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As mil e uma noites de Pasolini
Há uma nova edição de filmes de Pasolini

As mil e uma noites de Pasolini

Há uma nova edição de filmes de Pasolini Getty Images Tiago Pereira 02/11/2015 19:44

Morreu há 40 anos, a 2 de Novembro de 1975.E ainda que esse dia insista em roubar mediatismo à obra, o realizador italiano será sempre símbolo de vanguarda e  inconformismo. A propósito da data, o British FilmInstitute lança hoje uma nova edição de filmes de Pasolini.

Destino difícil, o de Pasolini. O artista que passou uma vida a ver mais longe que todos os outros, a sair da linha e a criar uma obra única, para 40 anos depois continuar a ser tão popular pelo trabalho que fez como por um único dia, aquele em que morre, aos 53 anos. Claro que tudo isto acontece porque a morte do italiano dava um filme – porque até já deu um filme, “Pasolini”, claro, realizado por Abel Ferrara e apresentado em Veneza o ano passado. Hoje passam quatro décadas desde que foi 2 de Novembro em 1975 e continuamos sem saber nenhuma destas duas coisas: quem matou Pier Paolo Pasolini e quem um dia voltará a ter criatividade tão destemida quanto a dele. 

Porque a matemática de hoje é especialmente redonda, há quem recorde Pasolini com a classe do que é essencial, ao mesmo tempo que faz a economia girar. Não há pecado nisso, falhar seria fazer silêncio, daqueles que não agradam a ninguém. O British Film Institute lança hoje uma edição especial em DVD e Blu-Ray com seis dos títulos fundamentais da filmografia de Pasolini, o realizador-escritor-poeta que foi ainda mais que tudo isto. Filmes que insistem em garantir que não esqueçamos o essencial.

Itália era uma enorme musa para Pasolini. Mas tinha de ser a Itália simples, franciscana (como ele), sem fascistas nem indústrias que aniquilassem o sentido de um quotidiano bem vivido. As ruas menos visitadas contavam as melhores histórias, com sexo, violência e, pelo meio, algum sentido de redenção, haveria de lá estar. Só se estreou no cinema em 1961, com “Accattone”, mas o sentido de vanguarda encontrou-o bem mais cedo, na poesia, na Literatura que estudou em Bolonha, nos artigos que escreveu e no trabalho feito com Fellini, ainda antes da sua estreia enquanto realizador.

Pier Paolo era o homem do contra. Não queria o que já existia, muito menos o que estava por vir. Sabia que o futuro guardava dependências materiais e formais, que a televisão não nos daria descanso (faltou-lhe adivinhar a banda larga), que a ditadura tem muitas caras e outros tantos donos. Sabia tudo isto porque já o via enquanto criador, no seu lugar de desafiador dos costumes – os bons, os maus e os outros, se era regra então que se quebrasse.

Apontavam-lhe o dedo. Homossexual, de esquerda, com uma visão particular da fé e dos hábitos religiosos, com o cinema como veículo invencível de revolução (sem pressas mas decidida). Contra o governo e uma Itália que desejava diferente, escrevia e falava a todos, quanto mais melhor. Tinha um público anónimo tão grande como o grupo de notáveis que o admirava. Por isso era perigoso, diziam, era uma ameaça, e isso – bem o sabemos – não se faz. 

O mesmo Giuseppe Pelosi que lhe ficou com o Alfa Romeo a 2 de Novembro de 75, após um encontro sexual de mau resultado, confessou à polícia o crime. Matou Pasolini porque não lhe queria dar o que o cineasta pedia. Bateu-lhe com um pedaço de madeira até chegar o fim e depois atropelou-lhe o corpo várias vezes. Mas há indícios nunca explicados, há relatórios forenses que falam em mais de um homicida e teorias sobre incomodados que o queriam silenciar. Como AbelFerrara disse ao “Guardian” em Setembro, “a morte de Pasolini não é ficção”, ainda que assim possa parecer à distância. O evento marcou o realizador americano, descendente de italianos, que descobriu os filmes de Pasolini ainda a tempo, em 1971.

Será Ferrara, hoje, o mais sentido seguidor de Pier Paolo e aquilo que vem dizendo nos últimos meses é um bom resumo final. Em entrevista ao “Financial Times”, também emSetembro: “Não escrevo na primeira página do ‘New York Times’, não tenho livros de poesia, não fiz nenhum romance de 1700 páginas, não tenho os meus dois próximos argumentos já escritos. Ela era sobre-humano. Era um leão.”

Pasolini:
Six Films, 1968-1975  

De Pier Paolo Pasolini 
77 euros (amazon.co.uk)

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