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Zelimir Zilnik. “Talvez daqui a uns anos o líder da Comissão Europeia seja neto de um sírio”
Zelimir Zilnik, nascido na Sérvia há 73 anos: “Quando leio que os meus filmes reflectem as mudanças e os movimentos sociais fico sempre surpreendido"

Zelimir Zilnik. “Talvez daqui a uns anos o líder da Comissão Europeia seja neto de um sírio”

Zelimir Zilnik, nascido na Sérvia há 73 anos: “Quando leio que os meus filmes reflectem as mudanças e os movimentos sociais fico sempre surpreendido" D.R. Ana Tomás 27/10/2015 23:00

O Doclisboa faz uma retrospectiva do realizador sérvio, a mais completa sobre quem filma as transformações na Europa através de histórias particulares.

Compara um pouco o que faz ao trabalho de um jornalista, só que leva mais tempo e não trata as situações na generalidade. Os seus documentários centram-se em pessoas simples que, para o realizador sérvio de 73 anos, são os heróis que ficam dos tempos conturbados. Diz que, ao contrário de Michael Moore, não filma o seu processo de investigação, apenas o resultado. É isso que está no programa do Doclisboa, que exibe 49 filmes do cineasta, 14 dos quais em estreia internacional.

Nesta edição do Doclisboa temos uma retrospectiva da sua obra. O que sente ao ver todos estes anos de trabalho reunidos?
É uma experiência única. Já se fizeram outras, mas houve muitos filmes, cerca de metade dos que estão aqui, que nunca foram seleccionados para festivais, porque alguns foram feitos para estações de televisão e nem sempre, por razões técnicas, era fácil mostrá-los em eventos deste tipo. Ou algumas produções de baixo orçamento. 

Esta é então uma das retrospectivas mais abrangentes? 
Acho que é a primeira a que podemos chamar completa. O mais interessante é encontrar aqui coisas que não via há 35 anos, algumas deixam-me surpreendido. Por exemplo, o pequeno documentário chamado “Public Execution” (“Öffentliche Hinrichtung”), feito na Alemanha: se se retirar o contexto a que se refere, parece que o texto foi escrito há um ano e não em 1974.

Os seus filmes têm reflectido os processos de transformação na Europa e as mudanças nas fronteiras. E parece dizer-nos que se repetem os mesmos erros.
Quando leio que os meus filmes reflectem as mudanças e os movimentos sociais fico sempre surpreendido, porque a minha maior preocupação e o meu maior foco são as pessoas, os heróis anónimos. Isso é o que realmente me inspira, a bravura, a inteligência, a adversidade por que essas pessoas simples e comuns passam, tentando manter as suas vidas em circunstâncias difíceis. Da Sérvia à Croácia e à Bósnia, mas também noutros lugares. Todas as esperanças e promessas que deram às pessoas na sequência da queda do Muro de Berlim foram quebradas. Em vez disso, vive-se agora em sociedades que estão mais devastadas economicamente e até mais desumanas que nos estados socialistas. 

Como encontra as personagens que são o centro dos seus filmes? 
Quando me interesso por um assunto vou aos sítios, é isso. Por exemplo, no filme “The Old School of Capitalism”... Tinha visto a devastação que foi provocada pelas medidas de implementação do capitalismo, mas não sabia os pormenores. Vi nos media que algumas fábricas foram ocupadas pelos trabalhadores que tinham sido despedidos. E alguns deles eram verdadeiros criminosos que constavam de listas internacionais, que venderam as máquinas e os terrenos. Fui a essas fábricas com a minha equipa ver o que se passava e tentar seguir a luta deles. Fiz três documentários simples, um de três horas, outro com uma hora e outro de meia hora. E dei-lhes esses documentários. Ao fim de três meses, eles ganharam algum espaço nos media. Fundaram um partido de desempregados que conquistou alguns lugares no parlamento. E este assunto, que era um tabu, passou a ser discutido na sociedade. 

Foi quase um herói para eles, não?
Voltei a estar com eles e comentei que iria partir para o meu próximo filme, e eles disseram que não tinham contado a história toda. E o que me contaram dar-me-ia a ideia para um filme de ficção. Então passámos mais duas semanas em que alguns deles acabaram por participar como actores. Ajudaram-me a encontrar os chamados novos capitalistas que, na altura, já tinham entrado em bancarrota. Fiz um guião. Arranjei também um grupo de anarquistas que estavam muito interessados nesta questão da privatização. Só assim consegui fazer este filme.

