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Na electrónica de Balla, as máquinas do passado ganham forma no presente
Balla apresenta-se no Music Box, na sexta-feira

Na electrónica de Balla, as máquinas do passado ganham forma no presente

Balla apresenta-se no Music Box, na sexta-feira Paulo Romao Braz Ana Tomás 03/11/2015 18:22

Em “Arqueologia”, o novo disco de Armando Teixeira, não há lugar para sintetizadores virtuais.

A história que aqui se acumula não recua a tempos assim tão distantes, mas a uma altura em que, face à imensidão de bases online, era nos instrumentos e sintetizadores não virtuais que se procurava a marca distintiva das composições. É essa memória que “Arqueologia”, o novo disco de Balla, lançado ontem, procura recuperar e onde se traduz a própria bagagem musical que Armando Teixeira, o homem por trás do projecto, vem juntando há algumas décadas. 

“Quando surgiu um dos primeiros temas, que se chamava ‘Arqueologia’, achei que seria um bom título para guiar este trabalho. E a dada altura comecei a usá-lo para me inspirar em várias coisas, principalmente nas sonoridades, e para pensar também que ao longo da minha carreira fui planeando, ouvindo e fazendo muita coisa”, explica o músico. “Arqueologia” cita, por isso, sem pudores e de forma deliberada, algumas das influências do artista, tanto ao nível da criação dos temas como da maneira como usou os instrumentos para os criar. 

Se na canção “Carbono 14” usa o vocoder, a razão é simples: “Tinha acabado de ver o concerto dos Kraftwerk e estava inspirado por aquilo.” Já as castanholas em “Contra a Parede”, associa-as a Roxy Music, enquanto o solo de baixo de “Perfeito Quadrado” vem dos New Order.

Trata-se, como diz, de “citações” à semelhança das que encontramos num livro, mas sem o nome do autor em rodapé. Esse está, sim, naquilo que se ouve. “Não são cópias, soa a New Order porque queremos que soe a New Order. E essas citações interessam-me e dão-me gozo”, refere. O que também deu gozo a Armando Teixeira foi o caminho para chegar a esse resultado. Não foi preciso partir pedra, como numa escavação arqueológica, mas foi necessário investir na procura de cada som. “Agora existem bancos de sons em que o que a pessoa tem de ter é paciência para escolher, e o que quis fazer foi o contrário do que se faz hoje em dia e ir buscar também, de uma maneira arqueológica, a forma como era feita a música electrónica nos finais dos anos 70, inícios de 80, em que havia uma postura muito mais interactiva em relação aos instrumentos e muito mais a valorização de cada som”, sublinha. 

A maior parte dos sintetizadores que usou e que dão a base para as canções são dos anos 70, início dos anos 80, e a forma de os utilizar foi semelhante à dessa altura. A estas máquinas juntam-se o som vivo do baixo e das percussões de Pedro Monteiro, a bateria de Bruno Cruz e a guitarra de Miguel Cervini, as percussões de Duarte Cabaça e dois convidados especiais – o saxofonista Rodrigo Amado e o contrabaixista Miguel Leiria Pereira.

A resumir isso tudo, no livro que acompanha o disco, publicou a lista dos sintetizadores utilizados, seguida da frase “não foram usados sintetizadores virtuais”. “Isso é quase um statement. Havia muitas bandas nos anos 80 que punham uma lista dos instrumentos e eu quis replicar isso, mostrar que foi importante na maneira de construir as canções. E é também o oposto ao facilitismo com que se obtêm esses sons agora.”

Um conjunto que serviria como uma boa amostra daquilo que se poderia encontrar no estúdio do músico, material que vem acumulando ao longo de 20 anos, não numa perspectiva de coleccionador, mas antes como numa oficina onde se vão juntando ferramentas que ajudam a desenvolver melhor o trabalho e que, no caso, permitam elevar a música que faz a outro nível. 

A lógica estende-se ao disco enquanto objecto, que é acompanhado por um livro de 68 páginas com ilustrações, colagens e QR-Codes que dão acesso a outros conteúdos e prolongam a vida desta “Arqueologia” para lá do seu tempo. “Podemos encontrar, por exemplo, no passado, temas antigos dos Balla, que vão sempre variando de semana para semana. Depois tem o futuro, que são canções que não ficaram no disco ou que compus depois de este ter sido acabado.”

Há também instrumentais, vídeos e letras que revelam o processo de um álbum que trouxe para todas estas linguagens um pendor oriental, com o convite às cantoras Chu Makino, Candy Wu e Toi para darem o seu contributo ao registo. Participações que enriqueceram um disco que levou dois anos a fazer e que na sexta-feira tem o obrigatório concerto de apresentação no Musicbox, em Lisboa. 

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