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Buongiorno, Vaticano! Os livros proibidos da Igreja já chegaram às livrarias
Estratégia da Santa Sé passa por sublinhar que os documentos agora revelados foram pedidos por Francisco, empenhado  em limpar a Cúria

Buongiorno, Vaticano! Os livros proibidos da Igreja já chegaram às livrarias

Estratégia da Santa Sé passa por sublinhar que os documentos agora revelados foram pedidos por Francisco, empenhado em limpar a Cúria Alessandra Tarantino/ap Rosa Ramos 05/11/2015 16:35

Os dois livros sobre as obscuras finanças da Igreja já estão nas montras das livrarias italianas. Vaticano está concentrado no controlo dos danos.

Gastos descontrolados, imobiliário escondido, funcionários a mais, esmolas desviadas e facturas inflacionadas. Os dois livros sobre o lado obscuro das finanças do Vaticano – que estão a incendiar a Igreja e levaram à prisão de dois ex-conselheiros do Papa – chegam hoje às livrarias italianas. “Via crucis”, do jornalista Gianluigi Nuzzi, e “Avarice”, do também jornalista Emiliano Fittipaldi, contêm revelações inéditas sobre as contas e o património da Santa Sé e são baseados em documentos ultra-secretos da Cúria e registos de conversas privadas do Papa. 

Muitas das gravações – todas feitas sem que Francisco suspeitasse – foram obtidas através do telemóvel do monsenhor espanhol Vallejo Balda, preso preventivamente na cadeia do Vaticano desde sexta-feira, e mostram um Papa irritado com a desordem e os vícios que encontrou na Cúria. O livro de Gianluigi Nuzzi revela, por exemplo, uma conversa de 3 de Julho de 2013, em que Francisco admitia que os gastos do Vaticano estavam “fora de controlo” e que o número de empregados tinha aumentado “excessivamente”. Na mesma reunião, o Papa queixou-se de facturas exageradas entregues na contabilidade. “Um dos responsáveis disse-me assim: eles chegam com as facturas e temos de lhes pagar. Mas não se lhes paga! Não sem uma autorização prévia, não se paga! Isto é o que se faz nas empresas mais modestas e o que temos também de fazer”, terá dito o Papa. A conversa durou 16 minutos e Francisco deu ordens expressas para que, antes de qualquer aquisição ou empreitada, se pedissem pelo menos três orçamentos e só depois se escolhesse o mais adequado. “No caso da biblioteca... o orçamento indicava 100 e no final pagou--se 200. O que se passou?”, questionou. 

Ao longo de 336 páginas, “Via crucis” descreve um Vaticano tomado por altos prelados que usam o dinheiro e as vantagens da Igreja para se favorecer e aos seus amigos. Diz o livro que há cardeais e outros privilegiados ligados à Cúria a viver em apartamentos de 500 metros quadrados em bairros de luxo em Roma que só pagam 6 euros de renda por mês. E que continua a haver movimentações ilícitas de dinheiro no banco do Vaticano. Já o sistema de pensões da Santa Sé está à beira da falência e a sua reforma bloqueada. A reestruturação financeira que Francisco quis fazer está praticamente parada e enfrenta resistências de todos os lados e a comissão que o Papa nomeou para fazer um cuidadoso levantamento da contabilidade – e a que pertenciam Vallejo Balda e Francesa Chaouqui, ambos detidos – não conseguiu obter dados actualizados sobre muitas áreas, por exemplo a dimensão do património do Vaticano. Mesmo assim, Nuzzi garante que a Igreja é dona de cerca de cinco mil edifícios só em Roma.

Há funcionários na Santa Sé, revela ainda a obra, que desviam produtos das lojas que existem dentro de muros (onde são mais baratos) e os põem à venda em lojas de Roma. E muitos cardeais encaram Francisco como um “intruso”. Já a história recente de que o Papa tem um tumor no cérebro terá sido criada, segundo Nuzzi, para levantar dúvidas sobre a sua sanidade mental e fragilizar o seu pontificado.

Mas há mais revelações. Boa parte do dinheiro do Óbolo de São Pedro, conta “Avarice”, de Emiliano Fittipaldi, é canalizado para financiar despesas correntes da Cúria e acaba por não chegar aos pobres. A Francisco são atribuídas frases como “há armadilhas” ou “se não sabemos como guardar o dinheiro, que se vê, como vamos guardar as almas dos fiéis, que não se vêem?”.

Os amigos estão zangados Francesca Chaouqui, detida na sexta-feira por suspeitas de ter passado os documentos que serviram de base aos livros, voltou entretanto a ser interrogada pela Gendarmeria e terá repetido que está inocente, atirando as culpas para Vallejo Balda, igualmente detido e de quem sempre foi próxima. “Não tenho nada a ver com os factos. Foi o monsenhor que tratou de me acusar”, repetiu ontem numa entrevista ao jornal “La Repubblica”, em que atribuiu o acto do padre espanhol à ambição: “Não é segredo que ele queria o posto de revisor geral do Vaticano, para o qual foi escolhido Libero Milone. Quando não foi nomeado começou a fazer uma guerra, algo que provavelmente o fez entregar as cartas aos jornalistas. Mas não tenho nada a ver com a difusão dos documentos, até porque não tenho vontade de subir de cargo no Vaticano.” 

A amizade entre o monsenhor da Opus Dei e a leiga parece assim ter chegado ao fim, apesar de Vallejo a ter recomendado para o cargo na comissão que o Papa nomeou em 2013 e de até terem organizado em conjunto uma estrondosa festa VIP num terraço com vista para a Praça de São Pedro no dia da canonização dos papas João Paulo II e João XXIII. O evento, para o qual foram convidados jornalistas e empresários influentes, caiu mal ao Papa, que não gostou da opulência da festa, contrastante com a simplicidades dos peregrinos que dormiam ao relento na praça. 

vaticano endurece tom Ontem Fittipaldi deu mais uma entrevista e revelou que o Papa é “um homem sozinho” – uma afirmação que lembra o editorial do “Osservatore Romano” que, em pleno escândalo do Vatileaks, descreveu Bento XVI como “um Papa cercado por lobos”. Também disse esperar que o livro “mostre a todos que reformas é necessário fazer na Igreja, porque não são só reformas estruturais ou a criação de um dicastério, mas o caminho para a verdadeira transparência”.

Federico Lombardi garantiu ontem na Rádio Vaticano que a Santa Sé “não toma decisões baseadas nos livros de Nuzzi e Fittipaldi”. O porta-voz do Vaticano acrescentou que, com escândalo Vatileaks ou sem ele, a reforma e a limpeza na Cúria vão avançar e continuam “no bom caminho”. A estratégia de comunicação da Santa Sé tem passado por sublinhar que os livros se baseiam em relatórios pedidos pelo Papa para reforçar o trabalho de “limpeza dos estábulos” – expressão usada no pré-conclave – que o sumo pontífice tem tentado fazer. Entretanto, Francisco tem feito a sua vida normal e ontem foi dia da habitual audiência das quartas-feiras, durante a qual falou sobre a família. Antes já tinha estado numa missa pela alma dos bispos e cardeais que morreram no último ano. Na homilia, avisou os presentes de que “aqueles que não vivem para servir não servem para viver”. Talvez um recado para os que derrubaram Bento XVI e ameaçam fazer o mesmo a Francisco.

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