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Mike Skinner. “Podia gravar um disco amanhã, fazer um filme é mais difícil”
Michael Geoffrey Skinner, quase 37 anos, ainda e sempre com a pose certa

Mike Skinner. “Podia gravar um disco amanhã, fazer um filme é mais difícil”

Michael Geoffrey Skinner, quase 37 anos, ainda e sempre com a pose certa Stefan Sara Venter Tiago Pereira 29/10/2015 12:00

Os The Streets acabaram, mas o inglês continua a fazer o mesmo: escreve histórias, grava música e faz festas. Quase sempre à noite, como as Tonga que tem assinado em Londres (e não só) e que esta semana chegaram ao Spotify em formato de programa de rádio. 

Na próxima semana, a 5 de Novembro, é o convidado especial de DJ Glue em mais uma noite C.R.E.A.M. no Lux.Antes, diz-nos que tudo isso são desvios – ainda que bons – do que quer realmente fazer: cinema.

Atendeu-nos o telefone de manhã, não estávamos à espera.Provavelmente nem o próprio Mike Skinner tinha isto planeado, mas o homem é um profissional.Umas horas antes acabava um DJ set em Newcastle e ali estava ele, a dizer o que vem fazer ao Lux na próxima semana, dia 5 de Novembro. Skinner a trabalhar a pista de dança em mais uma festa C.R.E.A.M. Vem a convite do anfitrião, DJ Glue, na mesma noite em que actua o também britânico P Money.

O hip hop dos The Streets não existe desde 2011 e assim vai continuar. Agora, Mike Skinner quer é noites Tonga, que tem apresentado no Reino Unido e não só, com o parceiro de má vida Murkage. Vão resultar em disco e já têm, a partir desta semana, um especial noSpotify. Depois há o cinema. A série que fez para a Vice, “Hip Hop in the Holy Land”, deu-lhe a confiança que faltava. Não é ficção, é um documentário – em vários episódios – sobre os rappers da Palestina e de Israel. Mas o resto está para vir. Só pode. Palavra de Skinner.

