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Carlos Burle. “A tecnologia está aí para trazer radicalidade com segurança”
Burle e a Nazaré, uma relação que parece estar para durar

Carlos Burle. “A tecnologia está aí para trazer radicalidade com segurança”

Burle e a Nazaré, uma relação que parece estar para durar Luis Firmo/Red Bull Content Pool Pedro Miguel Neves 12/11/2015 16:45

O brasileiro é uma autoridade quando o tema são ondas grandes. Por elas regressa à Nazaré todos os anos. Os limites continuam a ser superados e Burle acredita que no futuro não precisarão de jetski:as pranchas terão motor.

Carlos Burle é um dos nomes maiores no surf de ondas grandes. Obrasileiro de 48 anos tem vindo a desbravar terreno há mais de duas décadas, sendo um dos mais destemidos e talentosos big wave riders do planeta. Em 2001 entrou para o Guinness com a maior onda surfada (cerca de 22 metros, em Mavericks, Califórnia), numa altura em que a Nazaré não fazia parte destes roteiros. A chegada de McNamara e a ultrapassagem de vários limites na praia do Norte fizeram muitos escolher a vila do Oeste português para passar a temporada de Inverno. E, claro, Carlos Burle está entre os aventureiros. O brasileiro já deu nas vistas, não só por ter surfado uma das maiores ondas apanhadas na Nazaré, mas também por ter salvo a vida da compatriota Maya Gabeira, que quase se afogou depois de cair numa onda. Foi em Outubro de 2013. O incidente, diz, tornou-os mais fortes. Burle já não dispensa as viagens a Portugal nem fazer aquilo de que mais gosta. Aproveitámos o mote do Mercedes-AMG Red Chargers, um evento que vai mostrar em directo para todo o mundo as sessões de ondas grandes (até 29 de Fevereiro) deste Inverno na Nazaré, para falar com uma das pessoas que mais sabem no mundo sobre o big wave riding.

O que espera todos os anos quando regressa à Nazaré?
Ainda tenho muita motivação em relação a entender melhor a onda, o equipamento, a poder surfar cada vez mais confortável naquele ambiente, que sabemos que é um sonho, por ser uma onda grande, mas é hostil, traz medo também. Vivemos sempre nessa relação da procura do prazer e interagir com aquela onda e aquele lugar da melhor forma possível, mas sabendo que aquilo nos pode matar. Existe essa adrenalina constante, essa relação com o stresse com que só poucas pessoas no mundo conseguem lidar da melhor forma.

Garrett McNamara diz que o limite do que se pode surfar na Nazaré está longe de ser atingido. Concorda?
Acho que é um local recém-descoberto que tem um grande potencial e ainda vai crescer muito. Isso vai fazer com que cada vez mais surfistas de talento venham surfar ondas grandes. É lógico que de uma forma mais profissional, com maiores desafios, isso vai elevar o nível do surf. É importante que se perceba isso, o que está a acontecer hoje aqui é um movimento para a evolução do desporto. Isso tem sempre como resultado uma melhor performance do ser humano. Através da preparação individual, colectiva e dos equipamentos.

Mas ainda vamos ver ondas maiores a ser surfadas?
Isso depende da mãe natureza, depende daquela ondulação perfeita e de um vento bom para que isso aconteça. Mas claro, todos queremos isso.

O futuro das ondas grandes passa por pranchas com propulsão própria?
Acho que no futuro o surfista vai entrar na Nazaré sem ajuda do jetski. As pranchas são pesadas e ter um motor reduzido com potência grande que te possa projectar na superfície do mar é uma questão de tempo. Já existe uma prancha, que não navega bem nas ondas, mas que te permite sair da praia. É uma questão de tempo até se tornar a prancha de surf perfeita. Não vai tardar muito.

O que vem acrescentar a organização, na Nazaré, do Red Chargers?
A presença de empresas de fora do desporto, com um volume financeiro bem maior, que podem investir em tecnologia. Isso pode levar-nos a lugares que nunca imaginámos antes. Sabemos que há 30 anos, antes de começar a temporada de Fórmula 1, eles tinham uma reunião com os 22 ou 24 atletas que participavam, e sabiam que no fim do ano dois não estariam vivos. Hoje ninguém morre, eles são mais rápidos e seguros. A tecnologia está aí para trazer isso, radicalidade com segurança.

Para quem já surfa na Nazaré há mais tempo, o que pode trazer este evento?
Sabemos que o mercado do surf está a crescer muito a nível mundial. Portugal está a acompanhar isso, a Nazaré tem essa influência. O Brasil hoje é a nação n.o 1 do surf. De todas as provas do Mundial, o Brasil só não esteve em duas finais. Se olhar para o ranking, há quatro brasileiros entre os sete primeiros. Não é à toa que estamos na Nazaré também. É um movimento natural do desporto. O Pedro Scooby está a ter uma performance incrível, está a chamar a atenção, fico muito orgulhoso de trabalhar com ele. E poder ter a Maya de volta também. A Nazaré faz a parte dela e nós fazemos a nossa parte.

