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Javier Cercas. “No nosso tempo há uma sacralização das vítimas. São convertidas em heróis”

Javier Cercas. “No nosso tempo há uma sacralização das vítimas. São convertidas em heróis”

Rodrigo Cabrita Diogo Vaz Pinto 09/11/2015 22:21

Do Holocausto, passando pelo franquismo e chegando à actual crise de refugiados, Cercas vê a Europa numa encruzilhada: ou assume a sua responsabilidade ou mais vale que morra.

Não tem pejo em assumir-se como um desmancha-prazeres. Há muito que Javier Cercas colocou a sua escrita do lado da acusação a uma cultura que teima em ilibar-se do seu passado através de um processo fraudulento de apreensão da história. Em “O Impostor”, o autor usa a forma do romance literário para se lançar numa investigação à volta de Enric Marco, um nonagenário barcelonês que se fez passar por sobrevivente dos campos nazis e foi desmascarado em Maio de 2005, depois de ter gozado de uma enorme eminência enquanto uma das grandes vítimas, testemunhas e heróis civis do século xx. Mas se não engole as desculpas deste elegante manipulador, Cercas compreende como ele não esteve sozinho na sua impostura, como foi apenas o oportunista que soube servir ao mundo as mentiras que adoçam a verdade.

Como correu a sua passagem pelo Festival Internacional de Literatura de Óbidos (Folio)?
Aqui, as pessoas não estão acostumadas a pagar para escutar um escritor. Seria bom que isso mudasse. Em Espanha está a melhorar, há mais festivais deste género. Mas mantém-se uma grande diferença relativamente ao Reino Unido, à França, onde há muitos leitores. Nos nossos países, infelizmente, há poucos. Se compararmos com aqueles países, com os países escandinavos também, com a Alemanha...

Encontra explicações para isso?
Está ligado ao nosso subdesenvolvimento, obviamente, uma cultura escassa ligada a um subdesenvolvimento generalizado – económico, político, cultural. Num lugar onde se lê mais, vive-se melhor. Em Inglaterra não perguntas a uma pessoa se gosta ou não de ler, perguntas o que gosta de ler. Alguém que não lê é como alguém que não come. Torna-se espiritualmente, ou seja, mentalmente idiota. Alguém que não lê, o que há que lhe dar são os pêsames. Infelizmente, nos nossos países, os últimos séculos têm sido assim: atrasados, países irrelevantes na Europa. Faz parte do nosso atraso histórico. Para muita gente – em Espanha, Portugal – ler é tido como um sacrifício, quando ler é simplesmente um prazer, um dos melhores de que uma pessoa pode gozar.

Passaram vários anos desde que o escândalo que está na origem deste livro rebentou. Acabou por avançar sobre ele depois de vencer fortes reservas, mas sempre temeu as possíveis repercussões. Como foi a recepção do livro em Espanha? Reacendeu a polémica?
O livro levanta problemas de várias ordens e a vários níveis. Há alguns que são problemas de Espanha, ou que em Espanha têm uma manifestação muito clara. Sobretudo no que se refere ao passado, à recuperação da memória histórica. Eu gostaria que o livro pudesse ter originado um debate sobre esta questão, mas no fundo sabia que era impossível. Por dois motivos: primeiro, devido à nossa falta de tradição cultural. Não existe um debate intelectual em Espanha. Há a gritaria, os insultos: “Tu és um revisionista”, “tu és um fascista”. Não temos a tradição da discussão racional sobre um problema. Em segundo lugar, porque a questão da memória histórica converteu-se numa espécie de dogma, um dos dogmas fundamentais, não só em Espanha mas em todo o mundo, na nossa época. A memória histórica é algo sagrado. Assim, quando se procura racionalizar, analisar de uma perspectiva racional, é impossível. Para a direita, não se pode tocar no passado. Se o fazes, és um radical, queres pôr em risco a democracia, a convivência. E para a esquerda, se o fazes criticamente, és um revisionista ou um fascista. Se afirmas que o discurso está errado, como eu disse, ou que há uma indústria universal da memória, como eu digo, é porque estás contra a memória, estás contra as vítimas. Isto é obviamente falso para quem quer que leia o livro: eu estou é contra a má utilização da memória e das vítimas. É isso o que fez Marco, é uma das perversões deste tempo, com respeito ao passado, à memória, às vítimas. É uma questão muito importante, mas não houve debate.