Olá Mike. Tudo bem?
Estou bem, sim, obrigado. Meio ensonado, mas isso é o normal.
Coisas de DJ.
É, é isso. Acho que é essa agora a minha profissão. Não é só isso, claro que não, mas como o faço sempre a más horas acaba por influenciar tudo o resto.
Normalmente, de que é feito um set dos seus?
Tanta coisa, isso depende da noite. Mas... vá, talvez haja sempre muito baixo, carregado, pesadão. E dentro desse campeonato há muitas possibilidades. Uma coisa é certa, um bom baixo mexe sempre com as pessoas. Depois o que é preciso é saber qual o ritmo certo para pôr a pista a mexer, sem pausas. Costumo fazer uma noite em Londres, com mais algumas pessoas, chamada Tonga, e é mais ou menos isso que acontece, esse tipo de som. 
Noites que tem levado a diferentes cidades de diferentes países.
Sim, e tem corrido sempre muito bem, o que me leva a tirar algumas conclusões sobre as pessoas em geral, no que diz respeito à dança. As frequências mais graves têm um efeito meio instintivo... Enfim, em Lisboa vai acontecer uma espécie de noite Tonga, mas só comigo.
E como começaram essas noites?
Não fui eu que as comecei, a origem de tudo isso está em Manchester. Eu associei-me à malta que faz isso e comecei a ser uma espécie de representante das Tonga em Londres.Entretanto aconteceu o que já se esperava: levámos isto a todo o país e depois para lá da fronteira. É a música a funcionar, não é? Acho que sim, que é assim que tem de ser. 
Não sei se costuma ler o que escrevem sobre si, mas por norma a palavra “Tonga” surge associada a elogios como “as noites mais cool do momento” e outras coisas boas do género.
Isso é bonito da tua parte, obrigado. Ainda que estejas apenas a citar outras pessoas, não há problema. Fizemos uma destas ontem em Newcastle, foi muito bom.
Daí o sono.
Pois, não dá para disfarçar.
Quando não está a trabalhar enquanto DJ, é fácil vê-lo em clubes e discotecas?
Sim, mas isso é porque, de facto, passo mesmo muitas noites a trabalhar. Se não o fizesse, estaria sempre na noite? Bom, hoje talvez não... Ou então sim, não sei muito bem, porque há anos que não faço outra coisa. Só me falta abrir o meu próprio clube.
Ora aí está uma boa ideia. 
Não sei.Passar música é uma coisa, tomar conta do negócio é outra completamente diferente.
Há sempre alguma expectativa de que, a meio de um DJ set, pegue no microfone e diga algo como “e agora, uma canção dos Streets”, não?
Talvez. Com as pessoas que vão a uma noite Tonga, talvez não tanto, porque sabem ao que vão. Mas percebo que exista esse tipo de esperança. Estou consciente de que construí um nome associado a outros projectos. Não me chateia mas, ao mesmo tempo, espero que ninguém fique desiludido ao ver que isso não acontece.Porque essa é a verdade: não acontece. Mas não me importo nada que continue a ser, para quase toda a gente, o tipo dos The Streets. É o que é. Mas lá que acabou, acabou.
Depois de ter dito “The Streets nunca mais”, a sua vida mudou? À distância não parece, pelo menos a julgar pela agenda.
É engraçado porque, enquanto The Streets, o meu trabalho era feito essencialmente de três coisas: contar histórias, produzir beats e juntar as duas coisas para fazer com que as pessoas passassem um bom bocado nas actuações ao vivo. E agora faço exactamente o mesmo, mas de outras formas. Continuo a escrever muitas histórias, ainda faço música e trabalho como produtor, e ao ser DJ esforço-me ao máximo para que as pessoas tenham boas festas. Ou seja, está tudo mais ou menos como era, mas de uma forma mais tranquila.
Porque pode andar na rua mais descansado?
Não, não é tanto por aí, nunca tive muitos problemas desses. A diferença está mais na pressão. Quando tens uma marca como The Streets, há mais expectativa, é só isso. 
E dá-lhe tempo e espaço para fazer coisas como “Hip Hop in the Holy Land”.
Ah, sim, isso foi fantástico.
Foi tudo uma grande descoberta ou já sabia mais ou menos o que ia encontrar?
Tinha ideia do que ia encontrar, musicalmente falando, mas nunca esperei descobrir histórias pessoais como as que encontrei. Por trás de muitos rappers estavam vidas inesperadas, surpreendentes até. Foi isso que me interessou mais e é isso que quero continuar a fazer noutros projectos que tenho.
Outros projectos para filmes, é isso?
Sim, para filmes. Mas não só, há algumas novidades musicais.
E quais são?
Bom, tenho gravado algumas coisas. Algumas não estavam nada planeadas... Tenho cantado para o gravador e isso não era costume. Eu, a cantar? Não era nada disso que esperava. Mas estamos a preparar um álbum Tonga e para isso decidi fazer algumas coisas diferentes. Estou sempre a complicar e entretanto vou adiando aquilo que realmente quero começar a fazer. 
E é aqui que voltamos ao cinema, não é?
Claro.
E fala de outro documentário?
Não, não, ficção mesmo. Já fiz várias curtas e nos últimos cinco anos tenho filmado constantemente. Mas fazer um filme é um compromisso e obriga quem o faz a ser muito responsável durante alguns anos, a não fazer mais nada. Mas tenho a certeza de que vai acontecer.
Há também a questão financeira...
Sim, essa é a principal dificuldade. Podia gravar um disco amanhã, fazer um filme é mais difícil. Posso sentar-me e gravar um álbum, do princípio ao fim, com alta qualidade técnica. E não iria custar muito dinheiro, estaria tudo muito mais dependente das ideias que iria ter ou não. Para fazer um filme, não é bem assim. O mais importante seria convencer alguém a financiar o filme.
Mas o nome Mike Skinner não ajuda a conseguir isso?
Duvido, porque ninguém me conhece enquanto realizador. Há essa questão: que garantia é que dou a pessoas que nunca me viram nesse meio? Acredito que com o argumento certo, qualquer pessoa o consegue fazer. Mas ainda não escrevi.
Porquê?
Porque sou constantemente desviado para outras coisas. Mas sei que isto vai acontecer, não tenho qualquer dúvida.
E a tal questão da responsabilidade?
Traduz-se de maneiras diferentes. No meu caso tem mais a ver com seguir o instinto criativo, e não tanto as expectativas de outros. Confiar em mim próprio. Não é assim tão fácil, por mais estranho que pareça.

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