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Doentes do Miguel Bombarda têm uma casa com vista para o Tejo

Doentes do Miguel Bombarda têm uma casa com vista para o Tejo

11/10/2011 03:00

A cobiça é um sentimento difícil de aceitar quando estamos na casa que é há cinco meses a morada dos últimos 24 doentes a deixarem o hospital psiquiátrico Miguel Bombarda, onde viviam há 40 anos. Mas há dois motivos: o primeiro é a casa em si, num bairro sossegado do Restelo, com piscina, vista para o Tejo e um alpendre com uma mesa grande e cadeiras de verga. O segundo é o verniz laranja forte nas mãos delas, igual ao que vemos passear-se nas unhas de quem não dispensa a cor da moda. Não perguntamos pelo verniz a José Ornelas, fundador da associação que há um ano aceitou criar a primeira residência para doentes mentais seniores, institucionalizados a maior parte das suas vidas. Já a casa, não é a primeira vez que é cobiçada: “Num hospital psiquiátrico ninguém diz que gostava de viver lá, mas aqui dizem. Também isso era um objectivo.”
Ontem assinalou-se o Dia Mundial da Saúde Mental. O i foi visitar um dos projectos mais recentes nos cuidados nacionais a estes doentes, o único a avançar de uma lista de 17 projectos-pilotos criados em Maio com a rede de cuidados continuados integrados de saúde mental. Os outros, já com residências e equipas de apoio definidas para doentes de todas as idades e de todo o país, incluindo crianças e jovens, estão suspensos à espera da decisão política.
Tal como aconteceu com a escolha da casa, a Associação para o Estudo e Integração Psicossocial (AEIPS) correu várias moradias até encontrar uma com quartos suficientes, um sítio com um ambiente calmo e serviços indispensáveis como cabeleireiro – as unhas não são deixadas ao acaso. No escritório, duas escalas mostram em que dia cada residente tem direito à manicure, o mesmo para aparar a barba. Terem ficado todos mais vaidosos é uma das primeiras constatações – agora há mais pedidos de vestidos e idas ao cabeleireiro, além de alguns já quererem preparar a roupa de véspera.
Todas as semanas, cada um tem uma reunião onde define o que gostava de fazer com a equipa de técnicos, seja varrer o chão seja ir passear um pouco mais longe. Ornelas vê na casa do Restelo, e nesta planificação à medida de cada doente, a “utopia” que foi tentando construir desde os tempos de estudante de Psicologia no ISPA, em 1972, quando o incomodavam as camaratas do Miguel Bombarda, a despersonalização dos serviços e o desperdício do potencial dos doentes. “Agora as pessoas vêm aqui e podem apalpar a mudança.”
No final do ano passado, quando ficou decidido que o Miguel Bombarda seria mesmo desmantelado, depois de 30 anos de avanços e recuos, a AEIPS – com 24 anos de experiência nesta área – foi abordada pelo governo para integrar os projectos-piloto de uma nova rede nacional.  “Ficaram surpreendidos quando dissemos que queríamos ficar com os mais velhos, que estavam há mais tempo no hospital. Estávamos interessados em demonstrar que era possível.” Em 1989 foram também os primeiros a criar uma residências para antigos doentes do Júlio de Matos, na altura mais jovens.