Há um certo consenso de que a figura do intelectual está ultrapassada, que a autoridade dos intelectuais se teria perdido ou desvirtuado pelas personalidades que assumiram posições no século xx que acabaram por ser condenadas pela história. Mas este livro parece tentar reencontrar esse papel, intelectual, responsável e útil de se posicionar. Para si parece claro que ele ainda é necessário?
A resposta a essa pergunta, encontrá-la--ás num livro que se intitula “El Punto Ciego”. É um ensaio que surge das conferências que dei em Oxford em Maio e Junho deste ano. A partir delas, escrevi um livro. Nele construo uma teoria do romance do século xxi e do papel do romancista. E coloco precisamente essa questão, o sentido que podem ter duas ideias que parecem ultrapassadas: a ideia da literatura comprometida, engagée, e a ideia do intelectual – que são noções que vão a par. E estou de acordo com a noção de que a figura do intelectual foi importante sobretudo no século xx, mas hoje todo o mundo a dá por acabada e vencida. Alguns destacados intelectuais do século passado não apenas cometeram erros terríveis como apostaram em regimes criminosos, brutais, totalitários: o comunismo, o fascismo, etc. De maneira que uma ideia tão kantiana, o “ousa saber”, o princípio de que o saber nos tornará livres e melhores pareceu entrar em crise. Para que queremos estes tipos? A minha resposta: é mentira que os intelectuais tenham desaparecido. Há mais intelectuais que nunca, se entendermos por intelectual o que há a entender como tal. Ou seja, alguém que adquiriu uma relevância social trabalhando na esfera pública – seja escritor, actor, cantor, filósofo – e que intervém nos assuntos públicos, na política, na polis. Há-os mais do que nunca e com mais influência que nunca. Vimos durante a crise os politólogos, os economistas que actuaram como intelectuais e tiveram enorme influência. Em França temos visto uma polémica brutal sobre a influência dos intelectuais, o seu papel: os casos de [Michel] Onfray, [Alain] Finkielkraut, [Michel] Houellebecq. O debate à volta dos refugiados, a afirmação da Frente Nacional… Há mais intelectuais do que nunca porque há mais meios de comunicação e estes alimentam-se das opiniões dos intelectuais. A questão, agora, é que o papel do intelectual deve ser outro. Eu faço uma proposta no livro. Mas é preciso avaliar o sentido da literatura. Comecei por ser um escritor pós--moderno, queria ser um escritor pós-moderno norte-americano, mas fui para a América para o ser e descobri que era um escritor espanhol. Foi uma descoberta muito importante na minha vida. O pós-modernismo tem para mim coisas muito válidas, absolutamente fundamentais, dependendo do que entendemos por pós-modernismo. Mas teve uma coisa má, o ter permitido que o interpretassem como uma reacção à literatura comprometida, contra ela, uma literatura para entreter. É claro que a literatura pode ser divertida, mas pode fazer muitas outras coisas. Ninguém sai imune de um grande romance. A literatura tem a capacidade de mudar a nossa percepção do mundo. Depois de ler “Quixote”, “Madame Bovary”, “Guerra e Paz”, não somos os mesmos. E isso significa que a literatura vai para lá do entretenimento. A sua capacidade de alterar a percepção dos leitores é a forma como muda o mundo. Não o faz como pretendiam os escritores comprometidos, mas leitor a leitor. É preciso recuperar o sentido absolutamente sério da literatura. O que não significa que fique de fora o humor. Aliás, não há nada mais sério que o humor, como demonstraram Cervantes e Joyce. E a literatura é inseparável do humor ou, pelo menos, da ironia. Mas a literatura não é só um entretenimento. Toda a verdadeira literatura é comprometida na medida em que compromete por inteiro o escritor e o leitor. Na medida em que, como dizia Kafka – numa carta que foi já citada um milhão de vezes e que é preciso citar mais um milhão de vezes –, “um livro deve ser um machado para o mar gelado no interior de nós”, revolucionando-nos. Assim, toda a grande literatura aspira a ser uma revolução, e não um mero entretenimento ou um jogo. Se é um jogo, é aquele em que se arrisca tudo. Vivemos com outro tipo de intelectual. No meu ensaio refiro-me ao que Kant disse, referindo o filósofo, a figura que antecede o intelectual, como uma espécie de mestre que ensina o caminho da luz, da iluminação, contra a ignorância, o obscurantismo, ensina o caminho da razão. Este intelectual como mestre já não funciona. O que falava do cimo de um pódio, como um sacerdote que detinha a verdade, não funciona, é preciso mesmo acabar com ele, com o intelectual que se guia por dogmas. O intelectual partidário, é preciso acabar com ele. 

