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Pedro Batista. Quantas cores tem um sonho?

Pedro Batista. Quantas cores tem um sonho?

Raquel Carrilho 20/11/2015 23:12

Começou a andar de skate aos nove anos, longe de imaginar que seriam esses passeios que o fariam descobrir uma vocação. Aos 35 anos, Pedro Batista mostra de que cores são feitos os sonhos na exposição “Chasing Clouds”.

Durante o regime fascista, a PIDE submeteu inúmeros prisioneiros a torturas que incluíam a privação do sono. Uma técnica coerciva que terá sido pensada – e aplicada - pela norte-americana CIA e impedia o preso de dormir durante dias e dias, levando à confusão mental e eventualmente a um esgotamento que poderia fazê-lo revelar informações preciosas. De acordo com relatórios da Amnistia Internacional, países como os EUA, a Arábia Saudita, a Alemanha, a China, Israel e a Palestina ainda utilizam este método. Nas artes, ainda que sem qualquer factor coercivo, são conhecidos relatos de inúmeros artistas que trabalharam noites e noites seguidas, roubando horas à cama, e de como estas abordagens obsessivas acabaram por marcar o seu trabalho. O caso de Pedro Batista é bem diferente. Não foi torturado nem foi nenhuma espécie de compulsão criativa que lhe reduziu as horas de sono, mas antes a chegada do primeiro filho.

O artista plástico tinha sido pai havia dois meses e em mãos tinha um convite para expor, pela primeira vez, na emblemática Sala do Veado, do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, uma sala que o artista acreditava poder marcar a diferença no seu percurso profissional. “Comecei a trabalhar, mas sentia que não tinha ainda encontrado um conceito, um caminho para o que queria apresentar. A única coisa que efectivamente tinha era um bebé de dois meses e muito poucas horas de sono. Essa minha condição de alguém que não dormia tornou-se um drive para o meu trabalho”, conta o artista plástico de 35 anos.

“Entre os nove e os 17 anos fiz skate e acho que foi a liberdade - chegava a ir do Dafundo ao Cais doSodré - do skate que me aproximou da arte”

Neste processo,Pedro Batista começou a pensar nas cores de que são feitos os sonhos e assim foi criando um “universo onírico” que é o fio condutor da exposição “Chasing Clouds”. Sem saber, esta “ode ao impossível, ao sonho”, revelou-se de certa forma um “regresso à essência, a uma fase inicial do meu percurso em que criava muitas ambiências, e chegava a ser surrealista. A chegada do meu filho ajudou-me a pensar e a reposicionar-me como artista”.

Todas as obras que estarão expostas até ao dia 29 de Novembro no Museu Nacional de História Natural e da Ciência saíram de um pequeníssimo ateliê na Rua de São Marçal, mesmo no centro de Lisboa. É aqui que Pedro passa os seus dias, entre tintas, telas, pranchas e fatos de surf. Quando não está a pintar está no mar, a surfar. Para trás ficou o skate, apesar de ter sido a tábua com quatro rodinhas que o fez despertar para as artes. “Entre os nove e os 17 anos fiz skate e acho que foi a liberdade – chegava a ir do Dafundo ao Cais do Sodré – do skate que me aproximou da arte. Isto para não dizer que as tábuas tinham sempre serigrafias lindas!” Ao mesmo tempo que descobria nas ruas a arte de outros, Pedro gostava de se trancar no seu próprio quarto a desenhar e pintar. Nunca se rendeu ao graffiti, como muitos dos amigos. “Fui buscar muitos à esquadra”, recorda com um sorriso. Mas para ele a arte era solitária e secreta.

Três décimas de valor ditaram que não entrasse em Pintura e descobrisse nessa altura a definição de frustração. “Não consegui quebrar o link familiar e acabei por ir na mesma para a universidade, apesar de não ter entrado no que queria.” Formou-se em Design de Comunicação, mas diz que a cada um dos cinco anos de curso se sentiu “mais deprimido, a definhar”. Ainda assim, chegou a trabalhar como freelancer na área do design de comunicação. Mas sentia-se “partido”.

Depressa fugiu ao padrão imposto escola-universidade-profissão e, após ter ganho uma bolsa pelos seus primeiros trabalhos artísticos, seguiu para os EUA, onde foi fazer uma residência de Verão na Escola de Artes Visuais de Nova Iorque. Terminada a experiência regressou a Portugal apenas para partir de seguida, em 2010, para Berlim, onde ficou seis meses. Ambas as experiências foram marcantes, mas Pedro nunca ponderou mudar-se. “Ganhei muita experiência e maturidade, mas tanto Nova Iorque como Berlim são cidades duras”, conclui. Lisboa é a sua casa.

Aos 35 anos sente-se “100% artista”. Já participou em exposições individuais e colectivas em Lisboa, nos Açores, na Dinamarca e em Nova Iorque, mas tem feito sempre um percurso muito independente. No entanto, tem consciência de que chegou a altura de tentar um percurso mais próximo das galerias. Até porque o seu desejo é dar-se a conhecer no estrangeiro. O primeiro passo está a ser dado neste momento: Pedro está em Medellín, na Colômbia, numa residência artística, e de seguida fará uma exposição na mesma cidade. “Sinto que agora as coisas estão a engrenar.” 

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