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Ana Kotowicz 21/11/2015
Ana Kotowicz

ana.kotowicz@ionline.pt

Histórias de guerra da minha família

Tanto a família do meu pai como a da minha mãe viveram a guerra. Perderam tudo o que tinham e começaram do zero num país que pouco lhes dizia 

O meu avô paterno era polaco. Daí o nome pouco português que carrego, embora tenha nascido em Lisboa e sejam poucas as frases que sei dizer na língua do avô Mieczy. Nasceu em 1910, numa altura em que o território da Polónia estava dividido por três países, e foi preciso chegar aos seus oito anos e ao fim da I Guerra Mundial para assistir à independência do seu país. 

O que parecia que ia ser uma coisa boa não foi. No meio das revoluções e convulsões que foram agitando a Polónia naquele início de século, acabou por ver o pai ser fuzilado em praça pública. Eram da classe errada e, por isso, deveriam morrer. O meu avô conseguiu escapar da Polónia e da morte certa tendo, entre outras coisas, de usar (até ao dia em que morreu) um nome que não era o seu. Viajou pela Europa, nunca voltou ao seu país, e em Roma, em plena II Guerra Mundial, conheceu a italiana com quem se casaria e viveria feliz para sempre. Em Portugal, onde viveu a maior parte da sua vida, assistiu ao 25 de Abril e assustou-se com a Revolução dos Cravos. Para ele era apenas uma revolução comunista – ideologia que ele culpava pela morte dos pais – e, sem pensar duas vezes, fugiu. Foi o seu filho, meu pai, que o encontrou já perto da fronteira com Espanha e o trouxe de volta a Lisboa.

Ao mesmo tempo que os meus pais festejavam a queda da ditadura em Portugal (a minha mãe estudava em Lisboa), a minha avó materna e as suas filhas festejavam em Angola a independência do seu país. O meu avô materno – o único português dos meus quatros avós – foi cedo para África. Em Angola conheceu a mulher, de uma longa linhagem africana, ali casaram, viveram, tiveram filhos, viveram felizes e ele nunca voltou ao seu país. Morreu antes do 25 de Abril.

Quando Angola se tornou independente, a minha avó, as irmãs, os filhos, todos celebraram. Portugal dizia-lhes pouco e não era país onde desejassem viver. E, de novo, o que parecia que ia ser uma coisa boa não foi. No meio das revoluções e convulsões que agitaram Angola, foram obrigados a abandonar o seu país. A sua pele era da cor errada e tiveram de fugir. Transformaram-se em retornados, palavra que ainda hoje abominam.

Tanto a família do meu pai como a da minha mãe viveram a guerra. Viram pessoas que amavam morrer e tiveram de deixá-las para trás. Perderam tudo o que tinham e começaram do zero. Ao ver o êxodo de refugiados lembro-me dos meus avós, das minhas tias, e de como nada é certo ou seguro na vida. E ao ver os atentados de Paris, uma amostra mínima daquilo a que se assiste na Síria, reforço a minha convicção de que é preciso ajudar os refugiados a fugir. A salvarem as suas vidas.

Há anos que faço o mesmo exercício. Quando me sinto abalada por contrariedades, lembro-me de todos eles, dos meus avós, das minhas tias. E concluo sempre o mesmo: o maior dos meus problemas não chega aos pés do mais pequeno dos deles. E percebo porque tantas vezes a minha mãe sussurrava: “Relativiza, relativiza.” 

Jornalista
Escreve ao sábado 

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