Neste romance lança uma forte crítica à esquerda. Porque entende que a impostura de Marco se confunde com alguns erros da esquerda?
Eu sou muito crítico com a esquerda. Porquê? Porque me considero de esquerda. Sou mais crítico com os meus, com os que pensam politicamente como eu. A esquerda comete muitos erros. O caso Marco é um reflexo maravilhoso de todas as perversões da nossa época e, particularmente, das da esquerda. Porque ele era um herói civil da esquerda. Há uma pergunta no livro que é fundamental: como é possível que tanta gente se tenha deixado enganar por Marco? E durante tanto tempo? Para essa pergunta há muitas respostas. Vou dar-te três. Não é um caso só com relevância em Espanha, é significativo do que está a ocorrer no Ocidente em geral e, em particular, na esquerda do Ocidente. Toda a gente acreditava no que ele dizia porque o que Marco contava era algo que toda a gente queria escutar. A versão que ele dava do pior passado da história da Europa – do nazismo, do franquismo, da guerra – era doce, amável, uma versão digerível, maniqueísta, uma versão sem aquilo a que Primo Levi chamava os tons cinzentos, a zona sombria, esses níveis atrozes onde as vítimas se convertem em carrascos e os carrascos em vítimas. Era uma versão kitsch e falsificada da história. Isto encantava as pessoas e, em especial, a esquerda. E a razão é porque não nos cai bem a verdade, preferimos as mentiras quando se trata de falar dos aspectos mais desagradáveis da nossa própria vida e da vida colectiva. Os meios de comunicação propagavam as mentiras de Marco porque o público estava encantado com o que ele contava. Iam escutá-lo e voltavam a casa em lágrimas, mas tranquilizados: nós não tínhamos nada a ver com o que se tinha passado, com o franquismo, éramos os bons. Há outra razão importante, aquilo a que chamo a chantagem. Há uma sacralização da memória que invalida a história. É verdade que a memória é indispensável à vida, mas a memória não pode ocupar o lugar da história. Ela é frágil, cede a equívocos. Há que opor o que diz a testemunha com outros testemunhos, com documentos, etc. Uso sempre o exemplo de Fabrizio del Dongo, o protagonista de “A Cartuxa de Parma”, de Stendhal, um jovem idealista que vai para a guerra encantado com Napoleão e combate em Waterloo, mas não entende nada. A batalha à sua volta é apenas uma imagem do caos absoluto. No meio da confusão, o fumo, os cavalos, passa por Napoleão e não o reconhece. Precisamos dos testemunhos, da memória de Fabrizio, mas não basta para entender a história. E há um terceiro factor que ainda é mais grave. No nosso tempo há uma sacralização das vítimas, uma conversão das vítimas em heróis. Elas merecem toda a nossa solidariedade, o nosso apoio, económico, moral, político, de todo o tipo. Mas não são necessariamente heróis. Um herói é outra coisa. Este livro é uma reflexão sobre o que é um herói. E um herói é um homem que diz não quando o resto do mundo diz sim. É um homem que actua. As vítimas não são necessariamente isso. Marco tinha tudo: era um herói, era uma vítima, era uma testemunha e ainda contava o que toda a gente queria ouvir. Era intocável. Definia uma série de perversões do nosso tempo. À esquerda tem faltado capacidade de autocrítica, quem critica a esquerda automaticamente passa a ser um fascista. O que lhe falta sobra em dogmatismo, no julgar-se numa posição superior moralmente. Eu não me considero superior moralmente a uma pessoa de direita. A direita pensa de uma maneira diferente. A direita crê que a liberdade está acima da igualdade, eu creio que há que encontrar um equilíbrio entre uma e a outra.

