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Pedro Arroja. O economista que acredita em Deus porque a mãe não sabia fazer pénis

Pedro Arroja. O economista que acredita em Deus porque a mãe não sabia fazer pénis

Global Imagens João madeira 09/12/2015 11:08

Acha que as deputadas do BE são “esganiçadas”, elogia Salazar e pensa que os negros trabalham menos porque gostam de sexo. Chama-se Pedro Arroja e passa no Porto Canal.

A relação dos crentes com Deus está repleta de nuances espirituais. Os franciscanos acreditam que os laços com o divino se estreitam com a abnegação material. Os jesuítas entendem que para chegar ao criador é necessário ajudar os mais frágeis no caminho da fé. Pedro Arroja acha que Deus existe porque a mãe não sabia fazer pénis.

Comentador regular no Porto Canal, Arroja saltou para ribalta nas últimas semanas com visões pouco comuns sobre o papel da mulher, a adopção gay e a própria existência de Deus. A polémica nasceu há três semanas, quando chamou “esganiçadas” às deputadas do BE, e aprofundou-se há duas, quando comentou a adopção homossexual e fez uma longa dissertação teológica sobre o tema.

Para sustentar que, com a adopção gay, os humanos estavam a interferir indevidamente no domínio do sagrado, Arroja socorreu-se do instrumento argumentativo mais à mão. “Eu sou um homem. Tenho órgãos genitais de homem: pénis, testículos, etc. Não fui eu que os fiz. A minha mãe já faleceu, mas posso facilmente imaginar-me a perguntar à minha mãe: ‘Olha, tu sabes fazer pénis?’. E estou a ouvir a resposta, naquele jeito muito peculiar: ‘Oh filho, eu sei lá fazer uma coisa destas’. Ela fez quatro. Mas não sabe fazer pénis”. Então quem projectou os órgãos do economista? “Foi Deus”.

O falo divino de Arroja mostra assim uma verdade irrefutável: para Deus, um homem é um homem, uma mulher é uma mulher, e não há confusões. Os dois complementam-se. “O homem dá à mulher direcção, indica-lhe um caminho. Uma mulher não é capaz de definir um caminho. Sem um homem, fica sem saber o que fazer. A mulher dá ao homem equilíbrio, moderação, porque um homem sozinho só faz asneiras, como beber em excesso e conduzir o carro a 200 à hora”. As crianças, se pudessem escolher, optariam sempre por um casal heterossexual para serem adoptadas. É essa a ordem natural das coisas, o caminho de uma “sociedade viável”.

Os comentários fizeram crescer a polémica. Se as “esganiçadas” valeram um protesto do BE e uma queixa à Entidade Reguladora para a Comunicação Social, os comentários sobre o papel da mulher mereceram queixas de vários espectadores do Porto Canal. Adjectivos como misógino ou homofóbico são o mais simpático que dele se diz. Esta semana, confrontado com as queixas, Arroja defendeu-se: “Ainda os meus filhos andavam de fraldas e eu já era insultado pelos comentários que fazia”.

Polémico desde os anos 90 Dizer que Arroja é um economista pouco convencional é minimizá-lo. Ao seu lado, o provocador João César das Neves parece um menino de coro. As polémicas recentes trouxeram-no para o foco das redes sociais, mas as ideias arrojadas já dão que falar há décadas. Nascido em Lisboa, filho de um contabilista e de uma modista, está prestes a completar 62 anos. Estudou na Escola Comercial Veiga Beirão e depois rumou para o Porto, onde se licenciou em economia e conheceu a mulher, Lina. Fez depois o mestrado e o doutoramento no Canadá, na universidade de Otava.

Quando regressou a Portugal, já na década de 80, ainda deu aulas na Universidade do Porto, mas foi sol de pouca dura. Queixou-se mais tarde de não ser bem recebido pela “ortodoxia” política da faculdade e saiu para instituições de ensino privadas, ao mesmo tempo que criou uma sociedade de gestão de activos. Ganhou essa aposta. As opções certeiras em bolsa deram-lhe dinheiro e as intervenções públicas incendiárias deram-lhe fama.

