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Esquerda. Um casamento para a vida... enquanto durar
Jorge Ferreira

Esquerda. Um casamento para a vida... enquanto durar

Jorge Ferreira Rita Tavares 11/11/2015 11:12

Ninguém viu mas aconteceu, entre exigências de reserva e de separação entre parceiros. Foi sem romantismos.

É um casamento moderno – afinal, “a malta é de esquerda”. O comentário é de um alto dirigente socialista ao i, ainda antes de se saber que a união entre as esquerdas ia decorrer à porta fechada, num verdadeiro casamento moderno em que a família só vê fotografias e depois da cerimónia terminada. Mais ainda, dado o avolumado património (ideológico) em jogo, houve ainda direito a acordo pré-nupcial, com sinalização para mais uma modernidade: a relação é relativamente aberta. 

E isto porque, para começar, este relacionamento (político) é a quatro e, depois, as grandes decisões desta espécie de casal não têm compromisso prévio, são para ver quando e se a questão se colocar. Exemplo um: Orçamentos do Estado. As propostas anuais de um governo PS serão analisadas uma a uma. E eventuais moções de censura ao executivo vindas do PSD e CDS obrigam a reuniões bilaterais (PS com PCP, PS com BE, PS com PEV) para acertar posição. E se um dos dois parceiros avançasse ele mesmo com uma censura? Bom, nesse caso, a noiva deixou ontem claro o que acontece: não há sequer conversa, é como “meter os papéis de divórcio: nesse dia o casamento acabou, o governo acabou”. Palavra de António Costa.

Ontem foram assinados três acordos que os parceiros insistiram que fossem individuais. As regras para a colaboração política repetem-se, a diferença maior vai para o nível de colaboração, além das obrigatórias condições de governabilidade: o governo será viabilizado, não será derrubado e será este ou nenhum a governar, no actual quadro parlamentar. Os partidos que apoiam o PS comprometem-se a bloquear o Presidente da República nas opções que tem em cima da mesa que não passem por estender até ao registo a passadeira vermelha à eleita para esta relação.

Só têm olhos para o PS, mas aqui a conveniência e o interesse falam mais alto. Afinal, o objectivo comum é “pôr fim a um ciclo de degradação económica, social e ambiental que a continuação de um governo PSD/CDS prolongaria”. Esta parte é comum, mas depois, nos diferentes textos, cada parceiro exigiu acrescentar, em forma de anexo ou outra, as suas reivindicações individuais ou, caso do PCP, aquilo em que não chegou a acordo com o PS. 

Não houve troca de alianças, só se assinaram os papéis. E passou-se tudo atrás da porta de uma sala de reuniões do grupo parlamentar do PS, no edifício novo da Assembleia da República, com os funcionários parlamentares a estranharem jornalistas que por ali estivessem. A ordem foi para reserva total do momento, que só foi registado pelo fotógrafo oficial do PS. Primeiro entraram Jerónimo de Sousa e João Oliveira do PCP. Saíram em dez minutos e ainda se encontraram, lá dentro, com Heloísa Apolónia e Manuela Cunha, dos Verdes. Mas nenhum destes lá estava quando, minutos depois, entrou o terceiro parceiro, o BE, com Catarina Martins, Jorge Costa e Joana Mortágua a fecharem a porta atrás de si e a ouvir-se lá dentro a gargalhada de António Costa. Na política chama-se estado de graça; no casamento, lua-de-mel. Até quando?
 

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