E é sempre assim que trabalha? 
Este método é um bom exemplo de como faço os meus filmes quase sempre, sim. 

O facto de ser contemporâneo dos assuntos que trata influencia a maneira como eles passam para o público?
Não sei se o nosso envolvimento com esses assuntos muda a sociedade. Apresentamos casos particulares, que não são os milhões de pessoas que sofreram com essas transformações. Por isso, não sei como são as coisas com outros milhões que não retratei. Mas os filmes acabam por ser uma ferramenta mais poderosa que os livros, por exemplo, e às vezes causamos realmente impacto nas vidas das pessoas. Muitas delas ganham confiança nelas próprias, ficam orgulhosas por fazerem parte dos filmes, por terem a possibilidade de se expressarem num espaço que não têm noutros meios. Em muitas situações, apercebemo-nos de que quebramos tabus.
Como, por exemplo?
Pessoas que passaram dez, 20 anos como refugiados noutros países, durante a guerra nos Balcãs. Muitas fugiram porque não queriam pegar em armas e matar amigos e irmãos, porque muitos tinham heranças étnicas misturadas, croatas e sérvias. Mas a elite política queria incentivar ao ódio e empurrá-los para a guerra uns com os outros. Então fugiram. Quase dois milhões de pessoas escaparam, sobreviveram e criaram os filhos em países como a Alemanha, a Itália, a Holanda ou a França. Com o fim da guerra, essas famílias foram obrigadas a regressar aos seus países de origem, trazendo milhares de jovens que ficaram completamente perdidos.
Com a mistura de identidades? Nas esquinas das ruas vemo-los a falar as línguas dos países de acolhimento, alemão, italiano, francês ou holandês, e todos os olham como estrangeiros. Então um amigo desafiou-me a fazer um documentário sobre isso. Ouvi uma história que não passou nos media e foi assim que decidi fazer um conjunto de documentários simples sobre a vida daqueles miúdos para sensibilizar a sociedade. Fizemos cartas em vídeo desses miúdos para os seus amigos dos países onde eles viveram. Entretanto apercebi-me de que no meio deles havia uma questão que estava escondida: que alguns políticos corruptos tinham roubado o dinheiro que esses países tinham dado para a inserção escolar desses miúdos quando regressassem. Portanto, nessas pequenas histórias encontrei essa história maior que, por outro lado, também mostrava procedimentos burocráticos dos países de acolhimento que violavam as suas próprias constituições. Isso deu origem à trilogia “Kenedi”, que mostrou que essas famílias que voltaram não fizeram nada de criminoso. 

Quando soube que queria ser realizador?
Sou da geração que começou a escola já depois do fim da II Guerra Mundial e o meu país foi um dos mais devastados, havia muita pobreza. Em 30 alunos, 27 não tinham sapatos e as roupas eram feitas de cobertores velhos. Mas nos dez anos seguintes houve um grande progresso e os nossos grandes momentos eram aqueles em que íamos ao cinema. Havia acesso a filmes do Leste e ocidentais porque tinha havido um rompimento com Estaline, em 1948, portanto podíamos ver o neo-realismo italiano, Buñuel, até o novo cinema brasileiro. Era a única janela para o mundo. A ideia de fazer cinema veio um pouco daí. Depois entrei nos cineclubes, que existiam muito nos países socialistas. Muitos cineastas dessa geração vieram daí. 

Hoje assistimos a uma vaga de refugiados que procuram a Europa para fugir à guerra, muitos passando pela Sérvia. Com base naquilo que viu e retratou nos seus filmes, que futuro antevê?
O que irá acontecer, não sei, porque acho que não vou viver o suficiente para ver as consequências. A situação agora é um pouco diferente da de outras vagas de imigrantes, por exemplo. As pessoas vêm de países em guerra, trazem cicatrizes na alma muito profundas. Passei o último ano a fazer o filme “Logbook Serbistan” e percebi que eram excelentes pessoas, com um grande nível de educação, mas completamente devastadas. E comecei a pensar como se poderiam integrar estas pessoas em países que não têm guerras há séculos. Haverá mudanças? A América viveu muitos anos com a discriminação racial e agora é governada por um presidente afro-americano. Quem sabe? Talvez daqui a uns anos o líder da Comissão Europeia seja neto de um refugiado sírio.

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