25/9/18
 
 
Ópera na prisão. Só a arte nos pode libertar

Ópera na prisão. Só a arte nos pode libertar

A Escola Prisão de Leiria foi o centro de espectáculos escolhido para um fim-de-semana diferente, em que a liberdade se desprendeu por alguns momentos. 27 reclusos subiram ao palco, ao lado de músicos, actores e dos familiares, para interpretarem “Don Giovanni 1003, Leporello 2015”

O fim-de-semana passado ficará na memória de quem foi público do espectáculo “Ópera na Prisão:Don Giovanni 1003,Leporello 2015”.

Na antiga fábrica de serração do Estabelecimento Prisional de Leiria – Jovens(EPL-J), subiu ao palco, num projecto  inédito no país, uma orquestra de 30 instrumentistas, vários cantores profissionais e por último, e talvez o mais importante de todos estes elementos, 27 reclusos – mais três fora de palco para ajudar.Sim, leu bem, reclusos.

Jovens dos 18 aos 25 anos, presos por todo o tipo de crimes, foram a peça-chave de um espectáculo projectado pela Sociedade Artística e Musical dos Pousos (SAMP), um trabalho que começou há ano e meio, apoiado pela FundaçãoCalouste Gulbenkian, no âmbito do programa PARTIS, que apoia projectos sociais como este.

À entrada do estabelecimento uma placa gigante onde se podia ler “Prisão-Escola” dava as boas--vindas a quem quis ser espectador de uma obra centenária, criada pelo génio de Wolfgang Amadeus Mozart, e que serviu, naquele dia, de mote a uma reflexão que se espera duradoura. Tanto para nós que vimos como para eles, reclusos, que a fizeram. A chuva não quis dar tréguas e, como mandam as boas práticas em qualquer espectáculo, a entrada teria de ser feita de forma ordeira, registando os nomes de quem aparecia. Mas, claro, tratando-se de um espaço onde a segurança é senhora dos destinos dos inquilinos, os guardas – quase fazendo lembrar os frentes de casa de outros espaços de Portugal – apontavam e riscavam os nomes das várias pessoas que iam chegando.

Já mais perto do recinto, novos guardas faziam a radiografia tradicional para ver se alguém, por lapso ou de forma propositada, trazia material ilegal. A chuva, essa, quase fazendo prever que o momento seria inesquecível, ia depositando água nos rostos dos familiares e de muitos curiosos que esperavam pelas 15h00 da tarde, hora a que teria início o espectáculo.

Nesta antiga serração os tons escuros espelham-se em todo o espaço. As cadeiras já estavam dispostas e o cheiro a madeira corporizava um ambiente pouco habituado a receber a nobre arte do canto. De jardineiras azuis, T-shirts pretas e pinturas de cor igual na cara, quatro reclusos ensaiavam rimas improvisadas no palco, criadas de raiz por eles, afinando o passo com os técnicos de som e assistentes de cena. Mais atrás, com um enorme pano vermelho-sangue a tapar, nos bastidores os outros reclusos preparavam-se para a tão esperada subida ao palco, trocando impressões com os colegas de espectáculo. Sempre atentos, os guardas, de mãos atrás das costas, asseguravam a naturalidade das trocas. Mas o que encontram são sobretudo sorrisos de orelha a orelha e muita vontade de começar.

Fuma-se às escondidas, mas as tatuagens lá se deixam escapar. E comenta-se, num jeito curioso, a capacidade vocal de alguns solistas. “Eles têm técnica! Têm tempo de preparação!”, diz um dos reclusos a outro. Mais ao lado, uma trompetista mostra a dois reclusos, entre gargalhadas, como se toca o instrumento. Um companheiro, para concretizar o ambiente positivo que se vivia nos bastidores, disparava: “É! Assim depois mandas uns sapinhos para o público!” O riso instala-se. O que deveria ser um estabelecimento prisional no dia-a-dia caía ali por terra com a música como elo de ligação. Nervoso e atarefado, PauloLameiro, o director artístico do projecto, andava de um lado para o outro, dando uns toques no cabelo e pedindo paciência aos jornalistas que o interrompiam constantemente para breves entrevistas. Porém, como o público estava quase a entrar, decidiu transmitir uma mensagem a todos aqueles que estavam prestes a criar algo único: “Descansar em silêncio, está quase a começar!” É que, por mais difícil e complexo que seja criar um projecto cultural, fazê-lo com quem vive alienado de conceitos como a liberdade ou a cultura poderia parecer impossível. Mas neste dia nada o seria.

