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Consumo de sal. Guerra ao inimigo número um do coração dos portugueses
A redução de 1,2 gramas diários do consumo de sal entre 2009 e 2013 reduziu a mortalidade por AVC 12%

Consumo de sal. Guerra ao inimigo número um do coração dos portugueses

A redução de 1,2 gramas diários do consumo de sal entre 2009 e 2013 reduziu a mortalidade por AVC 12% Melissa Lopes 27/11/2015 17:50

A Sociedade Portuguesa de Hipertensão quer combater o consumo exagerado de sal com rótulos baseados nas cores do semáforo.

É certo e sabido que os portugueses consomem demasiado sal. Trata-se de uma realidade que, por muito que nos custe, se esconde num simples prato de sopa servido em qualquer restaurante português. Os resultados preliminares de um estudo da Universidade do Porto mostram que uma refeição individual de sopa e prato principal num restaurante de comida tipicamente portuguesa tem 75% da dose diária de sal recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Ou seja, apenas numa refeição, são logo consumidos 3,8 dos 5 gramas recomendados.

Sabendo à partida que mudar mentalidades e comportamentos não é fácil, a SPH alerta para a “necessidade de um semáforo de cores para os alimentos embalados” que indique o seu teor de sal (vermelho para os alimentos com muito sal, amarelo com sal moderado e verde com pouco sal). “Seria um importante passo no combate ao consumo de sal, que iria ajudar muito as famílias portuguesas a escolherem os melhores alimentos”, afirma o cardiologista e presidente da SPH, Mesquita Bastos.

Para a bastonária da Ordem dos Nutricionistas, Alexandra Bento, isto só seria uma boa medida se fosse acompanhado de uma campanha de informação e educação alimentar. 

O cenário do consumo exagerado de sal não seria problemático se não houvesse uma relação directa entre o seu consumo e o desenvolvimento de hipertensão arterial, e com isso de doenças cardiovasculares. De acordo com dados de 2013, quase metade (42%) dos portugueses sofriam de tensão arterial alta, mas esse valor pode ser na realidade muito superior, uma vez que se trata de uma doença silenciosa, e por isso é natural que esteja subdiagnosticada. 

E o problema é que muitas vezes comemos alimentos salgados que, à partida, não nos parecem ter grandes quantidades de sal por já estarmos habituados a tal. O predidente da SPH explica que, tal como o açúcar (outro inimigo dos portugueses), a grande maioria dos alimentos embalados contém sódio, daí que seja tão importante saber interpretar os rótulos. "Devemos preferir os alimentos que apresentam até 0,3 gramas de sal por 100 gramas de produto e evitar os alimentos que apresentam mais de 1,5 gramas de sal por 100 gramas de produto. "Existem certos alimentos que tendencialmente têm excesso de sódio, pelo que é necessário uma maior atenção e alguma limitação no seu consumo", refere o professor, enunciando alguns exemplos: carnes processadas (salsichas, hambúrgueres, rissóis, folhados, enchidos), algumas conservas (milho, ervilha, atum, sardinha), molhos embalados, caldos concentrados, batatas-fritas de pacote, bacalhau ("é importante que seja bem demolhado"), alguns lacticínios (manteigas com sal, queijos curados), refrigerantes, (onde o sódio pode ser adicionado a sumos como conservante), refeições pré-cozinhadas e snacks.

É por haver uma relação tão directa entre o sal e as doenças coronárias, mas também com o desenvolvimento do cancro do estomâgo, que a grande batalha da Sociedade Portuguesa de Hipertensão (SPH), que hoje realiza o segundo Fórum do Sal, se centra em fazer diminuir o consumo diário de sal até 2020. Entre 2009 e 2013, o consumo diário de sal baixou dos 11,4 gramas para os 10,2 gramas diários. Pode parecer pouco, mas estima-se que só essa redução tenha feito diminuir 12% a mortalidade por acidente vascular cerebral (AVC). 

Além da legislação do semáforo nutricional nas embalagens, Mesquita Bastos pretende implementar, a longo prazo, uma política de educação nas escolas. “À semelhança do que aconteceu com a reciclagem, gostaríamos que fossem também os mais novos a incentivar os mais velhos a consumir menos sal”, explica o responsável, que quer ainda fazer uma “reformulação das dietas nas cantinas das escolas”. Segundo um outro estudo, também da Universidade do Porto, 85% dos jovens das escolas de Braga entre os 13 e os 17 anos consomem sal a mais, havendo mesmo quem chegue a atingir os 22 gramas por dia.

A curto prazo, a Sociedade Portuguesa de Hipertensão quer intervir junto dos produtores para que passem a adicionar menos sal na confecção dos produtos, centralizando--se a estratégia nos alimentos mais consumidos pelos portugueses. Estabelecer uma política de incentivos a produtores e vendedores para que reduzam o teor de sal e instaurar uma política de reconversão de impostos para a luta contra o sal, taxando mais os alimentos mais prejudiciais e menos os melhores, é também um dos objectivos propostos pela SPH.

Os portugueses estão habituados a consumir grandes quantidades de sal muito devido à cultura gastronómica fortemente enraizada. Na sondagem “Percepção da População sobre Hipertensão”, apresentado pela SPH em Fevereiro de 2015, verificou-se que existe uma grande resistência à mudança, com apenas um quarto dos portugueses a mudar os seus hábitos de consumo de sal. Para Mesquita Bastos, “independentemente de todas as medidas que possam vir a ser aplicadas, é importante que os portugueses tomem a iniciativa de reduzir o sal na sua alimentação”.

Até porque, da mesma forma que o nosso paladar está habituado ao sal, facilmente se habituaria a novos sabores. “Ao fim de pouco tempo as pessoas já estarão acostumadas a poucas quantidades de sal e depois até irão apreciar melhor o sabor natural dos alimentos”, antevê o especialista, que compara o gosto pelo sal com o vício do álcool ou do tabaco. “Não é inato, mas sim adquirido”, conclui.

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