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Ana Moura. “Queria seguir um caminho e havia pessoas que não acreditavam”
“Moura” foi lançado ontem, mas a fadista já está a trabalhar para o palco. A digressão arranca em 2016 e tem passagens pelo Olympia, em Paris, e o Carnegie Hall, em Nova Iorque

Ana Moura. “Queria seguir um caminho e havia pessoas que não acreditavam”

“Moura” foi lançado ontem, mas a fadista já está a trabalhar para o palco. A digressão arranca em 2016 e tem passagens pelo Olympia, em Paris, e o Carnegie Hall, em Nova Iorque Frederico Martins Ana Tomás 28/11/2015 19:24

No novo disco, acabado de lançar, a fadista volta a fazer do fado uma forma de abraçar um universo musical com vários tons e linguagens.

Ana Moura trouxe para o seu novo trabalho parceiros habituais e muitos que se estreiam na sua voz, como Samuel Úria, Jorge Cruz, Edu Mundo ou Carlos Tê. Canta um poema de José Eduardo Agualusa, precisamente o tema “Moura”, que dá título ao disco. Quis ir além do que tinha feito em “Desfado”, que assume como um risco, mas um marco de liberdade e segurança. Em “Moura” trabalhou novamente o produtor Larry Klein, mas traçou mais pontes para juntar sonoridades de um mundo maior. Há fado tradicional, claro, porque como lhe disse um dia Beatriz da Conceição, “Ana, tu és fadista”.

Muitas vezes, os títulos dos discos não têm grande história, mas este em parte tem o seu nome...
Tenho dois temas que têm o nome “Moura”: um deles é o “Moura Encantada”, da Manuela de Freitas, e outro é o “Moura”, do José Eduardo Agualusa. Ambos foram escritos como uma descrição daquilo que sou. A Manuela de Freitas tentou relacionar as lendas da moura encantada com a minha vida, a moura que vive do canto e faz as pessoas felizes com isso, mas que depois chega ao quarto do hotel e fica sozinha, ou chega a casa e esta ainda não tem vida própria. O José Eduardo Agualusa já tem outro ponto de vista. Para ele, “moura” significa mistura, que é aquilo que sou e este disco é. Este disco tem uma mistura que me representa totalmente neste momento. Tem fado, mas depois também tem outros universos musicais que cruzo com o fado. 

É o trabalho que melhor a representa? 
Sim, por eu já ser mais conhecedora daquilo que melhor me representa e me define. Nos primeiros discos não tinha experiência, delegava muito, confiava muito nas pessoas com quem trabalhava. E hoje as minhas opiniões estão muito mais presentes.

Foi isso que aconteceu na escolha dos poemas e das músicas?
Toda a selecção passou por mim. Alguns são repetentes, outros não. Os que não são, convidei-os, à excepção do Carlos Tê. É capaz de ter sido o primeiro letrista que cantei porque era pequenina e cantava as músicas do Rui Veloso. Aqui foi uma coincidência porque foram os Clã que gravaram esta música, mas não foi editada, e mostraram-me e acharam que eu ia gostar. Foi paixão à primeira escuta. O resto partiu de convites meus. 

Houve intervenção sua nas composições? Debateram ideias?
Não, por acaso é engraçado: eles fizeram as músicas e enviaram-me um pequeno texto explicativo e foi muito bonito porque assim percebi o que os levou a escrever daquela forma para mim. O Miguel Araújo, por exemplo, foi assistir a um concerto meu, reparou que danço muito e lembrou-se que no século xix o fado era dançado. E decidiu escrever a sua música com base nisso, pegando também numa frase do “Fado Falado” – a frase “o fado canta e chora” – e a partir dela desenvolver que também se pode dançar. 

Como é descobrir-se nas palavras e nas composições dos outros?
Identifico-me perfeitamente com a letra da Manuela de Freitas, estando numa altura em que estou a aprender a lidar melhor com a minha condição, digamos. A Manuela é minha amiga e achava que eu devia ter mais tempo para a minha vida pessoal. Mas a determinada altura, as pessoas têm de aceitar a sua própria vida, não têm de ter uma vida igual a toda a gente. Esta é a minha vida, aceitei-a e estou feliz com ela. Há sempre escolhas a fazer, é inevitável. Não podemos ter tudo, não podemos fazer tudo. E neste momento é esta a escolha que faço.

Porque é o fado uma ponte tão boa para juntar outras sonoridades? 
Realmente é verdade, e há muitos exemplos bem-sucedidos. Acho que, musicalmente, casa bem com outros géneros.

Seja com os Rolling Stones, Prince ou em festivais de jazz.
É verdade. E já cantei inclusivamente em hebraico, situações com vários cantores dos países que visito e em que canto nas línguas locais. São experiências que adoro fazer. 

