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Cartas de condução. Rede lucrou um milhão de euros com exames ilegais
Polícia Judiciária fez ontem buscas em 20 escolas de condução no norte do país que estariam envolvidas no esquema de corrupção

Cartas de condução. Rede lucrou um milhão de euros com exames ilegais

Polícia Judiciária fez ontem buscas em 20 escolas de condução no norte do país que estariam envolvidas no esquema de corrupção Eduardo Martins Pedro Rainho 18/11/2015 15:10

Cerca de 200 pessoas beneficiaram do esquema. PJ está a identificar estes condutores ilegais, que arriscam prisão.

Cerca de 200 pessoas beneficiaram de um esquema de compra de cartas de condução que ontem levou a uma megaoperação da Polícia Judiciária (PJ), sobretudo na região norte do país, e que culminou na detenção de 14 pessoas suspeitas de estarem envolvidas num negócio que renderia milhares de euros por cliente.

Logo ao início da manhã, a Judiciária arrancou com as primeiras de uma série de 70 acções de busca a 20 escolas de condução espalhadas por dez cidades, todas do norte do país: Porto, Gaia, Santo Tirso, Esmoriz, Maia, Gondomar, Valongo, Felgueiras e Vila do Conde. Os detidos – 12 homens, duas mulheres – são examinadores, responsáveis de escolas de condução e proprietários destas instituições. Caso, por exemplo, do principal suspeito destes crimes de corrupção e falsificação de documentos, dono de uma escola na Maia, que montou todo o esquema.

São, todos eles, suspeitos de participar num esquema que se dedicava a angariar “clientes” para a compra de exames de código.

No terreno, na manhã de ontem, estiveram 150 inspectores da PJ, numa acção coordenada pela Unidade de Combate à Corrupção daquela polícia. Além das escolas de condução, as buscas visaram um centro de exames do Automóvel Club de Portugal (ACP) do Porto (ver entrevista ao lado).

Resposta dada do exterior Segundo o i apurou, os angariadores do esquema tratariam de encontrar novos clientes nas várias escolas de condução. Para beneficiarem do sistema, os interessados teriam de desembolsar cinco mil euros.

Muitos, adianta fonte judicial, não saberiam sequer ler ou escrever – mas essas limitações tornavam-se, na prática, irrelevantes. O dinheiro garantir-lhes-ia condições especiais na hora de fazer o exame de código.
Sentados em frente ao ecrã do computador de exame, os examinandos estariam equipados com uma pequena câmara de vídeo, imperceptível ao olho destreinado, que transmitiria imagens em tempo real para o exterior. Do lado de fora dos edifícios onde se realizavam estes exames, os cúmplices do sistema aguardariam, dentro de uma carrinha, pelo início das provas e pelas respectivas perguntas, a que tratariam de responder falando para um microfone.

Novamente dentro da sala de exames, os “clientes” estariam também equipados com um sistema de áudio. Era através desse auricular que lhes eram sopradas as respostas correctas, possibilitando-lhes a aprovação nos exames de código. Bastava-lhes escolher a hipótese sugerida ao ouvido e terminar esse processo no tempo regulamentar.
A segunda parte da avaliação para a obtenção de carta – o exame de condução – ficava fora do negócio entre as duas partes.

Cartas retiradas Por terem sido obtidas de forma ilegal, as cartas de condução conseguidas através deste esquema serão imediatamente retiradas aos condutores, que neste momento farão uso das mesmas. Mas haverá mais consequências.

A investigação desta rede já leva dois anos. Depois de ter identificado o cabecilha do esquema e os seus cúmplices, a PJ tem em curso uma nova fase da investigação, que passa por identificar todos os clientes desta rede de corrupção para a obtenção de cartas – ou tantos quantos possível. À medida que isso for acontecendo, é expectável que o Ministério Público avance com acusações, uma vez que os beneficiários também participaram no esquema desta rede. São eles os corruptores activos do esquema e arriscam, no limite, penas de prisão até cinco anos, caso o Ministério Público considere que este negócio causava prejuízo aos concorrentes das escolas de condução que integravam esta rede.

A cinco mil euros cada um – nem todos terão pago exactamente todo este dinheiro, mas fonte da PJ admite que o preço entregue pela maioria rondaria este valor –, o esquema terá resultado em ganhos para os 14 detidos que poderão chegar a cerca de um milhão de euros. Neste caso, os 14 elementos já identificados pela PJ podem ser condenados a penas que podem chegar aos oito anos de prisão efectiva.

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