15/6/21
 
 
Refugiados na Hungria. Uma questão de muros no país do medo
A barreira de 175 km na fronteira com a Sérvia foi concluída em tempo recorde

Refugiados na Hungria. Uma questão de muros no país do medo

Hoje os húngaros são os campeões da falta de empatia. Amnésia histórica ou fruto do trauma colectivo?​

Alguns húngaros “não têm coragem” de assumir que são pelo apoio aos milhares de pessoas que estão a fugir dos seus países para a UE. Outros dizem que as “zonas cinzentas” estão a ser postas à margem. Há 59 anos anos eram eles os refugiados. Hoje são os campeões da falta de empatia. Amnésia histórica ou fruto do trauma colectivo?

 

Chamaram-lhes “os 56”, o ano da fuga em massa. Bernadett Vincze ainda não era nascida, mas a mãe e o tio eram. Uma história ficou eternizada na família sobre esse período, tinha a mãe de Bernadett sete anos, o tio cinco. “É uma história que ela me contou que eu nunca esquecerei”, conta ao i. O tio que ainda não era tio, “com toda a sabedoria de uma criança de cinco anos”, prostrou-se à frente dos pais e anunciou que decidira desertar. “A família tinha um medo real de que ele desertasse mesmo. Note-se que viviam em Fertörákos, uma pequena aldeia na fronteira com a Áustria, onde desertar basicamente significava ir a pé até ao fim da rua – algo que até um miúdo de cinco anos poderia tentar, não obstante as armas e minas antipessoal que o esperavam no fim do caminho.”

O tio nunca chegou a desertar, nem a mãe nem os avós de Bernadett. Mas em apenas 19 dias outros húngaros fizeram o que o tio de Bernadett não conseguiu, por inconsequência infantil ou supervisão parental redobrada. Quando há precisamente 59 anos, a 10 de Novembro de 1956, todas as fronteiras da Hungria foram seladas pelos soviéticos, 200 mil pessoas já tinham fugido desde 23 de Outubro. Tornaram-se “os 56”.

Bernadett não consegue traçar paralelismos entre a situação dos familiares e conterrâneos na altura e a das centenas de milhares de pessoas que hoje fogem do Médio Oriente e do Corno de África, buscando refúgio numa Europa onde um dos países com memórias mais frescas de guerras, invasões e repressões é aquele que mais se recusa a estender a mão aos refugiados do século xxi. Diz que “todos os refugiados políticos são iguais se sentem que são perseguidos pelo poder instituído e se sentem que não têm futuro no seu país natal”, mas que isso “abre uma outra discussão sobre as diferenças entre refugiados políticos e refugiados económicos”, uma questão sobre a qual “não se consegue posicionar”.

Para alguém como Bernadett, hoje com quase 30 anos e a dar aulas de Inglês em Sopron, uma cidade na fronteira da Hungria com a Áustria, a fuga desesperada deixando para trás todos os pertences e todos os laços ao local onde se foi feliz e triste, onde se cresceu e viveu, onde se criaram raízes, é uma realidade algo distante. A Hungria de Bernadett não é a mesma que viu nascer a mãe e o tio, muito menos a Hungria dos avós, quando foram as tropas nazis a assentar no país.

Helen Olsen não se lembra desse período mas já existia. Nasceu a 19 de Março de 1944, o dia em que as tropas de Hitler invadiram a Hungria. Quando chegou à adolescência, o país tinha passado do fascismo de direita ao comunismo soviético, com os russos a retomarem o controlo do Leste europeu depois de a Alemanha ter perdido a guerra. A revolta popular, espontânea e em última instância falhada, contra os russos deu-se a 23 de Outubro de 1956, o dia em que Olsen e a família decidiram fugir para os Estados Unidos.
 
Pontos de fuga A estratégia dos Olsen foi a mesma da maioria dos sírios, afegãos, iraquianos e outros que hoje desembarcam na Europa às centenas de milhares, em desespero. O pai foi o primeiro a deixar a pequena aldeia de Nyirmada, para abrir caminho e garantir passagem segura à família. A mãe e os quatro filhos, incluindo Helen, foram ter com ele em Dezembro. O mais novo tinha três anos.