Voltando ao novo disco e ao facto de ter tido uma maior intervenção no processo, o que sente que aprendeu enquanto artista com este trabalho? 
Estou muito mais feliz por poder fazer as coisas como as sinto. Por exemplo, a dada a altura, o produtor do disco, o Larry Klein, sentia uma das músicas com outro andamento bastante mais relaxado. E eu sentia-a muito mais ritmada. Ele acelerou, acelerou, mas ainda não era aquele tempo que eu queria, e entretanto mostrei-lhe aquele que achava que era o beat certo, que não tinha nada a ver, e a música teve de viajar para um universo distante. Faz--me sentir que as músicas são mais minhas, têm mais a ver com o que tiro das letras e das melodias.

Quando descobriu essa segurança e essa confiança maiores para avançar?
Foi no “Desfado”. Até aí trabalhava sempre com os mesmos músicos na estrada, tinha gravado sempre com o mesmo produtor e decidi fazer um disco completamente diferente, que era bastante arriscado. Pensei: “Vou mudar tudo. Preciso de fazer esta alteração, sou capaz e não me sinto dependente de nada.” E quis cortar tudo. Foi tal a liberdade que me deu uma segurança incrível. E trabalhei com um produtor que quer saber mesmo qual é a minha opinião, que a valoriza. Senti uma segurança enorme.

Aos encontros criativos que já teve junta agora outros, como o que protagoniza com Omara Portuondo. Tem outros que desejava que acontecessem? 
Prefiro deixar as coisas fluírem, nesse sentido. Se me perguntarem com quem gostava de gravar, tenho sempre nomes para dizer. Por exemplo, gostava muito de gravar com o Stevie Wonder. Desde sempre que o adoro. Há imensos. Até gostava de fazer qualquer coisa com a FKA Twigs… Com o Tom Waits adorava, e sei que ele gosta de fado.

O facto de ir explorando novos caminhos nos seus trabalhos também a faz estar atenta a outro género de artistas?
Sim, sem dúvida. Por exemplo, neste disco experimentamos uma coisa diferente com a guitarra portuguesa. Amplificamo--la com um amplificador de guitarra eléctrica e acaba por ficar como que em loop em algumas músicas. E ficamos a pensar como é que depois o iríamos fazer em palco. E porque não usar uma loop station? Ao irmos a outros concertos, de outros géneros, também tiramos estas ideias que acabam por ser loucas para quem está não está habituado a ver uma guitarra portuguesa e uma loop station... Não sei se vai ser muito bem aceite, mas porque não? Adoro essas experiências. 

Na quinta-feira morreu uma das grandes referências do fado, Beatriz da Conceição, que era também uma grande influência para si. Ela dava-lhe muitos conselhos?
A Bia era uma pessoa muito particular. Não era uma pessoa fácil mas, quando gostava de alguém, era incrível. Senti muito a perda dela. Andei um bocadinho afastada porque andava nas minhas tournées e não sabia que ela estava internada. Foi um choque, até porque tínhamos uma ligação muito grande e soube que, no hospital, ela disse que gostava de me ver. Mas só soube agora. Dava-me muitos conselhos, ensinava-me muitas coisas. O simples facto de ela dizer que não gostava daquilo já era motivo para eu dizer “OK, também não gosto”. Ela tinha uma personalidade tão forte e extraordinária que encantava as pessoas. Quando ela estava, não havia mais nada. E a cantar... Tenho muitas histórias com ela de rir, de chorar. 

Como via ela estas pontes entre o fado e outras sonoridades? Era crítica ou aceitava bem?
Era mais crítica, mas eu não estou aqui a tentar fazer nada com o fado, estou a fazer um caminho que é o meu e ela percebia isso, e dizia: “Ana, tu és fadista”.

Se hoje uma jovem fadista lhe pedisse conselhos, o que diria?
Primeiro, que fizessem a escola das casas de fado, por aquilo que a Bia me ensinou, tal como a Maria da Fé – até mesmo pelas histórias que nos contam nas casas de fado e passam de geração para geração. Toda essa aprendizagem é fundamental. Aconselharia vivamente a começar por aí, a treinar os fados, a perceber o que é o fado tradicional, e depois, a partir daí, a procurarem um cunho próprio, um caminho e uma identidade. 

Como descreveria esta fase da sua vida?
Estou extremamente feliz. O meu álbum anterior foi muito arriscado e não contava que fosse tão bem recebido, ainda continua nos tops, o que é incrível. E este saiu ontem e já é disco de ouro. Estou feliz porque queria seguir um caminho e havia pessoas que não acreditavam, mas fui persistente e consegui. E isso traz-me muita felicidade e uma realização enorme.

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