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Vincent Lindon. “Não sou um actor. Sou um homem, penso o que quero”

Vincent Lindon. “Não sou um actor. Sou um homem, penso o que quero”

Augusto Freitas de Sousa 12/11/2015 18:01

Está por cá para promover um filme que trespassa a realidade. Vincent Lindon recusa os rótulos, assume-se com um livre pensador e apregoa a sua liberdade. O prémio que ganhou no Festival de Cannes “é o melhor do mundo”.

Vincent Lindon foi aplaudido de pé em Cannes depois de ter ganho o prémio de interpretação masculina. O filme “La Loi du marché” retrata um homem, Thierry, que ficou desempregado e os anos seguintes, marcados pela crise, num mundo que o trabalhador não conhecia. Vincent esteve no Lisbon & Estoril Film Festival para apresentar um filme seleccionado, mas fora da competição. Falou com o i, descomprometido, como se percebe em poucos minutos.

Depois de Cannes, Hollywood é uma pergunta quase óbvia.
Não era um objectivo antes e não o é depois do prémio. O meu objectivo é ficar na minha terra. Um francês que vá para os Estados Unidos é sempre um francês num filme americano. Um estranho num filme americano. Nunca serei de New Jersey, de Brooklyn, de Nova Iorque. Eles querem que se fique por lá, os contratos são blindados e não se pode sair. Depois há propostas no nosso país e não se consegue aceitar. Tenta-se fazer uma carreira em Hollywood e ao fim de cinco anos violentos volta-se sem nada. Prefiro ir lá a convite, como se fosse uma festa. Se os irmãos Coen telefonarem a convidar-me para um pequeno papel com quatro ou cinco cenas num filme deles, fico muito contente por fazer alguma coisa com realizadores geniais. Mesmo que seja um papel pequeno, mas se for bom e tiver tempo, por exemplo, entre dois filmes, porque não? Mas não mexo um dedo para que aconteça.

Nem mesmo no início da carreira pensou nessa hipótese?
Fiz um filme com um realizador americano em Londres e com a Sigourney Weaver, mas estava a começar a minha carreira. Nunca pensei no sonho americano. 

Há mais prémios a conquistar?
Não ponho essa questão porque este é o melhor prémio que um actor pode sonhar em todo o planeta. É o melhor de todos. É melhor que o Óscar, até porque nos Óscares é necessário promoção, é como se estivesse a concorrer para presidente. Cannes não é assim. É o melhor prémio que se pode ganhar na vida.

O filme “La Loi du marché” está relacionado com a situação económica em França e até na Europa. Foi um incentivo?
Não sou político. Aceito um papel quando leio o guião e vejo uma ficção, uma boa história, uma história cinematográfica. É disso que gosto. Às vezes por trás da pequena história do filme há uma grande história e nesta longa metragem a grande história é o que o filme nos diz sobre o mundo onde vivemos. Gosto porque me dá a ideia de estar a ajudar a acordar a consciência colectiva. Mas não escolho. Não ando à procura de histórias assim. 

Mas é o caso deste filme.
É a história de um homem que deixou de ter emprego, que trabalhava muito, mas alguém o despediu. Depois de dois ou três anos sem fazer nada encontrou um novo trabalho. É a vida da personagem, com a mulher, com o filho. Quando se vê uma história destas nas notícias à noite na televisão, a história de Thierry dura dois minutos. Não há tempo para se perceber quem é, o que faz, a sua vida, as suas memórias, quem é o pai, a mãe, se tem filhos. Vê-se a reportagem, termina e as pessoas continuam a comer. Aqui aproximamo-nos de Thierry. Conhecemos a sua casa, vemo-lo a cozinhar, o filho que vai para a escola e o que acontece depois. De resto, ele confronta-se com uma escolha. Desistir e voltar a não fazer nada ou sofrer em silêncio, o que também implica coragem. Há aqui uma série de questões. Tudo tem um preço? Somos obrigados a pagar um preço para trabalhar ou há um limite que não se ultrapassa?

É uma história real?
É uma história real. São 4 milhões de histórias em França, talvez 2 milhões em Portugal, 8 milhões em Espanha. Real, infelizmente.

Na sua família família havia políticos, empresários, intelectuais. Isso foi importante para a sua carreira?
Jules Dufaure, o político, do lado da minha mãe, e o escritor Mathieu Lindon, do meu pai. Descendo da família Citroën e do capitão Dreyfus. Foi uma educação rica em cultura. Passei muito tempo rodeado de livros, pintura, música. Foi uma sorte nascer na minha família.

Ser actor foi uma opção? 
Comecei a frequentar o teatro no período escolar para conhecer raparigas, fazer amigos e acabei por passar dois anos na Escola de Teatro. Um realizador deu-me um pequeno papel, depois outro e assim sucessivamente. Nunca decidi ser um actor e agora mesmo nunca me pergunto se sou feliz ou não, se gosto ou não. 

Porquê?
Porque tenho medo da resposta. 

Mas tem a noção de que é um bom actor?
Acho que às vezes sim, outras vezes não. Vou citar um autor: acho que o que faço não é assim tão bom, mas quando vejo outros acho que não é assim tão mau.

É um actor com quem é difícil lidar?
Não sei o que são actores. Não sou um actor. Sou um homem, penso o que quero, onde quero, como quero, com quem quero. Não tenho carro com janelas fumadas, não tenho secretária, assessor de imprensa, manager. Não passo na maquilhagem antes de filmar e tenho uma scooter. Podem fazer-me todas as perguntas e depois decido se quero responder ou não. Posso passear sozinho por Lisboa à noite. Não me interessa. Sou um homem e por acaso tenho a sorte de ser actor. Às vezes filmo. É assim que era antes e vai ser assim sempre.

As pessoas não o abordam na rua? Não lhe exigem atenção?
Falo com toda a gente e cumprimento-as a todas. Mesmo que alguém não seja simpático, o que acontece uma vez por ano. Não tenho protecção, não tenho capas. Sou muito simples. Gosto, vou, não gosto, não vou. Ser artista é fazer o que quero e se alguém tenta que não o faça empurro-o e faço na mesma.

Quando promove os seus filmes passa um mau bocado com os jornalistas? Com a sua agenda?
A partir de agora vou pedir que seja diferente: estar num espaço com toda a gente ao mesmo tempo, onde posso estar duas horas, se for necessário. Digo tudo, mas de uma só vez. Estar em cada meia hora com alguém é difícil porque, por respeito, conto a mesma história por palavras diferentes, mas no final já estou fora de mim. É uma loucura. Também descubro muitas coisas com perguntas dos jornalistas que nunca tinha feito a mim mesmo. Não sou assim tão racional. Nem quero, porque dessa forma estaria à procura de razões em casos que por vezes não as têm. E construir uma personagem seria muito duro. Tento despojar-me dos pensamentos e entregar o meu corpo, os meus olhos, o meu nariz, a minha boca à personagem.

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