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Líbano. Príncipe saudita apanhado com duas toneladas de anfetaminas
Emir saudita tentou embarcar em Beirute com toneladas da anfetamina usada pelos jihadistas do Estado Islâmico durante combates

Líbano. Príncipe saudita apanhado com duas toneladas de anfetaminas

Emir saudita tentou embarcar em Beirute com toneladas da anfetamina usada pelos jihadistas do Estado Islâmico durante combates ALAIN JOCARD/Getty Images Diogo Vaz Pinto 29/10/2015 15:32

Os caixotes com o emblema da Arábia Saudita e o nome do emir não passaram na alfândega em Beirute. 

Não há pior sítio no mundo para se acender um charro que na Arábia Saudita. As drogas mais leves fazem muito mal à saúde por aquelas bandas. Não são de todo raras as condenações à morte por delitos relacionados com a posse de substâncias ilegais. Sendo desaconselháveis até os vícios mais inofensivos – um idoso britânico arrisca 350 chicotadas por ter sido apanhado a transportar álcool –, a monarquia árabe vai fazendo vista grossa se o delinquente for um dos seus príncipes.

Quem quer que faça um voo que parta de solo saudita e atravesse a fronteira para áreas mais respiráveis, terá testemunhado como esse momento das travessias aéreas faz saltar as rolhas das garrafas como se tivesse havido uma revolução a meio do voo. E os sauditas são os mais folgazões na hora de brindar. Para eles, tudo à volta é Las Vegas – no clássico sentido de que o que acontece em Vegas fica por lá. Os príncipes sauditas não são excepção. E alguns atravessam a fronteira do puritanismo directamente para a depravação.

Aos 29 anos, no seu jacto privado, Abdul Mohsen bin Walid bin Abdul Aziz al-Saud ia a meio do seu sonho – a família real saudita goza de licença para sonhar acordada –, ou seja, com a sua entourage (quatro amigos), tinha um carregamento de duas toneladas de anfetaminas, além de um pouco de cocaína. Vinte e cinco caixas e seis malas, ou mais, dependendo das fontes. Era um domingo como outro qualquer, mas os scanners da alfândega no Aeroporto Internacional Rafik Hariri de Beirute detectaram a carga suspeita e estava criada uma embrulhada para todos os envolvidos. Como se varre para debaixo do tapete “a maior operação de tráfico alguma vez frustrada no aeroporto”, como confirmou uma fonte à AFP.

A droga das bestas Horas antes do incidente, um traficante paquistanês tinha sido executado pelo sistema judicial saudita. É difícil saber o que teriam feito as autoridades sauditas se dessem com tamanho carregamento de anfetaminas no reino, ainda para mais de captagon, um estimulante sintético mais conhecido por ser o preferido dos militantes do Estado Islâmico (EI) na Síria. Trata-se de uma droga bastante popular no Médio Oriente que, à semelhança da cocaína, provoca um estado de euforia e hiperactividade, mas ganhou má reputação por lhe ser atribuído um especial apetite de destruição que serve de empurrão aos jihadistas na hora de convencerem o mundo de que são capazes de fazer descer a humanidade a um novo círculo do inferno.

Segundo os curdos, é o consumo de captagon que explica a impavidez suicida dos jihadistas durante os combates e a brutalidade com que têm cometido as piores atrocidades contra as suas vítimas. Depois de os radicais sunitas terem sido rechaçados de Kobani – cidade curda no norte da Síria –, encontraram-se pastilhas que se crê serem de captagon na posse dos combatentes mortos do EI.

“Eles trazem pastilhas em quantidade e estão sempre a tomá-las. Elas parecem torná-los ainda mais loucos. Ficam agitados e não têm problemas em castigar violentamente crianças pelas coisas mais insignificantes”, disse ao “Daily Mirror” Ekram Ahmet, um curdo que fugiu com a família de Kobani.

Este estimulante tem visto o seu consumo crescer de forma vertiginosa, uma vez que, de acordo com a Reuters, o colapso da infra-estrutura estatal na Síria, com a subsequente debilitação das fronteiras e a multiplicação de grupos armados nos quase quatro anos de conflito, fez do país um centro de produção de drogas, em particular desta anfetamina. Os médicos dizem que o captagon ajuda os combatentes a manter o moral elevado nas batalhas, conseguindo passar dias sem dormir e tornando-se imunes à dor mesmo sob tortura.

Em maus lençóis Quanto ao príncipe saudita e amigos, segundo o diário libanês “As Safir”, um juiz ordenou a sua prisão depois de um primeiro interrogatório. Entretanto, os cinco terão sido enviados para a sede do Gabinete Central de Combate aos Narcóticos. De acordo com fontes citadas pelo mesmo jornal, o princípe contava voar da capital libanesa para a localidade de Haíl, no norte da Arábia Saudita.

Mas para tranquilizar os que tendem a torcer sempre pelos de sangue azul, seja deste seja do outro lado do mundo, é bom lembrar, como fez ontem Robert Fisk – numa reportagem para o “Independent” a partir de Beirute –, que o Líbano tem uma enorme dívida para com a Arábia Saudita, que não hesita em dar uma mão e pagar a reconstrução do país sempre que Israel o invade. Fisk garante que o caso acabará mesmo varrido para debaixo do tapete, notando como até já houve um site libanês que revelou a identidade do juiz – Dany Chrabieh – que mandou prender o emir e os seus amigos. Este é o tipo de histórias em que é o juiz quem se vê em maus lençóis por fazer o que lhe compete.

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