uma mudança com tempo Durante seis meses, até Junho, a antiga casa de família arrendada pela AEIPS foi remodelada e a equipa de técnicos da associação fez a ponte com o hospital para começar a integrar os doentes. “Criaram-se mitos, de que as pessoas estavam muito ligadas ao hospital e podiam entrar numa crise profunda. Sabíamos que isto já tinha sido feito com sucesso noutros países.”  
Além das refeições, que tomam em conjunto, há sessões de ginástica, natação e passeios. No grupo distinguem-se aqueles que estão mais em silêncio e os que querem falar, como Ezequiel, Hermenegildo ou o senhor Viegas. Ezequiel, 58 anos, nunca tinha nadado, mas desde que descobriu a piscina já pediu “explicações de natação” e vai começar a treinar no Belenenses.
Mesmo entre os mais velhos (e a mais velha tem uns rijos 91 anos), as actividades de grupo acabam por ser um momento de superação. Na aula de ginástica têm de apanhar e devolver bolas, chutar, levantar os braços, bater os pés. Todos o fazem, mesmo os mais alheados. Rosa resmunga baixo que não quer, enquanto cruza a perna e encaixa as mãos no colo quando o professor não está a olhar. Quando chega a vez dela, devolve a bola com destreza. O senhor Gamito, altura e fama de basquetebolista, dormita até surpreender o grupo com um drible perfeito. Fernanda só participa se a bola for cor-de-rosa. Paulina, invisual e das mais velhas, apanha e devolve a bola sem quebrar o ritmo. Parece simples, mas a média de idades ronda os 70 anos, têm quadros profundos de esquizofrenia, psicose e depressão: “A grande descoberta é que se pode trabalhar com estas pessoas apesar de terem idades tão avançadas. Dantes falávamos de reabilitação só para os mais novos”, explica Ornelas.
Depois da ginástica, é a altura de ir ao café. “Não fomos perguntar à comunidade se podíamos vir para aqui, como ninguém nos perguntou a nós. Mas não há motivos para ter medo: nunca houve problemas”, diz o professor do ISPA, que nas idas ao café e no cabeleireiro vê uma forma de os doentes se integrarem e de conviverem com a comunidade, já que na casa não há qualquer indicação de que é uma residência de doentes mentais. “A melhor forma de combater o estigma é as pessoas verem, irem a um sítio e o dono dizer que sim, estiveram cá, vivem cá no bairro.”
No Miguel Bombarda apenas dois do grupo costumavam sair. Para a maioria, o café era numa máquina à porta do pavilhão, conta a coordenadora da residência Andreia Caires. Um grupo de oito junta-se agora ao portão, pronto a descer os pouco mais de 100 metros de rua até ao Centro Cultural de Belém. Pelo caminho, Ezequiel é o mais falador. Falamos do tempo, do preço do café, dos cartões para telefonar nas cabines, da infância entre instituições e das visitas à mãe. Ao café só vão os homens?, perguntamos. “Elas estão velhas”, sorri.
No café do CCB já são da casa – vão ali e a outros cafés do bairro pelo menos duas vezes por dia. Cada um leva o seu dinheiro e pedem, um a um, a bica e o pastel de nata. Quem está no café não estranha e eles deixam-se ficar, concentrados na chávena e no pacote de açúcar. Inês Campos, 20 anos, a completar a passagem pela residência no estágio de enfermagem em saúde mental e psiquiatria, é uma das acompanhantes do grupo. Diz que vai ter dificuldade em falar do projecto na faculdade: “Aqui eles estão mesmo na comunidade, nós só acompanhamos, vemos se atravessam bem a estrada, coisas a que estão menos habituados.” Para a futura enfermeira, depois de semanas a lidar com estes doentes percebe-se até que ponto a “antiga filosofia estava errada”. “Aprendem que estando a tomar medicação podem ter uma vida mais normal, como um doente crónico. Antes não havia ninguém que chegasse ao pavilhão e perguntasse ‘e hoje quem é que quer ir ao café?’”.
Todos respondem que preferem a casa ao hospital, porque é maior, porque tem menos barulho ou só porque sim. Cândida, internada por longos períodos desde os ano 80, é a interlocutora mais desconcertante. Gosta de pôr e levantar a mesa e é a primeira a dizer – algo que dava para atirar de resposta a Ezequiel – que os homens fazem pouco. Andreia Caires corrige: cada um tem a sua tarefa, há que ser justo. “Não dei por isso”, devolve. E se Cândida diz que não há muitos amigos porque são pouco faladores, Hermenegildo, que vai sozinho até ao Rossio, sobe a rua do café até casa a apoiar quem anda mais devagar.
No país apenas 500 doentes mentais vivem em casas na comunidade, a maioria projectos antigos, já que a rede nacional ainda não avançou. Ao i, Álvaro Carvalho, coordenador nacional para a saúde mental, diz que a rede está parada e sem data para avançar, mas que a desinstitucionalização é para continuar para lá deste projecto, que teve um financiamento especial do Estado de 61 euros/dia por cada utente. No futuro, o objectivo é que a Saúde pague 41 euros e a Segurança Social, consoante o rendimento do doente, comparticipe o restante. Nos hospitais, cada doente custa 83 euros/dia. “É mais humano, tem mais benefícios para os utentes e sai mais barato”, sublinha  Ornelas.

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