“Deslocava-se num Mercedes desportivo e a sede da empresa era num palacete da Foz, uma das zonas mais nobres do Porto. Eram sinais de que à época os negócios lhe estavam a correr bem”, recorda ao i um profissional do sector financeiro que contactou com Arroja.

Na altura, fez furor ao calcular que o Porto era prejudicado face a Lisboa nas verbas que recebia. A falta de ‘protocolo’ nas entrevistas e debates em que participava tornaram-no uma celebridade. Passou a escrever e a comentar no “Jornal de Notícias”, na “Vida Económica”, na TSF.

Uma longa entrevista à “Grande Reportagem” no início dos anos 90, à jornalista Fernanda Câncio, explanou o seu pensamento. Em termos ideológicos, Arroja pode considerar-se um economista liberal, mas com mais condimento do que o habitual. Se os liberais clássicos defendem a saída do Estado da economia, Arroja defende a saída do Estado de tudo o que mexa. Na entrevista, defendeu a privatização da polícia, a privatização dos tribunais e o fim da legislação que impede o trabalho infantil. “Se a criança vai ou não trabalhar, é com os pais”.

Acabaria com o ensino obrigatório e defendeu a mercantilização das eleições, com a livre compra e venda de votos. “É precisamente a pensar nos pobres que eu punha a questão da transacção do voto. Se uma pessoa tem direito a um voto mas não quer usá-lo, tem de o deitar fora. Noutro sistema, poderá vendê-lo a alguém que queira votar várias vezes. Já viu quantos pobrezinhos ficavam beneficiados?”

Apesar de se manifestar adepto da economia americana, encontrava elementos menos conseguidos nessa sociedade. Na altura, os motins das populações mais pobres de Los Angeles davam que falar. A explicação para os motins, segundo Arroja, era simples. “Tem a ver com o problema negro. Que é basicamente um problema de família. Os negros não são capazes de constituir família como tendência geral, como nós constituímos. Têm muitas mulheres. E a pobreza americana, hoje, como nos outros países desenvolvidos, é sobretudo a mulher sozinha com filhos. E a maior parte das famílias negras acabam assim”.

O economista dava o exemplo do continente africano. “Vá a África e veja porque é que eles não trabalham. Gostam muito de sexo; nós também gostamos, mas se estivéssemos o dia todo na cama não fazíamos mais nada”.

O regresso à ribalta Arroja voltou a ganhar protagonismo na década passada. Na época dourada dos blogues, apareceu a escrever no Blasfémias e no Portugal Contemporâneo – neste último ainda hoje aparece como redactor. Novamente o apetite dos jornalistas se aguçou. Em entrevista à “Visão”, manifesta-se descontente com a democracia e declara-se adepto de um sistema mais musculado. “O regime democrático, apesar dos dinheiros que temos vindo a receber da UE, não conseguiu progresso nenhum. Digo o que está em evidência: que o nosso país prosperou sempre mais com regimes de autoridade. O crescimento médio durante o tempo de Salazar foi extraordinário”. O chefe de governo é visto como alguém que “pôs isto na ordem” depois dos dislates da primeira República.

Apesar das recentes dissertações religiosas, a convicção teve oscilações. À “Grande Reportagem”, chegou a comparar a Igreja Católica a um espécie de máfia. Na entrevista da “Visão”, já admitia ser “um pouco” religioso.

Academicamente, Pedro Arroja não tem relevância – os poucos artigos científicos publicados pelo economista são já antigos. Hoje está no Instituto Superior de Estudos Financeiros e Fiscais, em Gaia, e mantém a empresa de gestão de patrimónios. Até há poucas semanas, parecia distanciado das polémicas. Apostou no seu projecto mais emblemático, que revela a faceta menos conhecida do economista. É presidente da associação ‘Um Lugar para o Joãozinho’ e tem-se batido ao longo de anos pela construção de uma nova nova ala pediátrica no Hospital de São João. Esta segunda-feira, a ‘guerra’ com o Bloco de Esquerda chegou a este projecto: “A obra não é feita porque o Estado não tem dinheiro. Mas tem dinheiro para as reformas dos deputados”. A controvérsia segue dentro de momentos, num Porto Canal perto de si.

joao.madeira@sol.pt

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