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Allen Toussaint, o dono do piano de New Orleans
Se alguém lhe punha a vista em cima, o mais provável era ver isto, Allen Toussaint ao piano. Depois era ficar e testemunhar a maravilha do momento

Allen Toussaint, o dono do piano de New Orleans

Se alguém lhe punha a vista em cima, o mais provável era ver isto, Allen Toussaint ao piano. Depois era ficar e testemunhar a maravilha do momento David Grunfeld/ap Tiago Pereira 11/11/2015 17:40

Era um dos mais influentes nomes da história da música pop americana. Morreu ontem aos 77 anos.

Pode fazer-se tudo ao som de Allen Toussaint. Primeiro e mais importante, pode suar-se prazer, apaixonado ou não. Mas ainda antes, sem querer queimar etapas, podem fazer-se todas as danças: a do engate e a alcoolizada, sem par; uma daquelas que nem sabemos como ou porque começaram mas se os garotos querem então que saia um passinho, mal não faz. Toussaint tocou e cantou todas as maravilhas ébrias deste mundo mas também ajudou a fazer a banda sonora da melancolia que vive bem com as suas misérias. Foi o maior das marchas de New Orleans ao mesmo tempo que vestiu o fato de americano completo, dos blues ao funk. Morreu ontem, com 77 anos, mas para o efeito pouco importa: vamos continuar a fazer tudo ao som de Allen Toussaint. É para isso que serve o Rhythm & Blues e ele sabia-o melhor que todos nós juntos.

Mais e melhor ainda: além de fazer a banda sonora para uma vida inteira, este homem tomava conta do negócio completo. Compunha e interpretava mas também fazia arranjos e produzia. E fazia tudo isto para ele e para os outros. Para a rainha da soul de New Orleans, Irmã Thomas, ou para os garotos ingleses, os Rolling Stones, mesmo que esta troca de intenções não fosse directa nem planeada (neste campeonato entra também a  versão perfeita de “A Certain Girl”, dos Yardbirds). Trabalhava porque todo o trabalho era gozo, puro e simples. Daí que tenha ficado tantas vezes nos bastidores ou com o nome impresso em letras muito pequenas. Era o mago incógnito, que gradualmente foi coleccionando o apreço daqueles que o reconheciam, cada vez mais à medida que o tempo passava, para que esta história fosse bonita e desse ao seu herói a glória que de facto merecia (ainda assim, ficaram por receber muitos aplausos que nunca lhe foram devidamente encaminhados).

Allen Toussaint era feito de New Orleans, não havia pedaço da sua história que não tivesse morada naquela cidade. Até mesmo quando teve de a trocar por Nova Iorque, depois da tragédia do Katrina New Orleans esteve em todas as teclas brancas e pretas que o músico martelou. Nasceu em 1938 numa casa sem grande história e aprendeu a tocar piano sozinho porque sabia bem que nada mais queria.Ainda antes dos 20 conseguiu lugar entre bandas que lhe deram currículo e calo. Em 1958 gravou o primeiro álbum, “The Wild Sound of New Orleans”, e desde então foi sempre alternando o nome próprio com pseudónimos, outras bandas, trabalho de estúdio em favor de outros sortudos.

A mesma desgraça que em 2005 o fez mudar-se para Nova Iorque deu uma segunda vida à sua carreira. Em pouco tempo reencontrava um circuito de pequenos palcos, antes de regressar aos grandes, de todo o mundo. Quase nos 70 era reencontrado por gente que sempre vivera com a sua obra, ao mesmo tempo que novas gerações o descobriam: “Este é que é aquele tipo que toca a música de New Orleans, não é?”

Morreu depois de um concerto em Madrid. Tencionava seguir viagem para a Bélgica, antes dos concertos que tinha agendados para o Reino Unido, a última etapa de mais uma digressão europeia. Voltaria à América, que era onde estava melhor. Sempre bem vestido, de poucas conversas a não ser entre notas. Foi adorado por todos, de Lee Dorsey aos Doors, de Dr. John a Elvis Costello e, se pudesse, estava sempre em estúdio. Ao site Quietus disse o ano passado que “a maior recompensa era fazer música”. A dele e a nossa, acrescentamos.

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