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Jason Aron. “Não pode haver nenhum outro Marty ou Doc”
Marty McFly e Doc Brown numa cena do primeiro capítulo da saga "Regresso ao Futuro"

Jason Aron. “Não pode haver nenhum outro Marty ou Doc”

Tiago Pereira 03/11/2015 18:33

Ainda sobre “Regresso ao Futuro”, está disponível noNetflix o novo documentário “Back in Time”. Falámos com o realizador.

A ideia era conhecer os maiores fãs de “Regresso ao Futuro”, daqueles que guardam DeLoreans na garagem (e há uns quantos desses). Mas depois Jason Aron, fã desde sempre, conheceu os actores e os criadores dos filmes. “Back in Time” passou a ser um documentário sobre os apaixonados pela trilogia, mas também conta a história dos três episódios, como foram criadas e se transformaram em clássicos.

Estreou-se mundialmente a 21 de Outubro, o tal dia em que Marty McFly chegou ao futuro, e está agora disponível no serviço Netflix português. Entrevistámos o realizador, Jason Aron, que em tempos sabia as falas de cor – pelo menos, as do segundo filme.

Como surge este documentário?
O “Regresso ao Futuro” sempre foi dos meus filmes favoritos, estou nos meus trintas e isto sempre fez parte da minha vida. Em 2013 estava a trabalhar numa curta que tinha um DeLorean como adereço. E sempre que o carro aparecia em público, o mundo inteiro parava, ninguém queria saber de mais nada a não ser daquele objecto. E foi aí que tive o meu momento Doc Brown: não sou o único obcecado com o “Regresso ao Futuro”, é um fenómeno cultural, não há ninguém que não goste destes filmes. E era só disso que precisava para decidir fazer um filme. E o mais engraçado é que, depois de começar a fazê-lo, fui percebendo, de forma gradual, o real impacto que o filme deixou. Vejamos, estou a falar com um jornalista português: se isto não é impacto, não sei o que é.

Já sabia qual a narrativa que o filme iria ter, como o ia fazer?
Tinha uma ideia, mas o resultado final acabou por ser completamente diferente do projecto original. No início isto era só para ser um filme feito por fãs sobre o “Regresso ao Futuro”, nada de muito ambicioso. Queríamos concentrar atenções nos apaixonados pelos filmes, os tipos que têm colecções e todas essas coisas, ou seja, dar maior atenção ao fenómeno entre o público. Mas ao falarmos com tanta gente acabámos por conseguir mais apoio do que esperávamos. Muitas portas se abriram e, de repente, estávamos a gravar uma conversa com o Christopher Lloyd, depois o Bob Gale, até chegarmos ao Michael J. Fox.

E com tudo isso tiveram de alterar o plano inicial.
Claro, tivemos de mudar completamente a ideia que tínhamos no início. O que começou como um retrato de gente com relações muito particulares com o DeLorean transformou-se num documentário sobre o “Regresso ao Futuro”, com todos os ingredientes habituais desse tipo de produção. Os fãs deram-nos muito apoio e, ao mesmo, acabaram por fazer pressão para que, no final, pudessem ver coisas que não conheciam, ou pelo menos explicadas de outra maneira. Continua a ser um filme feito por fãs e para fãs, mas com um lado mais informativo. 

Como foi chegar às pessoas que fizeram os filmes?
Dependeu de cada uma delas. Claudia Wells [no primeiro filme é Jennifer, namorada de Marty McFly] foi o nome do elenco que conseguimos contactar primeiro. E foi muito fácil. Alguém nos arranjou o número, ligámos, agendámos a entrevista, tudo sem problemas. Já com a Lea Thompson [Lorraine, a mãe de Marty] foi mais complicado, ela queria participar mas estava a fazer muitas coisas na televisão. Com o Bob Gale, o autor do argumento, foi muito fácil. Porque tudo o que tem a ver com o “Regresso ao Futuro”, mesmo tudo, passa por ele e tem o seu apoio.

