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Rossi vs. Márquez. Quando o corpo não tem juízo, a cabeça é que paga
Materazzi, o tal da cabeçada de Zidane, defende o compatriota. “Rossi é um exemplo, Marc não"

Rossi vs. Márquez. Quando o corpo não tem juízo, a cabeça é que paga

Materazzi, o tal da cabeçada de Zidane, defende o compatriota. “Rossi é um exemplo, Marc não" AHMAD YUSNI/EPA Rui Miguel Tovar 28/10/2015 17:39

Um encosto, uma patada e está o caldo entornado no GP Malásia. O primeiro--ministro italiano defende a sua dama, o presidente do governo espanhol também. E ainda faltam 11 dias para o título, em Valência.

Junho, 1997. Atenção, discute-se o título mundial entre Evander Holyfield e Mike Tyson. No primeiro round o árbitro pára o combate e sanciona Holyfield por dar cabeçadas. No terceiro, Tyson reage e morde-lhe a orelha direita – a Holyfield, não ao árbitro.

Estala a polémica. Holyfield vai para um canto, Tyson para o outro. Tudo bem? Tuuuuudo. E recomeça-se. Tyson dá um passo em frente e tenta morder outra vez (é um pré-histórico Luis Suárez). É o fim da picada. Literalmente. Tyson é automaticamente desclassificado. Out. Dentro do ringue, um orni. Um quê? Um objecto rastejante não identificado. Uau, é um pedaço da orelha de Holyfield. É isso, quando a cabeça não tem juízo (Tyson), o corpo é que paga (Holyfield).

Julho, 2006. As meias-finais do Mundial juntam quatro selecções europeias. A final, só duas (amazing grace). Zidane adianta a França, de penálti. Materazzi empata. No prolongamento, estes dois pegam-se numa jogada cocorocó. De repente está montado um circo. Zizou nem pensa e dá uma valente marrada no peito de Marco. A acção vale-lhe o vermelho do argentino Elizondo. Para cúmulo, Itália sagra-se campeã no desempate por penáltis. É isso, quando a cabeça não tem juízo (Zidane), o corpo é que paga (Materazzi).

Boxes sem luvas (Tyson-Holyfield), futebol sem chuteiras (Zidane-Materazzi), e agora isto

Outubro, 2015. Boxe sem luvas, futebol sem chuteiras, o que falta? Motos sem mãos, tu queres ver? O GP Malásia, em Sepang, é a 17.a e penúltima corrida do ano. Bom, é preciso recuar um pouco mais, até Abril. É o GPArgentina. Na 22.a volta, curva 5, o líder, Marc Márquez, sofre um toque de Valentino Rossi e desiste. O italiano, esse, ganha a prova.

Três semanas depois, os dois voltam a encontrar-se, no GP Espanha. Na sala de imprensa, tanto Márquez como Rossi conversam animadamente. “Sabemos que são coisas próprias das corridas”, atira o espanhol da Honda. “Somos como um casal: beijamo-nos menos mas tudo continua igual na cama”, graceja o homem da Yamaha. Os jornalistas partem-se a rir, a amizade é para continuar. Ou não?

A verdade é que não.No GP Austrália, em Philip Island, a vitória de Márquez é amplamente criticada por Rossi. “Ele não jogou de forma igual: comigo faz uma coisa, com o Lorenzo faz outra”, numa alusão às facilidades/dificuldades durante ultrapassagens e afins. “Assim não.Se acontecer uma próxima vez, terei de lhe falar.”

Antes de passar o microfone, Rossi dá o toque a Lorenzo. “Não achas?” “Sim, sobretudo na última curva”, responde o espanhol, numa alusão à ultrapassagem de Márquez, que lhe garante a vitória e rouba 5 pontos ao compatriota.

Eis que surge então o tal GP Malásia. Já sem hipótese de chegar ao título, entregue à discussão entre Rossi (297 pontos) e Lorenzo (285), Márquez encosta-se ao italiano e provoca-o com ultrapassagens bem próximas, mais arrojadas que nunca.Quando o assunto é entre espanhóis, Lorenzo passa por Márquez como se nada fosse. Huuum, aqui há gato.

Às tantas, na sétima volta, Márquez entrelaça-se com Rossi e sente-lhe o bafo quente: o capacete na perna esquerda. No quadradinho seguinte, Rossi dá uma patada e Márquez vai ao chão. É isso mesmo, quando o corpo não tem juízo (Márquez), a cabeça é que paga (Márquez). O GP é ganho por Pedrosa.Em segundo, Lorenzo.Em terceiro, Rossi.

A distância entre os candidatos ao título está mais curta ainda: 7 pontos de vantagem para o italiano. Nos bastidores  há um bate-boca. “Gran carrera”, diz Rossi. “Gran patada”, reage Márquez. Está o caldo entornado. A comissão, liderada por um espanhol, analisa o caso e castiga Rossi.A punição obriga o italiano a partir no último lugar no GP Valencia, dia 8 de Novembro. O descontentamento é brutal.

Marco Materazzi, o tal da cabeçada de Zidane, defende o compatriota. “Rossi é um exemplo, Marc não. Que injustiça. Em 2006 levei dois jogos e oZizou nenhum. Continua a pouca-vergonha.” Até Matteo Renzi, primeiro-ministro de Itália, telefona a Rossi a dar-lhe apoio a meio de uma visita de Estado a Lima (Peru). No outro lado, o presidente do governo espanhol Mariano Rajoy, dá o toque a Rossi: “O desporto é como a política: não vale tudo. O nosso apoio vai para Márquez.” Ui, isto mete política.

Rossi está revoltado, depois acalma. E diz de sua justiça: “Obrigado pelo apoio de milhares de pessoas. Está decidido, vou correr em Valência.” É esperar pelo dia 8.É um Lorenzo/Márquez-Rossi, umEspanha-Itália. E em Espanha.

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