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Puseram de lado o canudo e decidiram fazer o que mais gostam

Puseram de lado o canudo e decidiram fazer o que mais gostam

13/04/2012 12:37

Podiam ter um emprego das 9h às 18h? Podiam. Podiam ter um salário fixo todos os meses? Podiam. Podiam, eventualmente, receber mais do que recebem? Podiam.

Podiam ter um emprego das 9h às 18h? Podiam. Podiam ter um salário fixo todos os meses? Podiam. Podiam, eventualmente, receber mais do que recebem? Podiam.

Bernardo Couto, Inês Villa, Mariana Barosa e Victor Ferreira são exemplos de jovens que ousaram seguir um sonho e arrumar na gaveta o diploma que obtiveram na faculdade.

Apesar de ser licenciado em Direito, é a guitarra portuguesa que o move. Quando questionado pelo i sobre porque decidiu seguir um rumo tão diferente, Bernardo Couto respondeu: “Foi sobretudo pelo carácter vocacional que a música sempre teve para mim e porque a guitarra portuguesa é um instrumento extraordinário.” Convicto de que exerceria mal a profissão de advogado, o músico afirma que a satisfação profissional é a forma mais viável de se alcançar estabilidade. “Na verdade, as probabilidades de se atingir alguma estabilidade financeira fazendo uma coisa de que se gosta e que nos realiza são muito maiores do que fazendo algo contrariados.”

Regressou e a sua vida nunca mais foi a mesma. “Voltei para Lisboa ao fim de um ano e meio e consegui trabalho como maquilhadora numa das lojas MAC.” A carreira dentro da empresa de produtos de maquilhagem conferiu-lhe um ordenado fixo, mas mesmo que isso não tivesse acontecido garante que o gosto por aquilo que faz compensaria tudo. “Na MAC tenho um rendimento fixo, sobretudo agora que evoluí dentro da marca e estou como formadora das lojas que temos em Portugal. Mas no início, quando isso não acontecia, embora fosse duro, sempre pensei que era bastante melhor ter de lidar com esse e outros aspectos menos positivos quando se trata de algo que adoramos fazer.”

Mariana Barosa não se imagina a fazer outra coisa na vida. Adora ser DJ. Mais conhecida por DJ Mary B, licenciou-se em Comunicação Empresarial, mas sempre soube que era no mundo da noite que desejava ter o seu futuro. “O meu primeiro emprego em 1999 foi como gerente e relações públicas da discoteca Indústria (em Lisboa). Quando entrei tencionava ser DJ, mas acabei por exercer outras funções. Em 2001 comecei a trabalhar na Antena 3, no departamento de marketing. Em 2003, a convite do Luís Montez, entrei no grupo Lusocanal e nesse ano resolvi tirar um curso de DJ na Mk2.” Apesar de admitir que de início não foi fácil lidar com a instabilidade financeira inerente à profissão, Mariana já se habituou e diz que o segredo está na capacidade de adaptação e na elasticidade. “Demorei a habituar-me, pois realmente há uma variação mensal de rendimentos, o que não me permite ter aquela estabilidade como quando se recebe um ordenado certo ao final do mês. Nos meses mais fracos de trabalho, como Janeiro e Fevereiro, tenho de fazer alguma contenção de custos. Depois os meses de Verão são bastante fortes e compensam os meses mais fracos.”

Victor Ferreira era analista/programador de grandes sistemas que envolviam a banca e seguros. No entanto, contou ao i que apesar de receber um salário muito acima da média a insatisfação profissional o impediu de continuar. “Não me satisfazia a minha actividade profissional. A cada dia que passava era mais difícil continuar numa área que cada vez me dizia menos.” Victor Ferreira assume que a decisão que tomou de início não foi fácil, mas mesmo assim não se arrepende. “No início foi complicado, pois a posição que ocupava garantia-me um rendimento muito acima da média. No entanto, sou muito mais feliz. Paralelamente e para equilibrar as contas, dou também formação de terapias orientais (massagem e acupunctura) e recentemente iniciei um negócio de network marketing agel.”

A insatisfação profissional pode ser comum a muita gente. Porém, existem pessoas que se conformam e outras e que fazem algo para mudar. Arnaldo Coelho, professor na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, justifica estes quatro casos pelo espírito empreendedor que lhes é intrínseco. “Algumas pessoas estão conformadas, habituaram--se a uma rotina e têm até dificuldade em viver sem ela. Mas há pessoas naturalmente inconformadas, que gostam do risco e estão sempre a ter ideias (que nem sempre podem materializar no seu posto de trabalho). Portanto, não surpreende que pelo seu espírito irrequieto, ou, mais bem dito, pelo seu espírito empreendedor, preferem arriscar e fazer por si mesmas.” O professor de Coimbra enumera algumas satisfações que os empreendedores podem obter na iniciativa individual, como a sensação de controlo sobre a sua vida e o prazer de fazer o que gostam, de sair do desemprego ou de abandonar o desconforto no emprego, de ter sucesso económico e reconhecimento social e espaço de afirmação para uma mente irrequieta, além da sensação de contribuir para a economia e o emprego.

Na perspectiva de Arnaldo Coelho, para as pessoas “empreender implica sempre uma capacidade importante de conviver com o risco, implica um espírito irrequieto, que busca sempre novas soluções para os problemas que enfrenta e finalmente alguém que seja seguro de si mesmo e sinta que pode ter algum controlo sobre o seu futuro”. O professor relembra que existem empregos “onde as pessoas são chamadas a pôr em acção toda a sua criatividade, isto é, há empresas que estimulam o que se designa por “intraempreendedorismo”, ao passo que outras se limitam a exigir pouco mais que força braçal”.

A condenação a uma rotina, a ausência de perspectivas e a insatisfação são o que explica a necessidade destes quatro jovens de seguirem um sonho em vez de se acomodarem a uma profissão de que não gostam.

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