E a relação que essas pessoas têm com o filme é a mesma que os fãs têm? Ao mesmo nível?
Bom, isso depende. Em relação ao Bob Gale, como dizia, sim, completamente, ele vai sempre dizer que o “Regresso ao Futuro” é a melhor coisa de sempre. Já com o Michael J. Fox, a coisa é diferente. Ele tem muita coisa a acontecer, sobretudo com a fundação [para a pesquisa sobre a doença de Parkinson], e é isso que tem toda a prioridade na vida dele. Mas uma coisa é certa: quando lhe perguntámos que lugar ocupa o “Regresso ao Futuro” numa escala de momentos importantes da vida dele, a resposta é “o primeiro lugar”, e em segundo aparece o “Quem Sai aos Seus”. Há muitos níveis diferentes de envolvimento.

E como é com o Christopher Lloyd, por exemplo?
O Christopher está sempre nas Comic Cons e nos lançamentos de livros, todo o tipo de eventos relacionados com os filmes. Tem uma ligação mais próxima, mas não é necessariamente mais forte. 

Trinta anos depois, ainda encontraram segredos e coisas que nunca tinha sido reveladas?
Pois, foi uma das nossas maiores preocupações: como descobrir novidades sobre algo que já foi tão dissecado. Por exemplo, na edição dos filmes em Blu Ray está um documentário feito há uns dez anos. Por isso quisemos ir pelos fãs, para encontrar uma narrativa diferente. No total tínhamos umas histórias de 15 fãs que nunca ninguém conheceu. E isto é gente hardcore. Só depois, ao chegar às pessoas do filme, percebemos que sim, que iríamos ter coisas novas. Não sei bem como nunca tinham chegado a público, mas enfim. E parece-me que ainda há mais por contar. 

Com “Back in Time” completo, perceberam porque têm estes filmes esta longevidade tão particular que os leva a conquistar fãs em diferentes gerações?
As camadas de que é feito o argumento, as voltas que dá. Está muito bem escrito, com personagens perfeitas e muito bem interpretadas. Até o carro é uma personagem. Há isto tudo mas, na essência, há uma história simples de um adolescente, na Califórnia, como qualquer outro, que só quer ser cool e tocar guitarra. Tudo funciona. Perguntámos isso mesmo às pessoas que entrevistámos e a resposta apareceu sempre dividida em vários elementos. Se o Marty McFly tivesse sido interpretado pelo Eric Stoltz, como estava planeado no início, o filme tinha sido completamente diferente. Se o carro fosse um Mustang em vez de um DeLorean, também isso teria feito diferença.

Lembra-se da primeira vez que viu o filme?
Quando fizemos as nossas entrevistas aos fãs, a maioria deles lembrava-se exactamente quando foi, onde, com quem estavam, como estava o dia, tudo. Para mim foi diferente, porque o filme apareceu quando tinha uns dois anos. Ou seja, a primeira vez nem sequer foi no cinema, foi com uma cassete de VHS e não me recordo bem dos detalhes. Mas a verdade é que não tenho memórias que sejam mais antigas que esse momento em que vi o “Regresso ao Futuro” pela primeira vez. Lembro-me de levar um gravador para a escola e com mais colegas, nos intervalos, ir gravando todos os diálogos do filme, fala a fala.

Tem algum favorito?
Durante muito tempo, foi o segundo. Muitos dos elementos do futuro e da linha cronológica, tudo isso é fascinante. Anos depois, e após ver os três filmes tantas vezes, percebi como o primeiro filme é extraordinário. E como está feito para que o queiramos ver mais do que uma vez, para que façamos as ligações entre as diferentes cenas, e para isso temos de ver os filmes antes. Por isso também é triste que já estejamos em 2015 e que o futuro já seja passado. Porque não vai haver nenhum outro filme, não pode haver nenhum outro Marty ou Doc, nem há motivos para isso.

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