Tem acompanhado a evolução dos big wave riders portugueses? Quem se tem destacado?
Gosto muito da atitude do João de Macedo, ele está a surfar na remada lá. Sabemos que isso é muito mais difícil que surfar com a ajuda do jetski. Há o Serginho, o António [Silva] é um grande surfista também, o Ramon Laureano, o pessoal da Jet Resgate, que faz um excelente trabalho, há o Hugo Vau… Vocês estão bem servidos e a tendência é que continue a crescer e que Portugal venha a ser uma grande potência a nível mundial, não só no surf de ondas grandes mas também no circuito mundial, que é onde estão os grandes campeões e os grandes prémios.

Que conselho daria a quem é surfista e se quer iniciar nas ondas grandes? 
A primeira coisa que deve saber é se quer surfar ondas grandes porque gosta ou se a motivação é aparecer, mostrar uma foto. Eu sou da época em que não existia isso das fotografias e não se ganhava a vida com ondas grandes, fazíamos por amor. Por isso acho que o mais importante é fazer com amor, e depois quando perceber que realmente está a fazer isso por amor é preparar-se bem fisicamente e psicologicamente porque vai precisar de tudo quando estiver lá fora.

Pratica ioga e faz meditação, algo que muitos não associam a um desporto tão radical. Qual a importância disto na sua preparação?
Muita. Se não tivesse a cabeça tranquila quando tomo decisões de risco de vida, em momentos de stresse, não estaria hoje aqui. O lado psicológico é muito mais importante que o físico, porque podes ser o gajo mais forte do mundo mas quando chega aquela hora de ter calma e tomar a decisão certa... se não conseguires tomar a decisão certa, não consegues ter um bom desempenho. Então todo esse lado da procura do autoconhecimento, que é a maior e melhor viagem, a viagem eterna do ser humano, se não tivesse começado cedo a entender-me mais, a praticar ioga, meditação, reiki, as experiências de alimentação todas que fiz, a entender o que quero para a minha vida, não estaria hoje aqui, nem estaria feliz e realizado, e o mais importante é essa realização.

Que ondas prefere no mundo? A Nazaré é a maior e mais difícil?
Gosto muito do Havai, vou lá há 30 anos, acho que tem muito a ver com aquele sonho de um lugar tropical com ondas perfeitas, e isso lá é uma realidade. Mais recentemente estou a conhecer melhor Portugal – já tinha vindo cá nos anos 90 mas para uma competição e fiquei pouco tempo – e posso dizer que é um dos meus locais favoritos. Tem um grande potencial de ondas, não só a Nazaré mas toda a costa. Pretendo passar todos os anos uma temporada extensa aqui, porque é excelente para treinar. Com certeza que uma das maiores ondas do mundo está na Nazaré, tem um potencial incrível, talvez não seja a melhor onda de ser surfada, porque parece mais uma montanha, tem uma formação diferente daquelas ondas que o surfista procura para fazer manobras, mas é a que mais te desafia. Porque é uma onda muito forte, não é tão perfeita, acaba numa situação em que não tem canal. Isso deixa-te numa adrenalina muito grande, sair de uma onda gigante e saber que uma ainda maior, atrás, pode quebrar na tua cabeça, é uma angústia muito grande. É um desafio que me motiva bastante.

Há dois anos a Maya quase se afogou lá. O que aprenderam nesse dia?
Tenho memórias muito positivas porque foi um resgate com sucesso. Passámos por um momento extremo, difícil, por pouco não perdemos a Maya. O que ficou foi a memória de que a nossa equipa se preparou individual e colectivamente com os equipamentos, chegámos mais cedo para entender o lugar e poder gerir todos os riscos, porque é isso que fazemos a vida toda... mas continuamos a aprender, nem sempre as ondas da Nazaré estão daquele tamanho, e saímos mais experientes daquele momento. Voltamos agora com uma equipa mais preparada, com um jetski só para o resgate, com roupas de flutuação maior, pranchas melhores, e com uma mentalidade e abordagem diferente. Acho que é importante perceber que não são esses momentos que procuramos na vida, queremos surfar as maiores ondas com segurança, mas eles acontecem na nossa profissão. As memórias são positivas porque naquele momento tomámos a atitude certa, podia ter ficado congelado com aquilo tudo, mas a equipa reagiu e ela sobreviveu mesmo tendo apanhado com muitas ondas na cabeça. Fiz o possível para a resgatar e reanimar e ela agora está de volta.

Apesar de tudo, serviu para voltarem mais fortes...
Lógico. Acho que é importante para construir a tua personalidade como atleta, amadureces nestes eventos com obstáculos e desafios. Eu faço palestras para empresas, falo sobre gerir o risco, superação de limites, trabalho em equipa, palestras motivacionais, e nós passamos por tudo isso. E onde está o combustível, ou a semente, para me motivar? Nesses desafios. Os desafios são importantes na nossa vida, assim como a preparação, isso é muito importante. Se não estivéssemos preparados, aquele incidente podia ter sido fatal.

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