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“Somos nações da Europa. Adeus, Espanha!”
Aspirações independentistas têm sido protagonistas em finais da Taça de Espanha e outros campeonatos de futebol

“Somos nações da Europa. Adeus, Espanha!”

Aspirações independentistas têm sido protagonistas em finais da Taça de Espanha e outros campeonatos de futebol Alex Caparros/getty images Nuno Ramos de Almeida 14/11/2015 15:07

Quando o futebol serve de parábola para o destino do Estado espanhol. Nos estádios, há muito que Espanha já era.

Trinta de Junho de 2015, final da Taça do Rei entre Barcelona e Atlético de Bilbau. O estádio de Camp Nou, em Barcelona, estava cheio. Quase 100 mil pessoas agitavam a ikuriña basca e a senyera catalã, as bandeiras das duas nações sem Estado. Começa o hino espanhol, tocado a máximo volume nas colunas do estádio. Um assobio (pitada) gigantesco da multidão sobrepõe-se à música oficial.

Os que são a favor do reconhecimento internacional das selecções desportivas catalã e basca (casos da Plataforma Pro-Seleccions Esportives Catalanes e do movimento basco Esait) pediram aos seus adeptos que enchessem o estádio e deixassem clara a sua opinião. O movimento Catalunya Acció defendia em comunicado: “Assobia com a língua, assobia pela liberdade, pelas eleições, assobia contra o roubo e assobia pelo novo Estado catalão.” Apesar de o hino só ter sido tocado durante 48 segundos, na presença do rei Filipe IV, uma monumental assobiadela deixou clara a opinião dos adeptos presentes sobre Castela e a monarquia.

Esta é uma história que se repete. Há três anos, Atlético de Bilbau e Barcelona jogaram a final da Taça na capital do “inimigo” e causaram embaraço. A presidente da Câmara de Madrid, Esperanza Aguirre, do PP, avisou que, se desrespeitassem a bandeira, o jogo seria cancelado. “Os ultrajes à bandeira ou ao hino são delito no Código Penal”, avisou a autarca madrilena. “Não devem ser consentidos”, defendeu em declarações à rádio Onda Cero. “Este é o campeonato de Espanha. Esta taça já a entregava o presidente da república quando havia república, Franco quando estava Franco, e agora é a taça de sua majestade o rei, mas é a Taça de Espanha”, justificou. “Se alguns dos adeptos, que estou segura de não serem todos e que há muitos que não são nacionalistas nem separatistas nem anti-espanhóis, quiserem assobiar, digo já que o jogo não se realizará, de certeza”, ameaçou. Mas o jogo realizou-se e o hino foi mais uma vez assobiado. 

Incógnita Desde há muito que as autoridades de Madrid não sabem o que fazer nas finais com equipas bascas e catalãs. Já em 2009, na anterior final da Taça do Rei, em Valência, que opôs o Barça ao Atlético de Bilbau, na presença de Juan Carlos, o assobio foi tão poderoso que a TVE passou o hino de Espanha em diferido, montado sobre imagens neutras de espectadores, sem som, usando planos anteriores ao assobio e onde não se vissem bandeiras independentistas. Durante aqueles largos 50 segundos que durou a “Marcha Real”, tocada sob a vaia dos adeptos bascos e catalães, também se viam cartazes como “We are nations of Europe, goodbye Spain” (”Somos nações da Europa, adeus Espanha”). 

A “pitada” (assobios) desse dia 13 de Maio de 2009 foi considerada, pela justiça, “liberdade de expressão”. O juiz da Audiência Nacional, Santiago Pedraz, não deu razão à queixa apresentada pela fundação Defesa da Nação Espanhola (Denaes) contra a Catalunya Acció e o movimento pró-selecção basca Esait, como alegados organizadores do protesto, acusados de “injúrias contra o rei, apologia do ódio nacional e ultraje a Espanha”. Para evitar a repetição deste tipo de liberdades, em 2013, o governo espanhol fez legislação para criminalizar os independentistas. 

A Lei de Segurança e Cidadania, aprovada pelo conselho de ministros de Espanha em Novembro de 2013, dá conta de que ofensas a Espanha, às comunidades autónomas, às instituições, hinos, símbolos ou emblemas efectuadas por qualquer meio serão severamente punidas.

Durante este ano de 2015, Javier Tebas, presidente da LFP (instituição que organiza o Campeonato Espanhol) declarou que esperava não ouvir assobios durante a execução do hino na final. “Se acontecessem assobios, eu suspenderia a final do campeonato. O hino é um dos símbolos da final da competição. Ainda que não seja organizada por nós, a LFP está muito preocupada com a organização, não devemos deixar que se boicote o hino”, declarou. E a punição chegou. Não conseguindo evitar a liberdade dos espectadores, as autoridades passaram pesadas multas aos alegados organizadores do protesto.

O coro de assobios (foram então registados 110 decibéis) ouvido antes do início da final da Taça de Espanha, no Estádio Camp Nou, em 30 de Junho passado, vai render nada menos que 377 mil euros à Comissão Antiviolência de Espanha. Face ao ocorrido no jogo (assobios e cartazes independentistas), foram multados o Barcelona em 66 mil euros, o Atlético de Bilbau em 18 mil e a Federação Espanhola de Futebol em 123 mil, além de castigos de 100 mil euros à Catalunya Acció e 70 mil a outras plataformas independentistas.

Escolha de Rajoy A repressão tem sido sempre o remédio para lidar com as pretensões independentistas dos catalães, bascos e galegos. A Constituição espanhola, negociada na transição do franquismo, proíbe terminantemente qualquer possibilidade legal de discutir democrática e pacificamente, como aconteceu na Escócia, a independência de qualquer parte do Estado espanhol. Não só Espanha é constitucionalmente indivisível como a carta magna do país prevê que o exército é o garante dessa unidade. As forças armadas podem, legalmente, ser chamadas a reprimir qualquer aspiração de independência. 

A situação é ainda mais perversa por calculismos eleitorais. Nas sondagens, o PP tem cerca de 25% das intenções de voto, mas há muito que deixou de ter legitimidade popular, atascado como está em escândalos de corrupção e numa política de austeridade que faz de Espanha a recordista do desemprego na Europa. A tentativa de bascos e catalães serem independentes vai permitir a Mariano Rajoy fazer um discurso nacionalista castelhano com frutos eleitorais garantidos. Durante muitos anos, o combate à ETA foi o seguro eleitoral do PP de Aznar. A violência contra catalães e bascos leva ao desastre a médio prazo, mas pode permitir ao PP ganhar as próximas eleições de 20 de Dezembro. O problema político só vai ser agravado com a repressão: mais de 50% dos deputados catalães pertencem a partidos independentistas e mais de 60% dos bascos votaram no Partido Nacionalista Basco e no Bildu (esquerda abertzale próxima da ETA).

A União Europeia podia jogar um papel de arbitragem nesta questão, mas apenas está a deitar gasolina para a fogueira. É muito compreensiva e apoia a autodeterminação de povos a leste, como as repúblicas bálticas, os povos da ex-Jugoslávia e a divisão da Checoslováquia, mas faz finca-pé na manutenção da unidade do estado espanhol. Os burocratas de Bruxelas não percebem que se 90% dos catalães querem poder ser consultados sobre a independência, provavelmente, como na Escócia, votariam “não” num referendo. Espanha tem duas hipóteses: a paz no quadro de um outro relacionamento mais confederal entre as suas nações ou o desastre da repressão. Rajoy escolheu resolver as coisas à bomba.

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