Os caminhos que a família Olsen usou foram os mesmos que os refugiados de hoje pisavam até a Hungria encerrar as fronteiras. Mas a refugiada a viver no Utah desde então faz distinção entre os dois momentos da história moderna. “[As autoridades] faziam uma verificação melhor na altura do que estão a fazer agora”, dizia há algumas semanas a um jornal da terra americana que a acolheu, sobre o “risco” de pessoas “perigosas” entrarem na Europa, deste lado do Atlântico que deixou de ser o seu há quase seis décadas. 

Dos 200 mil húngaros que fugiram como a família de Olsen só uma minoria teve um “patrocinador” no país onde pediram asilo (desses, muitos foram realojados nos Estados Unidos, 38 mil no Canadá). Os restantes, a maioria que já não conseguiu quota de acolhimento nos países que abriram as fronteiras aos húngaros, espalharam-se pelo resto do mundo, uns sem voltar até hoje, muitos outros retornados. Perante o que se passa hoje na Europa, Bernadett questiona-se: “Se o meu tio tivesse mesmo desertado em 56, como tantos outros fizeram, teria sido bem recebido pelo Ocidente se tivesse chegado a atirar pedras, a travar comboios, a pôr em risco a vida de motoristas, a ignorar leis, a recusar-se a registar-se e a escolher para onde queria ir?” É retórica, a resposta já a tem. “Acho que não.”

Preto-e-branco A jovem húngara de Sopron está numa encruzilhada. Diz que hoje tem “idade suficiente para perceber que o mundo não é a preto-e-branco e que o problema com as zonas cinzentas é que  nelas é difícil perceber formas e contornos”. É no cinzento que se afunda quando parece criticar os requerentes de asilo por atirarem pedras e pararem comboios para depois admitir que “não chegou a ver um único refugiado em carne e osso”. As suas críticas são abstractas e fruto da manipulação mediática que ela própria critica, como a “dolorosa postura dos media” no que toca, por exemplo, à “terminologia” utilizada.

“Os media estatais tentam por tudo não usar a palavra ‘refugiado’, e por outro lado os entrevistados liberais e de esquerda usam a palavra o maior número de vezes possível.” Há-de admitir que, no que toca à suposta agressividade dos refugiados que ainda agora citava, “não viu nada disso acontecer” onde vive. E a seguir acrescentará: “Penso que os refugiados devem ser ajudados sempre que possível, sobretudo recebendo comida e abrigo, roupa, educação e cuidados de saúde, e percebo que, embora eu, uma cidadã húngara europeia, não tenha nada disso de graça, um refugiado tem direito a ter, porque não pertencemos à mesma categoria. Mas, no que toca a respeitar leis, penso que seria errado que não pertencêssemos todos à mesma categoria. Se eu não posso atravessar a fronteira verde, porque é que eles hão-de poder?”

A questão da fronteira verde – as passagens não oficiais dentro do espaço Schengen – e das leis soberanas dos estados é a pièce de résistance do governo ultraconservador de Orbán. Quando Angela Merkel decidiu abrir as suas fronteiras, foi da lei que o primeiro-ministro húngaro se socorreu para acusar a chanceler alemã de não respeitar as regras.

Dita a Convenção de Dublin, o tratado europeu de asilo, que uma pessoa que foge para a UE deve registar-se no primeiro país em que entra. Mas era um facto há vários meses, quando as chegadas começaram a multiplicar-se numa União que podia (dirão alguns, que devia) ter--se preparado para isto, que, se essa regra fosse cumprida à risca, Itália e sobretudo a Grécia teriam ficado sozinhas a raspar as migalhas da austeridade para darem uma resposta humana à pior crise humanitária desde a SegundaGuerra Mundial. 

Para Bernadett, essa questão já parece a preto-e-branco, sem cinzentos. “A Alemanha vem, como um cavaleiro andante, resgatar os requerentes de asilo versus a Alemanha precisar de 500 mil imigrantes por ano, mas não mais, para equilibrar um sistema de reformas insustentável fruto de uma sociedade envelhecida e arranjar pessoas que façam o trabalho sujo”, larga. 