O início: o que é estar preso?
Lá fora o público já se agrupava para entrar nos corredores da antiga fábrica de cerâmica. Ao cimo, alguns reclusos, atrás de grades, gritavam uns com os outros, lembrando o frenesim que se vive no interior das prisões. A escuridão dos corredores trazia-nos a leve sensação de medo que culminou num “bem-vindo ao inferno” de um dos membros da produção do espectáculo: David Ramy, professor da SAMP, um dos colaboradores mais activos no projecto e responsável pela dramaturgia da performance nestes corredores. No primeiro contacto com o público há várias actuações a um metro de distância, em jeito de aperitivo: bailarinas mascaradas que seduzem os reclusos, instrumentistas que tocam dentro de um forno revestido de teias de aranha, ou um quarto, o de Mozart, com um espelho virado para nós (espectadores), que nos chama para mergulharmos neste cruzamento entre a música e a vida de um presidiário. Um inferno mozartiano, a bem dizer.

Faltavam poucos minutos para que a ópera começasse. “Quero pedir agora que estejam em off!” dizia Pedro Lameiro à sua equipa, serenando o nervoso miudinho. Na sala de serração, casa cheia. Nem mesmo os buracos do telhado, que deixavam algumas pingas de água entrar, tiraram a vontade de assistir ao espectáculo. A orquestra – a primeira a entrar –, conduzida por SérgioVentura, outro professor da Escola de Artes SAMP, que assumiu em 2008 a direcção artística da Associação Filarmónica Bidoeirense, começava a afinar os instrumentos. As famílias destes jovens tinham um lugar especial, do lado contrário ao do público. Namoradas, mães, pais, irmãos mais pequenos, de tudo um pouco.

Entre elas estavam Elvira Varela e Núria Fernandes, mãe e prima, respectivamente, de Diogo Varela, uma das estrelas que subiam esta tarde ao palco. “Nunca pensei que o meu filho cantasse um dia, e a primeira vez que vi fiquei tão contente que nem chorei. Ajudou-o muito”, começa por confessar a cabo-verdiana, que tem mais três filhos, todos a morarem na Amadora.Preso há dois anos, Diogo, o mais novo dos irmãos, de 21 anos, tem agora um sonho, segundo a mãe: “Ser cantor de ópera”, diz com um sorriso. Mas a única preocupação deElvira é perceber se o filho poderá seguir o caminho certo assim que for libertado. “Será que quando sair da cadeia vai ter trabalho?”, pergunta.

Já a prima Núria, que participou na peça, tal como Elvira, e em ensaios/apresentações anteriores, revela “um orgulho enorme” em ver o primo nesta nova aventura, porque sabe “quanto se esforçou, mesmo com vários contratempos”. Esta “lufada de ar fresco” serviu, como nos conta Núria, para que o primo se “sentisse útil e com vontade de aprender coisas novas”, deitando para trás um passado menos risonho.Quanto às razões que levaram este jovem a ser preso “quando era muito criança”, fica a dúvida: “É uma pergunta que faço a mim mesma muitas vezes, e até hoje não sei a resposta”, remata.

Talvez nunca venha a sabê-la, mas uma coisa sabe: no próximo ano, a 17 de Setembro, este projecto de três anos culminará num espectáculo final no Teatro JoséLúcio da Silva, em Leiria, com o acompanhamento posterior destes jovens quando voltarem às suas casas, trabalhando de perto com várias instituições – como o núcleo de Saúde com Arte SAMP – e lado a lado com psicólogos, técnicos de reeducação, musicoterapeutas, entre outros. Aí o passado dessas perguntas já estará bem distante.

Don Giovanni: uma ópera de hoje e sempre
Era altura de começar. Seria impossível descrever tudo o que passou nesta hora e quarenta de espectáculo, mas é importante saber que história é esta, apresentada pela primeira vez numa sala muito diferente daquela onde fez a sua estreia, o Teatro Nacional dePraga, em 1787. Don Giovanni (Jorge Martins) é um nobre mulherengo que não recua perante nada para seduzir uma mulher, nem a prometer-lhe casamento, mas acabado por abandoná-las a todas. Nesta ópera em dois actos, as vítimas do sedutor foram três: DonnaElvira (Catarina Archer), a camponesa Zerlina (Carolina Correia) e Donna Anna (Carla Simões).Há também, claro, personagens masculinas:o noivo de Donna Anna, Don Ottavio (Carlos Monteiro), o noivo de Zerlina, Masetto (AndréHenriques), e o comendador, pai de Donna Anna, interpretado pelo director do EPL-J, José RicardoNunes. E o leitor pergunta-se: então e os reclusos? Os 27 em palco seriam um só: Leporello, o servo de DonGiovanni. 

A escolha desta obra, em que o malvado acaba por ser punido – o título em italiano assim o diz –, tem uma razão de ser simples: levar estes jovens a reflectirem sobre o bem e o mal, sobre como a sociedade olha para nós e como o acusado nem sempre é o autor do crime. Um teste constante aos presos e à sua resiliência.

