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Bill Ryder-Jones. Moderno cavalheiro inglês
Parece que Bill quer serDamonAlbarn nos anos 90. Na verdade não quer mas se quisesse seria compreensível

Bill Ryder-Jones. Moderno cavalheiro inglês

Parece que Bill quer serDamonAlbarn nos anos 90. Na verdade não quer mas se quisesse seria compreensível Matt Thomas Tiago Pereira 18/11/2015 23:23

Mais um disco a solo do ex-guitarrista dos The Coral. Em “West Kirby County Primary” está tudo certo, mesmo que o artista diga que não.

Pelas canções que faz, Bill Ryder-Jones parece um daqueles tipos que nunca deixou a miséria adolescente, que apenas a adaptou à inevitabilidade do tempo para não ser (muito) julgado pela coscuvilhice social. Porque tudo soa muito pessoal, meio-sussurrado-meio-choroso.Dá o nome da escola primária ao disco e nas fotos (como a que vemos nesta página) ou está a pedir colo ou claramente a pensar que todo o mundo é uma merda. Mas quando atende o telefone, rapaziada, afinal é tudo mentira: Bill é a companhia certa para copos e boa onda, é mesmo. A música continua a ser uma feliz tristeza, mas tudo acontece por uma razão. O disco, “West Kirby County Primary”, explica tudo isto muito bem. 

Bill está em viagem: “Estou no autocarro, estamos a sair de West Kirby, vamos agora apanhar o resto da banda e depois seguimos para Manchester, para um concerto à noite, esgotado. Dormimos bem esta noite, estávamos a precisar de descansar, das viagens e da bebida e de tudo isso.” Valentes. Então ainda há rock na Terra, estamos salvos: “Fala-se muito do tour bus como um sítio que está sempre cheio de miúdas e drogas. A verdade? Sete homens crescidos, com idade para ter juízo, seis deles quase sempre bem bebidos, a serem parvos uns com os outros. Da minha parte, acho que só isso já é muito rock’n’roll, mas para a maioria das pessoas, não.” Menos mal, uma verdadeira utopia para muito boa gente (quase toda) com horários feitos de escritórios. “Muitas vezes queremos a nossa cama e isto não tem glamour, mas é uma boa vida, não me lixem.” Ora bem.

Dizíamos que Bill está em viagem. Tudo verdade, está a apresentar o novo disco, dez canções sobre desamores, essencialmente.Podem ser mais ou menos específicos, com alvos concretos ou dedicados ao abstracto das emoções, mas está tudo ligado a dores do coração. Uma guitarra, um piano, ora meio confessional ora com uma banda completa a atirar estaladas às más memórias. Tudo sempre muito brit, com aquele sotaque próprio de West Kirby, que é como quem diz Liverpool – são menos de 20 quilómetros entre as duas localidades. 

Contas O resultado final do disco ficou meio aquém do que Bill queria.Ele explica: “Acho que este álbum não é tão bom como o que fiz antes, pelo menos no aspecto colectivo. A escrita de canções talvez tenha melhorado, mas de forma individual.” Claro, Bill, mas isso é o que todos dizem assim que têm um novo disco pronto. Ele continua a explicar-se: “Estás a ver como no ‘Pet Sounds’ tudo faz sentido, como cada canção se relaciona com a seguinte? É nesse aspecto que o disco falha. Mas agora tudo o que disser sobre isso não vai interessar muito, pois não?” Não, até porque estas canções, agora, são de quem as apanhar. 

Em tempos, era Bill que estava do lado de lá. Ao que parece, nunca quis ser músico, ainda que não acreditemos muito: “Nunca quis ser músico.” Cá está, era disto que falávamos. “O meu irmão mais velho sempre teve jeito para a música, eu nunca me interessei muito. De vez em quando experimentava umas coisas no piano e cheguei a ter aulas de violino, mas era muito mau, mesmo muito mau. Não via o meu futuro por aí.” 

Depois, aconteceu-lhe o que acontece a todos os adolescentes: “Aprendi a tocar umas coisas na guitarra, porque sim, porque era divertido, porque todos aprendíamos. Três anos depois estava a assinar um contrato com os The Coral. Nem tive tempo para pensar se era isto que queria ou não. Mas acho que só agora, com estes discos, é que sinto que estou de facto a viver disto, a trabalhar como um profissional.”

Foi um dos que fundaram os The Coral, quando não tinha ideia nenhuma sobre quem era, para onde ia, etcetera. Primeiro disco antes dos 20 anos e, quando chegou a 2008, percebeu que não era por ali. “Às tantas não sabia bem porque estava com a banda. E nesta vida é preciso algum sentido. Não há uma retribuição imediata por fazer música a não ser o gosto, a paixão. Não há rios de dinheiro a passar por nós – pelo menos, para a maioria. E não precisamos assim de tanto dinheiro, ninguém precisa. Lembro-me de adiantamentos para gravar álbuns com os The Coral que eram absurdos. Agora é tudo contado e é o que é necessário. Mais tempo a trabalhar, muito menos tempo a estragar tudo o resto.”
No meio de tudo isto, Bill Ryder-Jones passou dos 30, é artista em nome individual (“o melhor que fiz”, conta) e já conheceu dois dos seus ídolos de outros tempos: “O Graham Coxon dos Blur e o Nick McCabe, que tocava com os The Verve. Sempre achei que eram parecidos comigo, os guitarristas que falam pouco e parecem ter um mundo muito próprio.” E que tal as estrelas? “O Nick é tudo o que esperava. O Graham... bom, o Graham é especial.”

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