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Malefícios da carne. Portugueses não foram apanhados de surpresa
As carnes processadas foram colocadas ao mesmo nível do tabaco

Malefícios da carne. Portugueses não foram apanhados de surpresa

As carnes processadas foram colocadas ao mesmo nível do tabaco Eduardo Martins Melissa Lopes 28/10/2015 15:25

O alarme pode ter soado, mas só nas notícias. Para os portugueses, saber que a carne em excesso faz mal à saúde não é nada de novo.

A notícia sobre as conclusões do estudo da Organização Mundial da Saúde correu os noticiários anteontem, mas os portugueses já sabiam que a carne, sobretudo a processada, não é propriamente um elixir de saúde e muitos já não a consomem de há uns tempos para cá. 

O casal Costa, ela Helena, ele João, garante ao i que “já não tem estômago” para enchidos. Apanhados em frente à charcutaria, até podiam estar a pensar comprar fiambre, mas a conversa sobre o tema tirou-lhes o apetite. João, de 79 anos, assegura que a notícia de ontem não lhe trouxe qualquer novidade e que já há muito tempo tem uma “opinião negativa” sobre as carnes processadas, mas não só. “Vivemos num mundo cheio de toxinas e de nitratos”, diz João, apontando para a secção dos verdes. “Nem os legumes se safam disso.” 

Para este reformado, “come-se muita porcaria” nos dias que correm. E a culpa não é da carne em si, mas da forma industrial como todos os animais, incluindo as aves, são criados “quase de um dia para o outro”, que lhes retira qualidade e sabor. “Até o peixe é todo de aquicultura”, atira a esposa, Helena. “Já nem se come um robalo em condições, como antigamente”, exemplifica ainda, apontando como principal problema a poluição das águas. 

Apesar de a carne ser quase uma raridade na alimentação do casal Costa (culpa da idade, dizem), de vez em quando rendem-se ao cozido, prato tipicamente português feito com carnes e enchidos. Mas Helena conta que já não é tão prazeroso comer aquele prato. “No outro dia almocei cozido, no dia seguinte tinha os lábios rebentados”, recorda. Para Helena, não há qualquer dúvida: o responsável foi aquele pedaço de enchido do cozido que comera no dia anterior. O marido confirma a história, abanando a cabeça. Mas há um reparo que Helena gostaria de fazer e que elucida bem a ironia dos tempos modernos: "Quando estava grávida da minha filha [há 28 anos], o médico mandava-me comer presunto. Agora chegou-se à conclusão que não presta".

Maria de Fátima, de 73 anos, que já se aviou de fiambre, diz que pelo menos há 15 anos que os médicos dizem que “essas doenças” são causadas pela alimentação e pela fraca qualidade das águas, sobretudo das águas dos solos. A conclusão do estudo da OMS é, para esta senhora, a confirmação daquilo de que já se desconfiava. 

relativizar e equilibrar Carla Neves, de 40 anos, também tem uma opinião bem formada sobre o assunto. Garante que não ficou preocupada com o facto de as carnes potenciarem o desenvolvimento de cancro, até porque aplica em toda a sua vida um princípio básico: “Tudo aquilo que é feito ou consumido em excesso traz sempre problemas.” Com efeito, “moderação” é a palavra-chave. É que “para morrer basta estar vivo, não é?”, interroga, ao mesmo tempo que agarra numa embalagem de fiambre. Carla também repara que estes alimentos são os mais baratos e os únicos que muitas famílias conseguem comprar para pôr na mesa na hora da refeição: “Há muita gente que faz refeições só de salsichas, uma fatia de fiambre e batatas”, lamenta.

Sobre o facto de as carnes processadas (fiambre, bacon, enchidos, salsichas) terem sido colocadas no mesmo patamar do tabaco quanto aos níveis cancerígenos, Carla considera um exagero porque julga que ninguém come “um quilo de fiambre por dia”, da mesma forma que se fuma um ou dois maços diariamente. “É tudo uma questão de equilíbrio”, reforça. E faz questão de ilustrar a sua opinião: “Se eu for fazer exercício físico exageradamente, rebento os elásticos (tendões).” Em relação às carnes vermelhas, Carla admite que gosta de um “bom bife”, mas as notícias deixam--na de pé atrás porque come uma quantidade maior de bifes do que de fiambre. “O cerco devia ser mais apertado na forma como os animais são criados”, sugere ainda, reforçando a ideia do casal Costa: “A carne já não é o que era, está toda alterada.” 

Ana Margarida Nunes também já sabia que a carne traz malefícios à saúde. É justamente por isso que come carnes vermelhas apenas uma vez de 15 em 15 dias, optando mais por carnes brancas e peixe. Presuntos e outras iguarias processadas, só mesmo em ocasiões muito especiais. A única coisa que não é tão fácil retirar da alimentação lá de casa são as salsichas. Os filhos “gostam muito” e, convenhamos, é muito prático cozinhá-las. 

Variedade Junto à charcutaria encontramos também o arquitecto Francisco Andrade, de 44 anos. Apanhamo-lo em flagrante delito. Está a pedir 200 gramas de fiambre, mas prontifica-se a explicar que não come todos os dias e que até é bastante raro fazê-lo. Confrontado com os resultados do estudo divulgado anteontem, Francisco diz que não ficou a saber nada de novo. Tal como o casal Costa e a mãe Carla, o arquitecto relativiza o alarme lançado: “Não é só a carne que faz mal. Em bom rigor, tudo o que é processado é prejudicial.” E nesse lote, lamenta, entra quase tudo o que os supermercados vendem, incluindo os produtos da moda, considerados saudáveis, como a soja, as sementes e todos aqueles que estão na berra só por não terem glúten. 

Francisco sabe em que mundo vive e isso preocupa-o, mas também não se rege por normas radicais no que toca à alimentação. Elege a dieta mediterrânica como aquela que poderá dar mais saúde – essencialmente porque se baseia na variedade de alimentos e inclui uma grande porção de legumes e frutas da época. "O ideal seria voltarmos às origens da agricultura biológica". Não sendo possível, sublinha Francisco, que tenhamos comportamentos moderados. 

Rosalina, de 83 anos, é que não está para grandes conversas. O cancro roubou-lhe um filho e “de certeza que não foi por comer carne”. A reformada, que percorria os corredores à procura do sal fino, reage com cepticismo e indiferença às notícias. “E diga-me lá, vamos comer o quê?”, pergunta, explicando que “come um pouco de tudo, mas pouco come”. A tristeza está-lhe no rosto e nas palavras. “De uma maneira ou de outra, temos sempre de morrer”, desabafa. 
Indiferente ao estudo da OMS também está a adolescente Mariana Basílio, mas por motivos diferentes da dona Rosalina. “Sou fumadora e como carnes processadas. Sou uma bomba-relógio que vai explodir um dia destes.” Esta é a conclusão que retira, mas a idade faz com que não tenha qualquer preocupação com esse facto. Sabe que “não devia” ter esta atitude, mas por agora a alimentação não está no topo das suas apreensões. Daqui a uns anos falamos, Mariana.

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