Porque a Alemanha não respeitou as regras, Orbán perfilou-se como porteiro do Espaço Schengen, “protector dos valores cristãos” e “o único que implementa as regras” da UE. Nesse embalo, ergueu uma barreira de arame farpado na fronteira com a Sérvia em tempo recorde, um muro de 175 quilómetros de comprimento que começou a ser construído no Verão e ficou concluído a 15 de Setembro. E depois desse outros dois, nas fronteiras com a Croácia e a Roménia. 

Hoje a Hungria vive fechada sobre si própria numa união desunida. Uma capital europeia onde todos os vestígios dos refugiados, ou quase todos, desapareceram na espuma dos dias húngaros – 59 anos depois da suprimida a revolução anticomunista, 26 desde a queda do Muro de Berlim, que os libertaria do jugo soviético.

Muros e medos Budapeste é uma pérola bem guardada da Europa. A arquitectura da cidade é bela, a amplitude das avenidas um deleite, a comida e os transportes baratos. Passear aqui agora é viajar ao epicentro que deixou de ser, uma cidade que voltou a pertencer “aos seus” depois de escorraçados “os outros”. A estação de Keleti (leste, em húngaro), onde até aos primeiros dias de Setembro se amontoavam milhares de famílias por dia à espera do comboio seguinte rumo ao Norte, recuperou a normalidade do dia-a-dia. Os húngaros ficaram entregues à ignorância voluntária e à demagogia alimentada pelos meios de comunicação. E muitos dos que condenam as acções do seu próprio governo têm medo de falar. A insistência com Z. e T., dois jovens estudantes, um de Budapeste, outro de Pécs, de nada serve. Três vezes dizem-nos que “não têm coragem de falar com jornalistas”, que têm “medo”, que não se sentem “confortáveis” a exprimir o que sentem e pensam.

Uma das poucas excepções a esta regra tem morada na Magyar Helsinki Bizottság, n.o 36-38. No Comité de Helsínquia, Anikó Bakonyi recebe-nos com um relatório impresso sobre a situação no “país que não é para refugiados”, datado de 18 de Setembro, três dias depois de terminado o muro na fronteira com a Sérvia. A advogada de direitos humanos, uma mulher de poucas palavras, fica irritada quando lhe falamos de Z. e T., do seu nervosismo e receio de falarem publicamente sobre o quanto favorecem uma acção oposta à de Orbán.

“Posso apresentar-vos muitas pessoas que não têm medo de falar, que aliás continuam ainda hoje a ir às fronteiras, da Sérvia com a Croácia, da Croácia com a Eslovénia, para distribuir comida e roupa doada por húngaros de várias cidades.” Fala-nos das associações de direitos humanos e do seu incansável trabalho e do impacto real de se terem erguido muros a separar a Hungria dos vizinhos.

“O que Orbán disse sobre Merkel foi um equívoco calculado. Não foi a Alemanha que falhou ao abrir as fronteiras, foi a Hungria que falhou ao não registar todas as pessoas que entraram pela Sérvia, foi a Hungria que falhou o cumprimento das leis ao não fornecer abrigo e ajuda de qualidade a estas pessoas, um dever nosso e de todos. Em húngaro temos um ditado que se aplica aqui: ‘Deves primeiro varrer o teu quintal antes de criticares os quintais dos outros.’”

Entre meados de Setembro e final de Outubro, mais de 600 refugiados foram apanhados a passar a fronteira ilegalmente, espremendo-se por buracos que alguém já rasgou no arame, com a ajuda de traficantes sem cara. “Sem sequer falar sobre como um muro patrulhado por militares já tem buracos do tamanho de pessoas, o problema agora é que os refugiados não sabem que estão a cometer um crime quando atravessam a barreira”, explica Anikó. O facto de serem apanhados resulta na expulsão do país e no “impedimento legal” de voltarem a entrar na UE durante entre um e cinco anos.