O que pensa acerca do actual conflito de perspectivas na Europa sobre a situação dos refugiados?
São vítimas de muitas coisas. Eu acredito totalmente na Europa. Julgo que é a única utopia razoável que conseguimos inventar, nós, europeus. Mas se a Europa não for capaz de acolher e assimilar um fluxo de pessoas que lhe bate às portas em fuga de cenários de guerra, que lhe pede ajuda, então rejeito a Europa. A Europa que imagino, e que pode funcionar, é uma Europa que se parece com o romance, enquanto género. Entendo o romance como um cozido, entram nele muitas coisas. O romance tem a capacidade de assimilar tudo. Essa foi para mim a história do romance: assimilou o ensaio, assimilou a história, a poesia, o jornalismo, tudo. E à medida que assimila vai--se metamorfoseando, como um animal mutante, que muda e se torna mais forte. É isso o que tem de fazer a Europa. 

A impostura de Marco não acaba por ser uma acusação da forma como na Europa a história se organiza de modo a isentar-nos de responsabilidades, a dizer que o passado foi terrível mas nós já não somos o nosso passado?
Absolutamente. Ontem [no Folio] contei que, em França, Tzvetan Todorov me disse que, depois da guerra, o general De Gaulle disse: “Os franceses não têm necessidade de saber a verdade.” O que fez De Gaulle foi convencer todos os franceses, ou quase todos, de que tinham sido resistentes ao nazismo. De que não tinham sido colaboracionistas, quando é totalmente falso. A realidade é que muitos o foram. Não queremos a verdade, criamos máscaras, ficções, histórias para ocultar a verdade. Para nos tranquilizarmos. Isto é universal. E não é apenas uma questão política ou histórica, é também pessoal. Não queremos ver o que somos realmente porque pode ser muito desagradável. Se os franceses tiverem de assumir que em 1945 a maior parte deles eram colaboracionistas... Se os espanhóis, em relação a 1975, tiverem de assumir que a maior parte de nós éramos franquistas... Eu era muito pequeno, mas a minha família era franquista. Não eram entusiastas, mas gente que aceitava o regime, como a imensa maioria dos espanhóis. Muito poucos, de facto, disseram não. Como muito poucos o fizeram em relação ao nazismo em França ou na Alemanha. Mas a verdade é muito dura e não a aceitamos, nem pessoal nem colectivamente. Este é o ponto nuclear do livro. É o mito de Narciso. Narciso não é o que está deslumbrado consigo mesmo, mas aquele que se odeia a si mesmo e, por isso, constrói uma máscara bela para ocultar a sua própria realidade. E se se olha no espelho, quando se olha, morre. Ao ver o seu próprio rosto na água, morre. O que fazemos é isto. E o escritor é um desmancha-prazeres que desmascara a realidade. Gosto muito de uma frase de uma escritora que já deixou de estar na moda, Simone de Beauvoir, que disse: “Nomear é desmascarar. E desmascarar é mudar.” A literatura nomeia a realidade e, ao fazê-lo, retira-lhe a máscara. Fazendo-o, muda a realidade, muda a nossa percepção da realidade. Ou seja, prepara-nos para mudar a realidade. 

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