Assim que os Leporello entram em cena, a arrumar os sofás e as mesas em palco, como servos que são, o inesperado acontece. Os rostos iluminam-se e os reclusos começam a cantar, muito afinados, de peito cheio. Torna-se impossível descrever a emoção de quem olha para eles, surpreendido. “Dia e noite a servir//Alguém que nunca está satisfeito//A comer mal e a dormir mal//Quero ser um senhor//Não quero continuar um servo”, entoam os artistas em italiano. Um murro no estômago dos mais cépticos, e um sinal de que, com disciplina, todos podemos fazer arte acontecer.

No final do primeiro acto, em que os palavrões também tiveram o seu lugar e as bailarinas trocaram danças alegres com os reclusos, o primeiro grito de alma, durante um baile de aldeia organizado por DonGiovanni, chegava: “Viva a liberdade!”, cantaram todos em conjunto no palco. Assim o fizeram, descomprometidos, cúmplices, talvez até amigos, depois de tantas horas de ensaios e partilhas pessoais.

O segundo acto, em que a personagem principal busca nova “presa” e em que Leporello é injustamente acusado da morte do comendador – outra lição que fica desta ópera –, acaba de forma trágica para o mulherengo: o comendador está vivo, sai do cemitério onde estava enterrado e arrasta-o para as chamas do inferno. E a moral, resumida no fim da ópera, será que os maus vão para o inferno? Não, essa foi contada através do rap de AndréGrave, Ayrton Luz, JacksonOliveira e Mathieu Pinto (reclusos), que cantaram em crioulo e francês. Um deles, já as palmas submergiam a sala, pegou no microfone e disse: “Queria dizer a quem nos ouve, e aos nossos amigos também, que o crime não compensa”, uma mensagem que se quer eterna.

A orquestra foi acompanhando a performance final, e 13 dos familiares destes reclusos subiram ao palco, juntamente com todos os intervenientes do espectáculo, num abraço imenso à volta de uma bandeira, preta e branca, onde se lia “LIBERDADE”. Rodeados por uma plateia rendida, mas também surpresa com tão forte demonstração de felicidade.
Depois desta explosão de diferentes sensações, e já com o público a sair, o i lá conseguiu falar comPedro Lameiro, a quem pediu que desmontasse o espectáculo a que assistimos. “É o poder da ópera! Tem esta magia!O nosso objectivo é que, pela experiência de um projecto artístico, estes jovens, os guardas, os artistas, as equipas técnicas, todos, possam actualizar os seus paradigmas no que diz respeito às diferenças de cada um.”

Depois de uma primeira fase de reflexão de quase dois anos entre ensaios – de duas a cinco horas –, com as famílias e os reclusos, em que houve espaço para descobrir que a voz é um instrumento e “o mundo não é a preto-e-branco”, o projecto avança agora para uma nova fase, a mais importante: “Trabalhar com os agentes culturais lá fora para que eles possam bater à porta de alguém e fazer aquilo de que gostam”, conta, visivelmente emocionado. Paulo, bem como outros profissionais deste projecto, “tem aprendido muito mais” que qualquer dos reclusos. E se um deles for tocar para uma banda filarmónica há um sentimento comum: “Já ganhámos!”, conclui.

O director do EPL-J, José Ricardo Nunes, “sentiu-se pessoa” ao ingressar, pela primeira vez, numa ópera. “Eu também não imaginava que era capaz de cantar desta forma, e os reclusos, ao tomarem consciência das suas capacidades, tornam-se mais donos do seu destino e podem projectar oportunidades de mudança”, argumenta, deixando nota de que as incidências – agressões ou desacatos – dentro desta prisão onde estão 210 jovens, diminuíram durante este processo. Nos bastidores, Carlos Monteiro, o Don Ottavio da história, habituado a outro tipo de palcos, ficou surpreendido porque a “parte musical foi secundária” neste percurso, ficando a interacção com pessoas que aprenderam a respeitar regras e a integrar uma rotina.Para o artista, aquilo que retira de mais valioso é que “todos somos iguais”, independentemente “de onde vimos, do amor que tivemos, e de quem nos trilhou o caminho”.

Cá fora, já os reclusos tinham recolhido às suas celas, algumas bailarinas trocavam ideias sobre a experiência, e, uns metros à frente, a professora Clara Leão sentia-se “surpresa pela disponibilidade” revelada pelos jovens. “Há aqui uma ingenuidade e disponibilidade para a vida que é excepcional, sente-se isso, eles ficaram emocionados de verdade”, conta. Aos 15 anos,Margarida, bailarina, tem talvez a frase-chave do dia: “Foi mais uma prova de que devemos dar uma segunda oportunidade a toda a gente”, diz. Longe de Diogo, D. Elvira e Núria despedem-se com sorrisos e acenos para as celas. Lá de dentro respondem: “Liberdade mother fucker!” É isto que eles querem, poder ter uma segunda oportunidade para gritar liberdade. Onde e quando quiserem, para o resto das suas vidas. 

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