornais, o mercado seria melhor e mais exigente, em vez de lutar apenas para se manter à tona de água.

O encerramento de jornais ou os despedimentos de uma quantidade absurda de profissionais a eles ligados é responsabilidade de todos nós, devia pesar em todos nós. E que ninguém tenha dúvidas de que um país com menos jornais é um país onde se pensa menos. E, no limite, é um país menos livre. 

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

Não tem utilizador? Clique aqui para registar

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×