Do total de pessoas que já foram apanhadas no labirinto legal farpado, só 58 conseguiram (e souberam que podiam) contestar as sentenças do tribunal de Szeged. Os outros, as centenas de refugiados detidos a cada semana que passa, ficam presos no campo de Röszke até serem recambiados para a Sérvia, por onde entraram – o país aspirante a membro da UEque, em represália contra o governo húngaro, deixou de os readmitir. 

É nos casos destas pessoas que a rede de advogados do Comité de Helsínquia trabalha todos os dias desde 15 de Setembro – quando atravessar as fronteiras húngaras sem ser pelos “pontos oficiais de passagem” se tornou “ilegal”, tal como qualquer acção que, aos olhos das autoridades, corresponda a “ajudar os ilegais”. Nos primeiros dias da nova legislação, alguns jornalistas foram detidos por darem água e comida aos refugiados em frente ao muro. “É o problema da ausência do Estado de direito. Em teoria é ilegal, mas na prática não sabes bem o que pode acontecer”, diz a conselheira legal. “É a imprevisibilidade do caos. Nalguns dias há pessoas que levam os refugiados de carro até à fronteira com a Áustria, o que agora também é ilegal, e nada acontece. Noutros uma jornalista dá água a um refugiado e é detida. E os voluntários que substituíram o Estado no fornecimento de alojamento e ajuda básicos tiveram de abandonar a área da fronteira.”

Sobre as barreiras húngaras, Bernadett vai ao fundo dos cinzentos que a idade lhe trouxe. “Penso que construir muros é uma coisa do passado, uma estratégia histórica sem sucesso. Mas penso que uma barreira legalmente transponível tem outra natureza.” Pedimos que explique.“O problema original nas fronteiras húngaras foi, primeiro e acima de tudo, uma questão de as pessoas entrarem pela fronteira verde em vez de irem até às passagens oficiais, onde após o registo legal podiam entrar no país. ASérvia não está em guerra, é um sítio seguro, de onde as pessoas não têm de fugir. É responsabilidade da Hungria respeitar as leis da UE quanto às fronteiras Schengen, que não se aplicam à Sérvia. É por isso que penso que uma barreira que impede passagens ilegais mas que lhes permite atravessar legalmente é diferente de uma barreira cujo único propósito é manter as pessoas fora.” Pára para reflectir e abre um parêntesis: “Os meus argumentos só funcionam se ainda for possível um refugiado ir até a uma passagem fronteiriça legal, registar-se e entrar na Hungria. Isto ainda é assim?” Não é.

Murchar na UE O 23 de Outubro passou despercebido este ano, com “comemorações murchas”, diz Bernadett. Pela primeira vez em muitos anos, nenhum dos dois líderes húngaros, nem Orbán nem o presidente, János Áder, estavam no país no feriado nacional. Também pela primeira vez em muito tempo os partidos da oposição não organizaram quaisquer protestos, como tem sido costume em anos anteriores contra o governo e a política do Fidesz (sigla do partido de Orbán, a Aliança dos Jovens Democratas).

Em substituição dos chefes de governo e de Estado, alguns membros do executivo organizaram uma pequena comemoração em que sublinharam a importância de a Hungria se defender hoje como se defendeu dos soviéticos em 1956. Não se sabe se os inimigos são os refugiados, se a União Europeia, cujos valores e tratados este governo húngaro tem vindo a violar nos últimos anos, com sucessivas alterações à Constituição e com a actual recusa de integrar o sistema de quotas de acolhimento proposto pela Comissão Europeia de Jean-Claude Juncker.

“A atitude dura da Hungria com os refugiados foi parida pelo trauma”, escreveu nesse dia Andras Schweitzer no “Guardian”. “Sem passado colonialista e vivendo sob ocupação soviética, os países do Leste europeu não experimentaram o impacto económico favorável da imigração de grande escala nos anos 60 e 70.”Em vez disso, a experiência da Hungria e de outros países da região resumiu-se “aos riscos existenciais dos seus estados em pontos de viragem históricos”. A xenofobia aqui, defende o jornalista, não é fruto de “amnésia histórica”, é sim “causada por uma sucessão de traumas nacionais de proporções históricas”. Faltará talvez deitar a Hungria no divã da psicanálise.

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